Geraldo Luis: "Depois de ter filho, eu me encontrei!"

Geraldo Luis conta como a paternidade o fez perdoar o pai que o desamparou na infância

quinta 30 março, 2017
Entrevista com Geraldo Luis
Entrevista com Geraldo Luis Foto:Edu Moraes
Lola, estou indo comprar um cigarro e já volto”. Essas foram as últimas palavras que o pequeno Geraldo Luis, então com 4 anos, ouviu antes do pai, também Geraldo, sair pela porta de casa, em um 24 de dezembro, e nunca mais voltar. Lola é o apelido de D. Olga, a mãe do apresentador dos programas Domingo Show (aos domingos, das 11h às 15h30), que desde 2014 já ficou mais de seis mil minutos na liderança, e Geraldo Brasil (toda sexta, das 22h30 às 23h30), ambos na Record TV. A vida correu e o animador assumiu o papel de chefe de família até que a união de 14 anos com a mãe de seu filho único, Mirela Maltepi, chegou ao fim. João Pedro, herdeiro do casal, passou um curto período com ela após a separação, mas aos 8 anos, foi morar com o pai. A partir daí começa uma história de amor, superação e descobertas que Geraldo conta na entrevista exclusiva a seguir. Porém, não sem retomar a relação com o próprio pai para justificar o resistente e afetuoso vínculo com o filho.


Você sonhava em ser pai?
Desde os 17 anos, pois foi quando conheci pais carinhosos com seus filhos. Quando via um pai beijando a cabeça do filho, me machucava muito.


Por que isso acontecia?
Porque o meu pai abandonou a minha mãe quando eu tinha 4 anos, no dia 24 de dezembro. Depois, descobrimos que ele formou outra família. Então, entrei em processo de ódio contra ele. Me perguntava porque tinha feito aquilo, porque a vida não gostava de mim, porque todas as pessoas tinham um pai menos eu... Tudo isso me deixou amargo como filho.


Essa revolta durou até quando?
Quando comecei a conviver com famílias que tinham pais amáveis e passei a fazer campanhas, distribuindo pão e leite aos famintos, tive mais acesso às crianças – e muitas com um passado pior do que o meu. Elas começaram a me alimentar. A minha
amargura foi diminuindo e me deu uma vontade enorme de ser pai. 


Mas você só foi pai aos 30… 
Como minha mãe teve câncer, eu só pensava em trabalhar para melhorar de vida e sair daquele local, pois morávamos no fundo de um prostíbulo em uma zona de tráfico em Limeira (SP). Ela lavava roupas para as prostitutas. A meta da minha vida era tirá-la de lá e curá-la da doença. E consegui. Ela só morreu em 2007.



Voltando ao João, como soube que seria pai?
Na noite em que fiz amor com a minha ex-mulher, a Mirela, disse a ela que o nosso filho acabara de nascer. Um mês depois, a gravidez se confirmou. Quando ele nasceu, e a Mirela me entregou o João, ele chorava muito. Ao pegá-lo, ele silenciou. Eu me
encontrei. Parece que eu estava pegando a mim mesmo no colo. Senti como se, a partir daquele dia, eu não fosse mais sozinho.


O que mudou em você?
Voltei a ficar mais calmo. Em um ano, o ódio do meu pai começou a sumir. 


E voltou a vê-lo?
Só o conheci quando eu tinha uns 18 anos. Aí, voltamos a ter contato quando o ajudei financeiramente e, por último, quando o João tinha 13 anos e fui levá-lo para conhecer o avô. A única vez que tive um contato maior, foi quando meu pai teve um problema
no coração. Antes de ser operado, conversei com ele: “Não tenho mais nada contra o senhor. Peço desculpas por tê-lo colocado como um demônio dentro de mim”. Ele me perdoou, sobreviveu e só morreu há três anos.



Após separar-se da sua ex, seu filho já veio morar com você?
Não, ele morava com a mãe em Campinas (SP) e eu em São Paulo, na capital. Quando me separei, após 14 anos, ele tinha 7 anos e começou a sofrer muito. Aí, começou a dizer que queria morar comigo e conversaria com a mãe sobre isso.


Sua ex não achou ruim?
Eu e ela sempre fomos muito amigos. Nunca sentimos ódio um do outro. E o principal: ela percebeu a aproximação do João comigo e sabia que ele ficaria muito bem ao meu lado. E, enfim, ele veio morar com você? Em comum acordo, embora achem
que tenha acontecido uma briga judicial, decidimos que ele moraria comigo. Não precisou de juiz, não teve audiência… Resolvemos tudo na sala da casa dela. Muita gente pode perguntar como uma mãe deixou o filho ir embora. Ela não o abandonou.
Apenas notou que o João seria tão bem cuidado por mim quanto seria por ela. A Mirela me entregou ele por amor. Sou eternamente grato pelo entendimento e a generosidade dela. Eu não seria o mesmo se não tivesse me tornado pai e mãe há oito anos.


Quais foram as maiores dificuldades de criar um filho?
Cuidar de um filho é natural para a mulher, pois o bebê saiu do útero dela, da alma dela. O pai dificilmente tem essa coisa materna. Tive que dar o peito ao meu filho. Não o leite, claro… mas me refiro a atenção materna que somente mãe consegue. Não sabia
cuidar de uma criança. Mas o amor tem uma receita tão bela que coloca dentro de um homem e de uma mulher o que for necessário naquele momento.



O João te deixou mais doce?
Não tenho a menor dúvida disso. Ele promoveu uma transformação, uma reciclagem em mim. Eu precisava ter a doçura da mãe, não podia ser austero o tempo todo com um menino de 8 anos. Até quando ele tinha uns 14 anos, eu era um belo misto de
homem e mulher na forma de cuidar, pegar, fazer dormir, descobrir quando estava ficando doente…



Como define a ligação de vocês?
Acredito que temos uma ligação altamente espiritual. Uma vez, ele tinha uns 10 anos e eu estava chorando. Ele chegou, segurou no
meu queixo e disse: “pai, eu sei porque você está chorando: não é nada fácil ficar sozinho, né?”. Aí, chorei mais ainda. O João já me entende desde criança da mesma maneira que eu consigo compreendê-lo.


Já que ele está com 16 anos, o que é mais difícil na criação de um filho adolescente?
Entender o que eles não entendem. O João está em uma fase em que começou a me confrontar. Então, conversamos e batemos de frente.



Como você fica quando brigam?
Muito mal. Quando alguém me diz algo, tomo aquilo como definitivo e não devo ser assim. A vida não é esse ponto final. Muitas vezes, a vida é reticências. O João me ensina isso.



E ele deixou de ser criança...
Isso também tem sido difícil, pois sinto que está acontecendo o desligamento da infância. Ou seja, não posso ser o mesmo pai de antes. Ontem, ele me disse que em Londres tem uma escola de música, teatro e cinema bacana. Já é um sinal de que quer partir. Sei que em dois anos ele vai estudar fora.



Está se preparando para isso já?
Já… Estou tentando cortar o cordão umbilical, mas está muito difícil para mim, pois é como se eu voltasse a ser filho único. Afinal, parte de mim vai embora e eu ficarei sozinho.



Por que nunca mais se casou?
Abri mão das mulheres para cuidar do João. Quando ele estiver encaminhado, estará tudo certo. Muita gente diz que estou sozinho, perguntam se sou gay… Eu apenas abri mão da vida a dois para cuidar de um filho que, por enquanto, depende de mim.



Acha que protegeu ele demais?
Com a vida desgraçada que tive, claro. Mas embora o João conviva com todas as dificuldades que eu tive, nunca mostrei o mundinho de Alphaville (condomínio de casas próximo à cidade de São Paulo em que moram). Não é o mundo verdadeiro para ele, isso aqui é uma bolha. Sempre o levei em todos os lugares para conhecer a realidade. O João já foi comigo distribuir sopa
para andarilhos, ver uma necrópsia... Fiz isso para ele conhecer a dor do ser humano. Hoje, os pais preparam os filhos para o mundo deles.



Não foi pesado levá-lo para ver uma necrópsia?
Talvez... Mas eu queria que ele visse que não somos nada além do fruto da bondade divina e que, de uma hora para outra, podemos morrer. O cara que estava aberto sobre a mesa era muito poderoso, rico... O João viu, então, que nada disso importava. O impacto que sempre causei na vida do meu filho o fez ser muito tranquilo no tocante à minha fama e ao dinheiro. Ele não se importa com nada disso. Quando Deus achar que João já tem o entendimento para viver sem mim, Ele pode me levar embora.



É um pai rígido?
Às vezes, acho que até demais. Se eu fosse mole, não criaria um filho, mas um futuro problema. Corremos o risco de dar tudo aos filhos, mas deixar o principal de lado, que é a educação. Aí, quando ele crescer estará perdido, pode virar um marginal, alguém que grita com você. E o João tem amor, respeito e medo por mim. Os filhos perderam o respeito e o medo pelos pais. Não falo de medo no sentido de aterrorizar a criança, mas dela conhecer os limites de até onde por ir, de saber que, caso ultrapasse esse limite, o pai agirá.



Pretende ter mais filhos?
Eu queria uma menina ainda. Filho renova a gente. Vejo pais com 50, 60 anos e acho incrível. Cheguei a pensar em uma barriga de aluguel, mas não estou programando nada... Para essa solidão que estou começando a sentir agora com a possível saída do João de casa para estudar, uma criança me preencheria de novo. Gosto tanto de ser pai e mãe que é uma pena homem não poder engravidar. Se pudesse, eu ficaria grávido fácil!

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Fabricio Pellegrino
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