AnaMaria
Bem-estar e Saúde / Câncer de Mama

Artista plástica transforma arte em auxílio para pacientes com câncer de mama

Após lutas pessoais, Vilma Kano tenta enriquecer o combate contra o câncer

Beatriz Cresciulo, com supervisão de Vivian Ortiz Publicado em 25/11/2020, às 08h20 - Atualizado em 09/12/2020, às 10h10

Artista plástica transforma arte em auxílio para pacientes com câncer de mama - Arquivo Pessoal/ Instagram
Artista plástica transforma arte em auxílio para pacientes com câncer de mama - Arquivo Pessoal/ Instagram

A artista plástica Vilma Kano vinha de uma batalha intensa, ao perder um amigo de infância após mais de dois anos de luta contra um câncer no fígado. Ao tentar retomar a rotina, em meados de 2012, recebeu o diagnóstico de um câncer de mama. Foi durante sua luta para conseguir tratar a doença, que ela abraçou a causa de mais de dez mil mulheres que tinham o mesmo problema que ela.

Nasceu, assim, o projeto Peito Aberto. No início, foi uma tentativa de Vilma manter a sua renda vendendo arte, visto que o câncer havia impossibilitado que ela trabalhasse justamente em um momento que precisava juntar dinheiro para bancar os custos do seu tratamento. 

A iniciativa, porém, cresceu e acabou se transformando em uma ONG (Organização Não-Governamental) que atua em várias frentes, oferecendo auxílio psicológico, jurídico e de autoestima, além de práticas de atividades físicas em eventos gratuitos voltados para as pacientes com câncer de mama. 

Ela conta que, apesar da familiaridade com a doença, na época o diagnóstico foi surpreendente.“Todas as mulheres que morreram na minha família, por parte de mãe, se foram por câncer de mama. Eu viveria aquela experiência em primeira pessoa”, relembra, em entrevista à AnaMaria Digital.

O segundo diagnóstico de câncer veio quatro anos depois, ao mesmo tempo em que Vilma brigava na justiça pelo tratamento da mãe, que na época, já estava com três tumores malignos identificados. 

“Na segunda vez, pareceu ser mais uma revelação. Não fiquei surpresa, apesar da tristeza de tudo que estava vivendo naquele período. Foram muitas lutas, as minhas e as da minha mãe, que eu tive que lutar sozinha, tentando dar suporte a ela”, afirma

O DRAMA DO TRATAMENTO 
A mãe de Vilma, porém, não foi a única a encontrar dificuldades no acesso ao atendimento médico contra a doença. A designer permaneceu cinco meses sem combater o câncer, pois os especialistas afirmavam que o convênio não iria cobrir o tratamento completo, que custaria em torno de R$ 70 mil.

“Imaginava que fosse morrer, o câncer não espera. Então, decidi me dedicar às artes plásticas, precisava colocar para pra fora o que sentia. Era o que eu deixaria para o mundo, afinal, optei por não ser mãe e não me casar”, revela. 

Além de expressar todas as experiências que estava vivenciando com o câncer, Vilma viu na criação do projeto Peito Aberto uma oportunidade de obter renda para tentar economizar dinheiro necessário para o tratamento da doença. 

“Era a minha história com o câncer, mais alguém que morreria sem tratamento. Queria tornar isso público para que não houvessem mais histórias assim. Costumo dizer que as minhas artes são as minhas cicatrizes com o câncer. Escolhi o papel e o estilete, em alusão ao bisturi”, conta. 

Felizmente, um médico optou por entrar em contato com o plano de saúde, que aprovou o tratamento da doença em um processo que durou apenas três dias. Com esta vitória, Vilma voltou-se para as demais pacientes do câncer de mama, que assim como ela e sua mãe, enfrentavam dificuldades no acesso aos medicamentos. 

MULHER AO COMBATE
A artista destinou parte da sua renda para os pacientes que tivessem começado a realizar o tratamento do câncer no SUS (Sistema Único de Saúde). Também destinou mais de R$ 5 mil reais para três mulheres que precisavam de auxílio. 

A crise econômica que atingiu o Brasil nos anos seguintes acabou dificultando as doações em dinheiro, mas Vilma não parou. Foi em busca de novos parceiros, que a ajudaram a realizar entregas de Kits de Beleza, com perucas, lenços, maquiagens, bijuterias, hidratantes corporais, entre outros itens. O projeto levou autoestima e carinho à mais de 10.400 pacientes. 

Durante a pandemia do Novo Coronavírus, o desafio de manter o projeto com segurança deu à Vilma a oportunidade de desenvolver a robô Frida, criada de materiais recicláveis. A inteligência artificial da peça possibilitou a entrega dos kits em unidades hospitalares sem colocar os voluntários do projeto à risco da contaminação da COVID-19. 

“A arte vai além de ser o meu registro neste mundo, é a melhor versão de mim mesma. São minhas dores, lutas, desafios e desilusões, traduzidas em algo belo, que se transforma em ainda maior: o trabalho da minha ONG”, assegura.

Foto: Divulgação

DESDOBRAMENTOS
Muito além de liderar trabalhos que proporcionam autoestima, prevenção, bem-estar, auxílio jurídico e psicológico, Vilma se tornou co-criadora da linha de rasteirinhas ‘Mais Rosa’, a convite da marca Grendha. No projeto, Vilma transformou algumas de suas obras mais notáveis em estampas para os calçados. 

“Acho que foi uma excelente forma de disseminar a minha história e filosofia com o câncer. Uma maneira de sensibilizar, conscientizar e inspirar outras mulheres”, destaca. 

Apesar dos percalços no caminho, Vilma celebra as tantas batalhas vencidas, como a distribuição de mais 300 mamografias para pacientes, um projeto realizado em conjunto ao Pense Rosa, da ONG Orientavida. 

“Demos um passo à frente para um futuro mais saudável. O câncer é possível de ser curado, se descoberto cedo. Com este trabalho, desmistificamos, incentivamos e também prevenimos [...] A semente foi plantada e já está dando frutos, tenho consciência de que há muito trabalho pela frente e que não depende somente de nós, mas estamos fazendo muito bem a nossa parte”, comemora.