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Bem-estar e Saúde / Outubro rosa

Elas contam como lutaram contra um câncer de mama durante a gestação

‘’Grávida e com câncer. Nunca tinha visto isso na vida, nem sabia que era possível’’, lembra uma delas

Ana Mota, repórter da AnaMaria Digital Publicado em 28/10/2021, às 08h30 - Atualizado às 09h25

Patrícia Bergara e Roberta Perez engravidaram durante tratamento do câncer de mama - Arquivo Pessoal
Patrícia Bergara e Roberta Perez engravidaram durante tratamento do câncer de mama - Arquivo Pessoal

Já é extremamente difícil receber um diagnóstico de câncer de mama, mas e quando essa notícia chega junto com a gravidez? Esse foi o caso da nutricionista Patrícia Bergara, de 34 anos. Na mesma consulta, ela descobriu que estava doente e que esperava o primeiro filho há seis semanas. 

A notícia veio no final de 2018, quando ela parou de usar anticoncepcional e sentiu "uma pequena bolinha no seio direito". Mesmo sendo jovem, e sem casos na família, ela foi orientada a fazer alguns exames e uma biópsia. Dias depois, veio a confirmação de que o tumor era maligno. "Foi o maior desespero, com muito medo. Eu estava completamente perdida na situação. Grávida e com câncer. Nunca tinha visto isso na vida, nem sabia que era possível", conta.

Bruna Bonaccorsi, oncologista e diretora clínica do Instituto de Radioterapia São Francisco, afirma que o câncer de mama é o mais frequente entre as grávidas. "Como as mulheres têm engravidado cada vez mais tarde, o perfil demográfico delas têm mudado e, com isso, temos visto mais casos da doença em gestantes."

Daí em diante, veio a dificuldade de lidar com todas as emoções, sobretudo o medo de morrer e o sofrimento que enfrentaria, afinal, essa era a imagem que ela tinha de mulheres que lutavam contra um câncer de mama. "Nem conseguia pensar que estava grávida, pois a certeza da morte era muito grande", confessa.

E AGORA?
O susto inicial de Patrícia e do marido deu lugar à busca por conhecimento. Em frente a um cenário desconhecido, o casal procurou a opinião de diferentes médicos na tentativa de seguir com a gestação e começar o tratamento. Cada especialista, porém, aconselhava um caminho. “A princípio disseram que não era possível manter a gravidez, que seria preciso operar. Cada médico falava uma coisa, mas praticamente nenhum me deu confiança de que o bebê ficaria bem”, conta. 

Com o desejo de ser mãe, e sabendo da possibilidade de ficar estéril  após o tratamento, Patrícia queria seguir com a gestação. Ela acabou encontrando em seu mastologista a tranquilidade de que era possível ter seu filho e lutar contra a doença ao mesmo tempo. No entanto, não foi possível iniciar a quimioterapia nos três primeiros meses da gravidez. 

A obstetra e ginecologista Laura Penteado, diretora médica da Theia – clínica de saúde centrada na mulher gestante -, explica que atualmente é possível tratar o câncer de mama mesmo durante a gravidez, mas com algumas ressalvas. A quimioterapia, por exemplo, pode ser feita somente depois do primeiro trimestre, pela chance de má-formação fetal, e a última sessão deve ser realizada antes de três semanas do parto, para que a mãe recupere a imunidade. “A cirurgia também pode ser feita, mas com restringimento de anestésico. Apenas a radioterapia que precisa aguardar o nascimento do bebê”, ressalta. 

A médica indica ainda que o ideal é a paciente iniciar o tratamento assim que receber o diagnóstico, desde que respeitando o primeiro trimestre da gestação. Na visão da especialista, é necessário que obstetra, oncologista e paciente avaliem juntos qual o melhor caminho a seguir.

GRAVIDEZ SEGUIU
Patrícia passou por sete sessões de quimioterapia sem nenhum efeito colateral, além da queda de cabelo, e levou a gravidez normalmente até o sétimo mês, quando descobriu que tinha Síndrome de Hellp. A doença acontece nos últimos três meses da gestação, quando o corpo da mulher identifica o bebê como um agente estranho e faz os órgãos do corpo pararem de funcionar aos poucos. 

“A única forma de interromper a síndrome foi parar a gravidez. Meu filho nasceu com 29 semanas, pesando 1,120 kg e com 34 cm. Ele ficou 45 dias na UTI e eu também fiquei uns dias para o meu corpo voltar a reagir. Só depois que melhorei, que voltei para o tratamento”, conta a nutricionista.

As sessões de quimioterapia de Patrícia acabaram em setembro de 2019. Ela passou ainda por uma cirurgia para retirar todo o seio, os linfonodos e reconstruir a mama. Os dias seguintes foram marcados pela fisioterapia para recuperar a mobilidade e por 25 sessões de radioterapia. 

Hoje, ela afirma que está bem e usa apenas uma medicação que deverá tomar pelos próximos 10 anos. Seu filho, Atreio, tem 2 anos e 7 meses e também está bem. “Ele já fala, come sozinho e vai na escolinha. O medo era que ele tivesse alguma sequela, mas, por enquanto, está dentro da normalidade.”

Patrícia durante a gravidez e após o nascimento do filho Atreio (FOTO: Arquivo pessoal)

Patrícia só não pôde amamentar por orientação médica. “Me afetou um pouco, mas sei que meu vínculo com ele é desde antes”, diz. Laura explica que os quimioterápicos do tratamento passam pelo leite e, consequentemente, os bebês não podem ingerir.

MATERNIDADE APÓS O CÂNCER
Diferentemente de Patrícia, Roberta Perez engravidou depois do câncer de mama, aos 31 anos. A descoberta da doença foi em 2016, quando notou um caroço pequeno no seio e resolveu procurar um médico. Depois de exames e uma biópsia, veio a confirmação de um câncer em grau avançado. “Fiquei desesperada e pensei que ia morrer, porque esse era o estigma. E tive a noção de que se eu morresse, não realizaria nada do que queria, não morreria feliz. Mas depois entendi que precisaria ser forte e comecei a me reerguer”, conta.

Por conta da idade, a orientação dos médicos foi que ela congelasse seus óvulos, caminho que não foi seguido por Roberta, uma vez que ela e o marido decidiram que não queriam ter filhos. “Era muita responsabilidade em uma situação tão delicada”, relata. Após 16 sessões de quimioterapia, em janeiro de 2017, ela passou pela mastectomia e também já realizou a reconstrução dos dois seios. No mesmo mês, Roberta começou a hormonioterapia, que é o uso de um medicamento nos 10 anos seguintes para inibir a ação hormonal.

No entanto, mesmo com a medicação, ela voltou a menstruar no mês seguinte. Em junho, ao perceber que seu ciclo menstrual estava desrregulado, um novo exame acusou um tumor de 11 cm no ovário direito. Em julho, Roberta fez uma cirurgia para retirar o ovário e o tumor, que, na verdade, era benigno.

No final do mesmo ano, outro exame mostrou um novo tumor, mas desta vez no ovário esquerdo. Por ter 28 anos, os médicos acharam que era melhor não fazer uma cirurgia e optaram por parar a medicação do câncer, ainda que a paciente estivesse em período de remissão, quando a doença está sob controle. 

Até o começo de 2018, Roberta não tomou o medicamento da doença e seu ovário voltou ao normal. Mas foi em 2020 que seu médico encontrou um foco de endometriose, que somado ao seu histórico de saúde poderia lhe impedir de engravidar. “É diferente não querer de não poder ter filhos. Então conversei com meu marido sobre o assunto e continuamos optando por não sermos pais. Com isso, ficamos mais displicentes e paramos um pouco de usar camisinha. No final do ano eu engravidei, achei que não poderia, mas engravidei”, conta.

Roberta na gravidez, durante o período de remissão do câncer, e com a filha Helena, conhecida como 'bebê esperança' (FOTO: Arquivo pessoal)

Laura Penteado afirma que a mulher pode engravidar, sim, depois de enfrentar um câncer de mama, mas é necessário finalizar o tratamento inicial. O ideal é que espere de um a dois anos. “O que dificulta é que a quimioterapia aumenta o risco de menopausa precoce e infertilidade”, ressalta a ginecologista. A médica explica ainda que, na fase de hormonioterapia, médico e paciente podem conversar sobre interromper o uso do medicamento para que a mulher possa engravidar.

Com a descoberta do câncer, Roberta deixou o trabalho como fisioterapeuta e criou o perfil @vaipormim, onde fez um diário de bordo das suas experiências e hoje faz um trabalho de empreendedorismo social. Na internet, sua filha Helena é conhecida como ‘bebê esperança’.

AUTOCUIDADO
Cerca de três anos após a descoberta, Patrícia avalia que o câncer e a maternidade trouxeram mudanças profundas. “Meu ensinamento é esse: olhar mais para o outro”, diz. Ela ressalta também que é necessário que mulheres se cuidem e não temam. “É possível passar por isso. Se ame e não tenha medo do que possa acontecer porque dá para enfrentar.”

Laura avalia que o mais importante para vencer o câncer de mama é o diagnóstico precoce: “O ideal é fazer a rotina anual, com a mamografia. As pacientes grávidas precisam ficar atentas e, diante de qualquer mudança, devem procurar o médico para se certificar do que seja.” 

Bruna destaca os fatores que dificultam o diagnóstico durante a gestação: a idade das pacientes, alterações nas mamas, que podem estar relacionadas apenas à gestação e à preparação do corpo para o aleitamento, e a densidade mamária em mulheres com menos de 35 anos. “A mulher deve fazer o autoexame e o acompanhamento periódico com um médico. Em caso positivo, nunca desistir. É fundamental que o tratamento seja levado até o fim, sem interrupções.”

Roberta, por sua vez, diz que mulheres precisam conhecer o próprio corpo: “Não precisa ter medo. Ninguém cuidaria da minha saúde por mim, então precisamos falar sobre câncer em todos os canais, falemos abertamente, nos informemos mais.”

Sobre o Outubro Rosa, ela avalia que existe uma visibilidade rasa. “É maravilhoso, mas desafiador. Informação errada dificulta tudo. O autoexame é importante, mas não é o suficiente. Mulheres têm que fazer mamografia, temos que falar sobre assuntos mais atuais, nos aprofundar, não basta mais só vestir rosa.”