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Afinal, o jejum da Mayra Cardi funciona? Saiba mais sobre prática que gerou polêmica

Fomos atrás de especialistas, e alguns estudos, para entender melhor como funciona a prática

Sabrina Castro, com supervisão de Vivian Ortiz Publicado em 20/05/2021, às 08h20 - Atualizado em 24/05/2021, às 15h29

Mayra Cardi compartilhou processo no Instagram - Instagram/@mayracardi
Mayra Cardi compartilhou processo no Instagram - Instagram/@mayracardi

Nas últimas semanas, pipocaram polêmicas e dúvidas sobre o jejum divulgado por Mayra Cardi. A especialista em emagrecimento ficou sete dias sem comer nada; sobrevivendo, basicamente, de água. Ela alegou que, além de benefícios religiosos (conectar corpo e alma, por exemplo, assim como ela afirmou em seu Instagram Stories), o período sem se alimentar seria saudável e traria vantagens para sua saúde.

Desde o início, surgiram muitas críticas em relação ao comportamento da ex-sister, que publicou vídeos e fez lives para “desvendar” o método. Mas a bomba explodiu mesmo após o fim do jejum, em que Mayra fez um vídeo expondo a barriga magra, sem nenhuma gordura, e creditando o resultado à prática.

Para alguns internautas e influenciadores body positive [movimento que defende a aceitação de todos os corpos, independentemente da capacidade física, tamanho, sexo, raça ou aparência], como Alexandra Gurgel, o comportamento poderia causar gatilhos para pessoas que buscam a magreza acima de qualquer coisa.

AnaMaria Digital conversou com alguns profissionais atrás de esclarecimentos sobre essa prática. É importante ressaltar, porém, que não há consenso sobre os resultados que um jejum pode trazer. Apenas um ponto em comum: nunca opte por essa ação sem ter o devido acompanhamento médico. 

JEJUM DE ÁGUA
Eduardo Corassa
, o nutricionista que guiou Mayra durante o procedimento, é um grande defensor do jejum. Sua primeira experiência com a técnica aconteceu aos 22 anos. Na época, ele tinha uma série de problemas de saúde, incluindo diabetes, e chegou a fazer consultas com os melhores médicos do país, que recomendavam cirurgias e medicamentos. Nada adiantava.

Eduardo, então, se deparou com o conceito de ‘crudívoro’ - basicamente, uma pessoa que ingere apenas alimentos crus, especialmente legumes e vegetais. Ele se sentiu melhor, mas não totalmente, pois os efeitos de todos os industrializados que comeu ainda estavam lá. Para regenerar o organismo, o nutricionista optou pelo jejum. Em um ano, fez cinco: um de 24 dias, outro de 19, um terceiro de 15, dois de 10 e um de 7.

O nutricionista segue uma linha médica chamada ‘higienista’. O termo remonta ao século 19, época em que as pessoas não viam a falta de higiene e saneamento básico como causa de algumas doenças e epidemias. Um dos principais nomes do movimento é Ignaz Semmelweis, médico que sugeriu que os colegas lavassem as mãos antes de cirurgias. Todos acharam a ideia tão maluca que internaram Ignaz em um sanatório - e ele morreu por lá mesmo.

Atualmente, o termo define profissionais que acreditam que uma boa (e longa) vida está relacionada às nossas necessidades fisiológicas. O crudivorismo faz parte disso, tanto quando a crononutrição (se alimentar apenas durante a luz do sol), dormir cedo, praticar exercícios físicos e o próprio jejum. É um exercício de pensar: “se eu estivesse na natureza, sem nenhuma das facilidades que temos hoje em dia, como eu faria?”.

O jejum entra aí. Eduardo explica que, na natureza, períodos sem comer são comuns. Afinal, se pensarmos nos nossos camaradas pré-históricos, não havia abundância de comida, nem dispositivos para mantê-la armazenada (como a geladeira). Caçar também não era uma tarefa muito fácil. Por isso, o jejum entrou na perspectiva dos higienistas. 

Segundo o nutricionista, quando paramos de comer, nosso organismo para de usar os carboidratos como combustível, e passa a recorrer à gordura. Durante esse processo, o organismo acionaria um esquema de ‘autofagia’: as células ‘defeituosas’ são 'recicladas'. “O corpo, quando jejuado, se torna mais eficiente em resistir a qualquer estresse. As células normais conseguem essa resistência, enquanto as células defeituosas (como as cancerígenas) são mais sensíveis. Assim, é mais fácil para elas serem assassinadas”, conta.

Pequisas de Valter Longo, um dos mentores de Eduardo, demonstraram que jejuar faz com que camundongos com câncer tratados com quimioterapia respondam melhor ao tratamento e tenham menos efeitos colaterais. Porém, de certa forma, este é um dos argumentos de quem é contra a prática: a maioria dos estudos sobre o jejum foram realizadas em animais. “Esses trabalhos são muito complexos pelas questões éticas, legais, etc. Mais do que isso: não são fármacos sintéticos. Você não consegue patentear e ganhar dinheiro com isso”, opina Eduardo. “Tem muita coisa publicada na literatura médico-científica. Outras podem não ser provadas. Mas eu sou convicto que o jejum me ajudou bastante."

É importante ressaltar que jejuns longos causam uma sensação de fraqueza. Assim, não dá para fazer o jejum enquanto a pessoa trabalha, dirige e, enfim, leva uma vida normal. “A quebra gordura para gerar energia é um processo ineficiente e, por isso, você fica sem combustível para rodar”, declara o nutricionista.

No entanto, vale ressaltar, que ainda não existem evidências científicas comprovadas em humanos. Para isso, é necessário realizar um estudo “randômico”, que testa a terapia em pessoas aleatórias, de várias idades, nacionalidades e estados de saúde. Assim, é comum encontrarmos discordâncias entre os próprios médicos.

VÁ COM MUITA CALMA!
Fernanda Cortez, nutróloga e pós-graduada pela Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), explica que jejuns longos podem fazer com que a pessoa perca massa muscular, desgastando os músculos. Além disso, a prática pode desenvolver um caso de hipoglicemia: “o corpo começa a fazer muito esforço para manter a atividade cerebral alta, para se manter ativo, queima toda a glicose”, conta. Com isso, a pessoa pode sentir tremores, confusão mental e piora no humor.

Em casos muito graves, o jejum pode levar até a infarto e insuficiência cardíaca, porque faltam vitaminas, sais minerais e glicose, que dão força para que o coração consiga bombear o sangue”, completa a nutróloga.

Ou seja: não há recomendação médica para a realização de jejuns longos. Pode ser que essa prática seja o futuro - ou não. De qualquer forma, é uma linha relacionada a doutrina higienista; caso você tenha mais interesse pelo tema e queira tentar um jejum longo, é importante buscar por uma clínica higienista e fazer os procedimentos necessários. Os jejuns curtos, porém, são outra história.

JEJUM INTERMITENTE...
Jejuns de 12, 16 e 18h são recomendados pelos dois especialistas entrevistados - claro, com o acompanhamento médico adequado. Nesse caso, já há comprovação dos benefícios: a prática pode diminuir o risco de desenvolver doenças crônicas, como diabete tipo 2 e problemas cardiovasculares, reduzir inflamações, regular o sistema imune e até a diminuição da esteatose hepática, a ‘gordura no fígado’. 

“Alguns estudos também demonstram que a dieta pode ajudar no crescimento de novos hormônios, além de promover a neuroplasticidade no hipocampo, que é o centro do cérebro responsável pela memória e pelo aprendizado”, conta Fernanda, citando uma pesquisa de Mark Mattson, atual chefe do Laboratório de Neurociência do Instituto Nacional de Envelhecimento e também professor de neurociência na Universidade John Hopkins, além de um dos mais respeitados pesquisadores na área de mecanismos moleculares e celulares para desordens neurodegenerativas. O pesquisador também já publicou um artigo afirmando que jejuar 2 vezes pode semana pode diminuir o risco de desenvolver doenças como Parkinson, Alzheimer e Epilepsia.

Um estudo conduzido por Miriam Marad, diretora do Instituto de Imunologia do Hospital Monte Sinai, nos Estados Unidos, chegou a provar que, em roedores, o jejum intermitente fez com que a circulação de células pró-inflamatórias, que são relacionadas a cânceres, alguns problemas cardíacos e esclerose múltipla. Vale lembrar que essas células, chamadas de monócitos, estão cada vez mais presentes nos humanos por causa dos atuais hábitos alimentares.

Ainda não há muitas respostas, mas Eduardo acredita que o jejum intermitente é uma futura estratégia terapêutica. “Te garanto que isso é o futuro. Nas próprias palavras do Valter Longo: acredito que, daqui a 10 anos, a recomendação de jejuns curtos, a cada mês, vão ser normais no consultório de qualquer médico”, afirma. 

...E RESTRIÇÃO CALÓRICA
Além do jejum em si, existem algumas outras alternativas que podem te ajudar a entrar nesse mundo: as restrições calóricas. Entre elas, a dieta 5:2, em que você ingere apenas ¼ das calorias que deveria durante dois dias. Por exemplo: em cinco dias da semana, você come cerca de 2000 calorias. Nas terças e quintas, porém, apenas 500.

Há também a possibilidade de restringir o horário em que você se “permite” comer: optando, por exemplo, entre às 7h às 18h. Mas lembre-se: mesmo nesses casos, o acompanhamento é importantíssimo (afinal, em mulheres grávidas e pessoas abaixo do peso, a restrição calórica pode ter consequências graves). E, caso esteja tudo bem e você escolhe essa terapia, é importante ficar atento para não consumir o dobro do que teria ingerido, como maneira de "compensar" o tempo sem comer.

Mas, fica a dúvida: e a fome? A nutróloga Fernanda Cortez explica que há diferentes “tipos” de fome: a por necessidade, em que o corpo realmente pede por comida, e a emocional (relacionada a ansiedade ou à hábitos, como o  de ‘beliscar’ uma coisa ou outra). “O jejum faz com que você tenha mais percepção da sua alimentação e de quando, de fato, o corpo está pedindo comida”, opina.

O nutricionista menciona a grelina e a liptina, hormônios que controlam a fome e a saciedade. “Por exemplo, quando você não dorme direito, o hormônio da fome sobe e o hormônio da saciedade desce. Então você não sente tanta saciedade, e sente mais fome. Com o cortisol [outro hormônio, relacionado ao estresse] elevado, você vai ter mais fome por alimentos mais calóricos”, explica. Ou seja: a maior parte da sensação de “fome” sentida no dia-a-dia é emocional (ou relacionada aos hormônios), e não necessariamente uma necessidade fisiológica.

GATILHOS PSICOLÓGICOS


No Instagram, Mayra ressaltou a barriga ‘chapada’; ação causou polêmica, porque pode ser gatilho para pessoas com transtornos de dimorfismo corporal, anorexia ou bulimia | Instagram/@mayracardi

Por fim, há uma questão importante sobre o padrão de beleza, referenciado por pessoas magras. Essa busca por um padrão inatingível, fazendo com que as pessoas se sacrifiquem - incluindo jejuando por dias a fio sem acompanhamento médico - pode ser muito maléfica. É o que explica Yuri Busin, psicólogo, mestre e doutor em Neurociência e diretor do Centro de Atenção à Saúde Mental - Equilíbrio (CASME).

“Com as redes sociais, fizemos uma transição entre consumir coisas para ser consumidos por ela. As pessoas se consomem por uma beleza perfeita. E isso pode trazer alguns transtornos, como o transtorno de dimorfismo corporal, em que a pessoa se olha no espelho e não se vê como ela é; na maioria das vezes, se vê muito mais gordinha do que realmente está. Podem até desenvolver transtornos alimentares - como a anorexia e bulímia - além de tristeza, porque as pessoas ficam se comparando o tempo todo”, diz.

Para se ter uma ideia, um estudo realizado pela Academia Americana de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva Facial revelou que 55% dos cirurgiões atenderam pacientes que pedem por ajustes em suas feições inspirados em fotos do Instagram. Uma outra pesquisa, datada de 2018, indica que as pessoas estavam levando as próprias selfies com efeitos e filtros como referência para possíveis procedimentos plásticos, conforme afirmam pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins.

SEM SOFRIMENTO
O psicologo fez questão de ressaltar que, obviamente, não vê problema nas pessoas cuidarem do próprio corpo, desde que isso não traga sofrimento. “Você precisa reavaliar porque quer fazer um jejum e, caso decida por sim, buscar por um profissional adequado, em que você vai ter o amparo para fazer uma dieta ou um esporte correto, por exemplo”, afirma.

Para Eduardo, porém, os transtornos psicológicos também podem ser explicados pela visão higienista. “Quando a pessoa tem qualquer doença, física ou mental, está passando por uma desregulação do organismo como um todo. Nós, higienistas, não acreditamos que as doenças são separadas. Ou seja: não tem como ter um cérebro saudável e um coração doente”, opina, destacando ser uma opinião pessoal.

Ele também comparou a problemática com os diversos influenciadores que publicam fotos de alimentos e hábitos que fazem mal a saúde. “Convenhamos, fui super ostracizado e criticado, assim como a Mayra. Mas está todo mundo por aí postando fotos de cigarro, cerveja… E isso ninguém fala que vai fazer a pessoa se matar, né? Mas perder algumas refeições é visto como algo absurdo [risos]. É impressionante a mentalidade atual”, desabafa.