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Aborto espontâneo e morte fetal: como lidar com a dor da perda de um filho

Situações vividas por famosas trouxeram assunto à tona; psicólogo explica modo de dar a volta por cima e canalizar os traumas

Ives Ferro Publicado em 02/10/2020, às 09h40

Chrissy Teigan e John Legend momentos após perderem seu terceiro filho - Instagram/@chrissyteigan
Chrissy Teigan e John Legend momentos após perderem seu terceiro filho - Instagram/@chrissyteigan

A modelo Chrissy Teigen esperava seu terceiro filho com o cantor norte-americano John Legend, quando o casal surpreendeu seus seguidores na última quarta-feira (30), ao anunciar que o bebê morreu momentos após o parto. Ela estava internada desde o início da semana, após sofrer sangramentos no último mês de gestação.

Em um texto divulgado em seu perfil pessoal no Instagram, a modelo ressaltou que os médicos fizeram de tudo para salvar a vida da criança, que ganhou o nome de Jack: "Estamos chocados e com o tipo de dor profunda de que você só ouve falar, o tipo de dor que nunca sentimos antes. Não fomos capazes de estancar o sangramento e dar ao nosso bebê os líquidos de que ele precisava, apesar das bolsas e bolsas de transfusões de sangue. Simplesmente não era o suficiente", escreveu.

Logo após Chrissy, Tata Estaniecki, esposa do humorista brasileiro Júlio Cocielo, revelou que sofreu com a mesma dor da modelo em 2018, quando descobriu ter perdido o bebê que esperava após um ultrassom. Segundo a influenciadora, o sentimento de incapacidade e insegurança a fez guardar a dor para si. Atualmente, ela é mãe de Beatriz, nascida em abril. 

Tata destacou que o acompanhamento psicológico é fundamental nestes casos. "Procurem apoio emocional, fiquem com as pessoas que vocês amam, compartilhem e dividam isso com pessoas de confiança. Abram o coração, não carreguem esse peso sozinhas", disse.

MAS COMO LIDAR COM TAMANHA DOR?

Para o psicólogo Alexandre Bez, as falas de Estaniecki e Teigen mostram o quanto é necessário o trabalho médico para cuidar dos traumas após um aborto ou a perda de um filho logo depois do parto (morte fetal). Segundo ele, a mulher alcança seu ápice psicológico na gravidez, e esse vínculo com o bebê desperta emoções diferentes, que se tornam um obstáculo na adaptação da nova realidade.

“A gravidez gera bastante expectativa, tanto que a partir da descoberta a mulher passa a se preocupar diariamente com o crescimento do filho”, explica ele à AnaMaria Digital. “Ao mínimo sinal de dificuldade e problemas durante a gravidez, isso faz com que o aparelho emocional dela emita sinais de preocupação e alerta incessantemente.”

A perda gestacional, explica Bez, pode provocar severas manifestações de ordem neurótica e ocasionar problemas como a depressão, perda de autoestima, vergonha, isolamento social e insegurança. 

“Toda aquela energia e poder gerada na gravidez pode ser revertida para frustrações. Quando um filho morre sendo gestado ou logo após o nascimento, rompe a ordem natural, sonhos planejados e expectativas depositadas sobre o bebê”, destaca ele.

SÓ A PSICOLOGIA BASTA?

Além do acompanhamento psicológico, tratamento fundamental citado por Bez, a meditação também pode ser uma boa aliada. “Geralmente esquecer a dor não é o caminho indicado, é necessário entendimento e aceitação. Aceitar o luto e abrir espaço para ser feliz novamente é essencial”, complementa.

O psicólogo comenta ainda que o papel dos amigos e familiares é essencial para ajudar na recuperação psicológica e comportamental dos pais. A escolha de “evitar a dor” e “silenciar” a tragédia não são recomendados e podem até piorar tudo.

“Esse casal, e mais especialmente a mulher, precisa de acolhimento. Para quem convive com eles, o que aconselhamos é que fale sobre a perda, comente sobre o bebê, esteja disponível para escutar e respeite o momento. Os amigos e familiares além de proporcionar apoio e fortalecimento emocional, ajudam a eliminar os temores e culpas”, conclui.