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Bebês / Crianças

Montessori: o que é e como funciona este método educacional

Veja dicas de como levar esse modo de lidar com o mundo para o dia a dia dos pequenos

*Priscila Correia, do Aventuras Maternas, colunista de AnaMaria Publicado em 09/09/2021, às 13h32 - Atualizado às 14h08

Crianças já nasceriam preparadas para assimilar o mundo. - Paige Cody/Unsplash
Crianças já nasceriam preparadas para assimilar o mundo. - Paige Cody/Unsplash

Quando uma mulher descobre que está grávida, é comum começar a pensar sobre como será o quarto da criança que chegará em breve. Cores, temas, formato dos móveis etc. E durante essas pesquisas sobre a construção desse novo ambiente da casa, certamente elas vão se deparar com o método Montessori, que cada vez mais chama a atenção das famílias que buscam oferecer para os filhos autonomia e experimentação.

Embora muitos associem essa filosofia apenas a móveis mais baixos e camas diferentes – muitas com telhado de casinha, o método criado por Maria Montessori no início do século 20 é muito mais do que somente uma forma de decorar os quartos infantis. E para entender melhor tudo sobre esse assunto, a coluna desta semana explica como funciona esta pedagogia centrada na criança, a começar pela definição do que isso quer dizer na prática, até dicas de como levar esse modo de lidar com o mundo para o dia a dia dos pequenos.

MONTESSORI NA TEORIA
Ao observar a educação tradicional de sua época, Maria Montessori percebeu o que muitos não notavam: o desenvolvimento das crianças se dá pela individualidade, ou seja, cada pequeno indivíduo cresce em seus próprios termos, com afinidades particulares e dificuldades também específicas, o que era ignorado até então. As aulas nas escolas, por exemplo, se concentravam no professor, que retirava qualquer autonomia dos alunos e transmitia conhecimentos de maneira vertical, sem a participação da turma. Nesse tempo, confundia-se muito disciplina com passividade. 

Para Montessori, as crianças já nasciam preparadas para assimilar o mundo de sua maneira especial, e possuíam individualidades ricas que deveriam ser respeitadas. E, por isso, ela desenvolveu seis pilares que ajudariam pais, escolas e sociedade em geral a entender as necessidades de cada fase do desenvolvimento infantil: ambiente organizado, autoeducação, educação como ciência, educação cósmica, adulto preparado e criança equilibrada.

Segundo Yolanda Basilio, diretora pedagógica da POPPINS micro-schools, empresa de educação infantil domiciliar, os benefícios do método são inúmeros:

  • promover uma educação respeitosa;
  • educar a criança para que a mesma se torne um adulto consciente, conectado consigo e com o universo;
  • promover uma maior e mais clara consciência sobre si;
  • incentivar a curiosidade e criatividade e estimular a autonomia.

"Para promover a autoeducação, precisamos entender e olhar para a criança como protagonista na brincadeira/atividade. A ideia é que a criança se auto eduque ao lidar com todo o mundo ao seu redor, principalmente quando explora e testa os estímulos que, de fato, despertam o seu interesse”, diz.

Yolanda complementa que, segundo Maria Montessori, a educação cósmica trabalha harmonizando a criação da criança com a sociedade, com a natureza e com o indivíduo. "É uma abordagem sistêmica e holística, que entende a aprendizagem de forma ampla e integrada aos aspectos de todo o universo. Portanto, para brincar e promover essa visão mais abrangente, basta olhar para criança como parte de um todo e valorizar todas as trocas possíveis em seu ambiente natural”, complementa.

LIBERDADE DEMAIS?
Como tudo o que é desconhecido, o método enfrenta alguns preconceitos por parte de pais e familiares que não conhecem os pilares a fundo, entendendo a autoeducação como permissividade e excesso de autonomia. Na prática, isso representa "apenas" a possibilidade que os adultos dão à criança de explorar o ambiente, as sensações e os estímulos de acordo com os seus interesses próprios. "Ou seja, autoeducação = respeito pelas necessidades e pelo ritmo de cada um. Limites precisam ser apresentados quando necessários e incentivar a autoeducação não significa abrir mão dos famosos “combinados”, diz a diretora da POPPINS.

E é exatamente no desenvolvimento de Gael, com 2 anos e 7 meses, que Laís Molina percebe o processo de autonomia, senso de organização e até responsabilidade proporcionado por essa filosofia, já que, por exemplo, da mesma forma que ele acessa brinquedos com facilidade, também sabe que deverá guardá-los nos lugares corretos. "Além da liberdade dele mesmo escolher com o que vai brincar e até roupas, também pode ir dormir ou acordar sem depender dos adultos para isso”, conta.

O psicólogo Damião Silva destaca que o método é extremamente rico e oportuniza verdadeiras experiências de aprendizagem ricas e desafiadoras. Afinal, tudo é pensando para a criança e de acordo com ela. "Por isso, a importância de formação adequada. Não é unicamente ler um livro ou ver vídeos, ouvir podcasts. É preciso se aprofundar no método desde o inicio até os dias de hoje”, sugere.

Júnia, mãe de Aurora, aposta no aprendizado lúdico. (Crédito: Arquivo Pessoal)

E foi exatamente isso que Júnia Brasil, mãe de Aurora, que está com três anos e tem quarto montessoriano desde que completou um ano e aprendeu a andar, fez. Ela conta que, além de pesquisar bastante sobre a metodologia, adaptou tudo que aprendeu à sua realidade e às preferências da filha. “Busquei colocar elementos que faziam parte do aprendizado dela na escola, por exemplo, e outros que ela gostava mais. Fiz o mais interativo possível para que o local fosse um ambiente de descanso, de aprendizado e, também, de diversão”, comenta.

Damião ressalta, entretanto, que o método, apesar de extremamente benéfico, nem sempre se adequa ao estilo e perfil de aprendizagem da criança. "Alguns se adaptam melhor na educação infantil, no ensino fundamental podem ter mais dificuldades. Então, precisamos sempre olhar para essa criança e entender as necessidades naquele momento de desenvolvimento dela e respeitar as demandas”, pontua.

BRINCAR E APRENDER

A mãe de Maitê, Paula, estimula independência, segurança, respeito e criatividade na criação da filha. (Crédito: Arquivo Pessoal)

Uma "filosofia de vida”. É assim que Paula Virgínia de Moraes, mãe de Maitê e grávida de Pedro, define o método em sua prática diária. Segundo ela, trata-se de olhar a criança com empatia, de entender suas limitações e estimular suas capacidades de acordo com sua fase de desenvolvimento. "Não se limita à moda da cama de casinha. O quarto dela, sem dúvida, é o que está mais adaptado: cama no chão, espelho para se ver, tatame como tapete, quadros, brinquedos, livros, roupas, material de desenho, tudo ao seu alcance. Mas o princípio se estende a todos os ambientes e principalmente às atitudes. Minha casa é de fato adaptada para meus filhos. Usamos escadas e móveis que facilitem sua independência. Mas é nas atitudes de incentivo à sua independência que mais vejo importância. Procuramos não fazer as coisas por ela e perguntar 'e se você tentar tal coisa, o que será que acontece?' ao invés de dar uma solução pronta. Comemoramos cada conquista e somos pacientes com os erros, sempre com empatia e respeito pelas suas vontades e escolhas”, conta.

E se ter um ambiente adaptado à criança traz retornos positivos, foi nisso que Peter Alves, da loja de brinquedos Prabhu, em Niterói (RJ), pensou ao criar um espaço do brincar no segundo andar de seu estabelecimento. “A ideia é que as crianças vivam a experiência da brincadeira dentro de uma loja de brinquedos. Temos jogo da memória, túnel, mesas com brinquedos de madeira, mesa de aramado. Muitos pequenos passam lá para brincar um pouquinho quase que diariamente”, conta orgulhoso. Ele destaca ainda que se preocupa em oferecer uma seleção que estimule o desenvolvimento motor, intelectual e criativo das crianças, com brinquedos que se tornem parte do dia a dia delas.

Para atender este conceito, o matemático Cesar Guimarães, mestre pela USP e CEO da MMP – Materiais Pedagógicos de Matemática conta que gosta de indicar para os pequenos alguns brinquedos como o Costurando Ideias (que ajuda na coordenação motora fina como pegar no lápis, por exemplo), painel da coordenação motora, linked cubes, Tangram, blocos lógicos e jogos que fazem diferença no aprendizado. "Já nas séries iniciais o famoso Material Dourado, ábaco aberto, fichas sobrepostas e Geoplano Quadrado também são muito importantes em vários estudos, como aprender as 4 operações, por exemplo”, sugere.

(Crédito: Luis Arias/Unsplash)

Além dos artigos, a criatividade na hora de brincar e lidar com atividades diárias é um ponto importante do método. "O nosso cérebro tem dois lados, o esquerdo é analítico, cartesiano e o direito é emotivo, criativo. Os jogos pedagógicos usam os dois lados, porque o lado analítico entende o jogo e elabora as estratégias e o direito promove a interação com o outro jogador. Os materiais manipulativos, além de permitir isso, são autocorrigíveis. Se você quiser, por exemplo, copiar o desenho de uma vela no Tangram, o próprio material vai dizer para o aluno que tem algo errado e ele precisa tentar de novo”, explica Guimarães.

Para mães e pais de bebês que buscam esses brinquedos, alguns exemplos indicados, de acordo com a metodologia, são móbiles para berços; chocalhos, especialmente os de madeiras, pois facilitam o aprendizado por meio do tato; instrumentos musicais; espelho Montessori, que permite à criança formar um conceito sobre si mesma; artigos sensoriais e livros de pano. "A escolha dos mesmos deve sempre levar em consideração a idade da criança e a fase do desenvolvimento”, complementa Damião.

DECORAÇÃO E AUTONOMIA
Mas, afinal, como é um quarto montessoriano? “O conceito é que a escala do mesmo (tamanho e proporção dos móveis, do ambiente em si) seja de acordo com a criança e não com o adulto, de forma que ela tenha interação com o quarto e aprendizado sensorial e motor no mesmo. Para que isso aconteça, a criança tem que ter acesso e facilidade para usar o quarto com toda a segurança, o que estimula sua autonomia”, explica a arquiteta Ana Paula Siqueira, do Estúdio +2.

Quanto aos benefícios para um bebê e para uma criança maior, Ana esclarece: a questão da autonomia na formação da personalidade é muito presente. “Os menores começam a tocar as diferentes texturas (material da cama, material do chão, material do tapete), percebem as cores, se vêem refletidos, começam a se fortalecer ao segurar nas barras e ter segurança para os primeiros passos. A criança maior já adquire independência para algumas tarefas, segurança sobre o que gosta”, pontua.

(Crédito: Arquivo Pessoal)

A também arquiteta Isabella Magliarelli, do IM Arch Design, lembra, ainda, que esses espaços têm uma decoração que incentiva a liberdade, independência e desenvolvimento das crianças. “Por isso é comum ter camas mais baixas, para que a criança possa levantar e deitar sozinha, além de brincar quando e como ela quiser. Tudo tem que ser de fácil acesso, como brinquedos, mesinhas. É dessa forma que ela pode se desenvolver do jeito e no momento dela, com as brincadeiras e estímulos que têm naquele momento”, esclarece.

Já a designer Tatiane Bueno, da Casa 88 Design e Decoração, ressalta que uma decoração no nível dos olhos das crianças é ponto fundamental. "Caixas e cestos que estimulem a criança a organizar suas próprias coisas; iluminação próxima à cama para dar segurança a ela; canto de estudos/leitura. Tudo ao alcance da criança. Além disso, é interessante ter plantas ou animais de estimação para incentivar o cuidado e proteção e aprender responsabilidade. Assim como retratos da família para estimular sentimentos como segurança, amor e gratidão e um espelho para autorreconhecimento e desenvolvimento de autoestima”, pontua.

Outra caracteristica importante desses espaços são os acessórios que “ajudam”, literalmente, no crescimento. Uma barra fixa na parede, por exemplo, vai auxiliar os bebês para que possam se apoiar quando começarem a dar os primeiros passos. “Da mesma forma, é interessante ter uma pequena cômoda, baixa, onde a criança possa ter acesso às roupas e comece a escolher o que vestir”, complementa Ana Paula Siqueira. Além disso, esse conceito normalmente indica um quarto com poucos elementos e brinquedos, mas distribuídos de forma a dar liberdade e ao mesmo tempo confiança na escolha dos mesmos.

“Não há excessos na decoração para que não haja um super estímulo visual. As cores podem ser suaves com algum detalhe mais forte e o lúdico hoje em dia começou a aparecer nas opções de camas e berços no chão, que lembram tendas ou casinhas. Deve-se evitar quinas pontiagudas e como é um quarto que acompanha a criança desde o nascimento até aproximadamente 5 anos, deve haver sempre um adulto por perto”, alerta.

O arquiteto Gustavo Pozzato, da Startup 1Comodo, explica que o quarto Montessori, além de ter uma decoração simples, vai crescendo junto com a crianca. “Desde bebê, ele foca em seu desenvolvimento emocional e motor. Vai construindo autonomia e segurança. Os móveis, por exemplo, só vão subindo com o tempo, sempre acompanhando os pequenos. Então, a estante, aos poucos, sai do chão; o espelho também pode ir subindo; a caminha já ganha pezinhos. Não tem muito mistério. A simplicidade e o respeito à infância desde o comecinho dela”, conclui.