Mães e Coronavírus: medos, angústias e a carga emocional durante o isolamento

Dani Marcos fala em sua coluna de maternidade sobre a vida de mães em vários países durante o confinamento

Da Redação Publicado terça 21 abril, 2020

Dani Marcos fala em sua coluna de maternidade sobre a vida de mães em vários países durante o confinamento
Mães e Coronavírus: medos, angústias e a carga emocional durante o isolamento - Arquivos pessoais

O COVID-19 já estava presente na minha vida semana antes do primeiro caso ser identificado no Brasil. Minha amiga-irmã mora na Itália e, diariamente, já nos comunicava sobre as restrições e cuidados que precisavam ter por lá. Incorporei muito destes na rotina de nossa casa, como intensificar o uso do álcool gel (que meu filho até levava na mochila desde o início das aulas) e a lavagem das roupas ao chegar da rua.

Lembro de ter iniciado a quarentena no dia 13 de março, assim que meus filhos - de 4 e 9 anos - chegaram da escola. A agenda do fim de semana estava repleta de festas de amigos dos pequenos, mas restringi todas, mesmo sendo chamada de “doida” e ouvir algumas vezes “mas não é para tanto”. E nada de receber a visita de familiares.

Desde então, por minha parte, saídas apenas extremamente necessárias para ir ao supermercado ou à farmácia. Meu marido, esporadicamente, sai para trabalhar e, a cada retorno, parece que reseto a quarentena e volto a ficar apreensiva com o surgimento de qualquer sintoma.

Após cinco dias em casa, percebi que a ansiedade não estava tão controlada como havia pensado e, por quase duas semanas, tive de priorizar o tratamento com acompanhamento da psicóloga.

Foram dias de choro involuntário, tremores pelo corpo, tonturas, sensação de desmaio e sentimento de descontrole total. Agora, sinto-me melhor, graças a Deus.

Ajudou reduzir o acesso às informações sobre a pandemia mas, até para escrever esta reportagem, precisei respirar um pouco, pois sabia que estaria em contato com as emoções intensificadas e sentimentos doloridos de mulheres que seguem apreensivas, angustiadas e extremamente cansadas ao lidar com todas as tarefas do dia que envolvem os cuidados com a casa, filhos, trabalho e com a busca do equilíbrio emocional de uma família inteira.

Depois de horas de conversas com mães que vivem em diferentes países, percebi que os sentimentos são os mesmos, seja qual for o lugar no mundo. A cada fala, não ficaram de fora respirações profundas, tremor na voz, sorrisos nervosos, mas também um toque especial de esperança ao pensar nos primeiros planos pós-quarentena.

Confira!

NICOLETTE ARAÚJO, 38 ANOS, PORTUGAL

Foto: Arquivo pessoal

"PRECISEI SAIR DE CASA POR CONTA DA PROFISSÃO”

“Sou técnica de saúde e, desde o início da pandemia, tive minha vida completamente afetada. Por conta do alto risco de contrair o Covid-19, precisei tomar a decisão de me afastar da minha família. Sim, estou sem ver meus dois filhos. Não posso abraçar quem eu amo. Não há contato algum com meu caçula que ama roubar beijos e que sempre corre até meus braços quando chego (das últimas vezes precisei impedi-lo). 

Nossos encontros são à distância, apenas com acenos, mas nossos olhares refletem a vontade de ter nossa vida de volta o mais rápido possível. Antes de voltar à casa em que estou morando durante este período, passo na frente do nosso cantinho.

Paro, olho para nosso lar e oro por eles. Tento imaginar a vida lá dentro.

Esta pandemia tem muitas coisas más, mas acho que ajudará as pessoas a reformularem a vida. Acredito que a oportunidade de reinventar as maneiras de dizer que amamos o outro será a mais importante. Que possamos manter a fé em Deus e acreditar que é o amor a arma mais poderosa.”

LUCIANA MARTINS BOCCIA, 39 ANOS, ITÁLIA

Foto: Arquivo pessoal

“APREENSIVA COM MARIDO QUE TRABALHA COM ENTREGAS”

“Estamos completamente isolados desde 10 de março. E as medidas são rígidas por aqui: só é possível sair para ir ao mercado, ao hospital, à farmácia ou ao trabalho, desde que seja categorizado pelo governo como essencial e, se este for o caso, precisa carregar uma declaração que comprove o vínculo com a empresa. Quem está fora de casa por outro objetivo, pode receber uma multa de 4 mil euros (cerca de R$ 22.750) e, se estiver contaminado, pode ser preso.

Carros de polícia e ambulâncias passam o dia inteiro na porta de casa, com as sirenes sempre altas. O movimento se completa com os carros de defesa civil que, pelos alto-falantes, persistem com a mensagem: ‘Não saiam de casa’. 

O Matteo, meu filho de três anos, sempre fica muito assustado. Apesar do isolamento, meu marido está trabalhando e, como realiza entregas, as jornadas estão mais intensas, com até três horas a mais. Nele, os sinais de cansaço são nítidos.

Além da preocupação com a saúde, ele tem muito receio em trazer o vírus para casa. Afinal, é comum deixar pedidos em residências com pessoas infectadas. 

Sabia da gravidade, mas minha visão mudou completamente quando, em uma live da igreja em que congregamos por aqui, uma italiana desabafou ao revelar sua tristeza ao ter pessoas próximas que faleceram e que ela não pode se despedir. Foi neste momento que tive ideia da dimensão do problema.

Apesar de estar há semanas em casa, não me acostumei ainda com a apreensão do meu filho. Quando ele percebe que está anoitecendo e o pai não chegou, aponta para o relógio e pergunta onde ele está, se vai demorar para chegar. Mas, até agora, Deus tem nos sustentado, em tudo.”

JULIANA CAMPOY, 37 ANOS, SUÍÇA

Foto: Arquivo Pessoal

“UM DIA DE CADA VEZ”

“A dinâmica da mudou completamente por aqui. Sempre fui asmática e, por isso, só saio quando realmente há necessidade. Apesar de meu filho de quase três anos ser muito ativo e preferir atividades de movimento, tudo é feito no apartamento. Esporadicamente, vamos até ao jardim do prédio, apenas quando estamos a sós. 

Mesmo sendo pequeno, ele sente as transformações, questiona sobre a ida da escola, sente saudade dos amigos. Também não entende que o pai está em casa para trabalhar e o chama toda hora para brincar. A tentativa de organização da casa me deixa exausta e suspender, por tempo indeterminado nosso planos, é muito desconfortante. 

Fiquei mais assustada no começo, mas hoje tento lidar de maneira racional até na hora de absorver informações. Se deixarmos, é um assunto que toma conta do nosso dia. Iríamos para o Brasil em 26 de março, mas agora não temos ideia de quando vamos rever nossa família.

Confesso que não vejo a  hora de retomar este plano, e, também, de não ter medo de sair de casa e de perceber que as pessoas não baixam mais a cabeça ao caminhar.

A maior dificuldade que encontro é no manejo dos sentimentos e das emoções. Sinto que estão todos mais irritados, cansados e nervosos. Meu marido, por exemplo, está, pela primeira vez, compreendendo a intensidade que é ter responsabilidades e contato com uma criança o tempo todo. Eu que tenho de propor algo para dissolver ou amenizar as tensões.

É um trabalho árduo para nós, mães, nomear e traduzir todas essas sensações difíceis, nessa situação nova que estamos vivendo. Não precisamos ser a super-mãe do isolamento, aquela que dá conta da casa e ainda vira recreadora, chef de cozinha e musa fitness do Instagram. A gente tem de fazer o possível para atravessar essa fase difícil. Um dia de cada vez, com a esperança de que logo as coisas se normalizam e nossos planos voltem aos sonhos.

VERIDIANA MERCATELLI, 40 ANOS, ALEMANHA - “AFLITA COM MEUS PAIS”

“Sinceramente, já perdi a noção do tempo. Entrei em quarentena uma semana antes do primeiro caso em Berlim, pois meu filho teve escarlatina, nada sério, mas foi necessário restringir o contato com outras crianças. Acho que foi até sorte. O dia a dia que era agitado, se intensificou. A limpeza é constante. 

O bebê acorda demais durante a madrugada, então, meu cansaço é extremo (e o tempo que tenho para dormir, não consigo, pois fico pensando em tudo o que está acontecendo). Meu marido também se dedica aos cuidados da casa, mas com limitações, pois está fazendo home office e seu trabalho é estressante. 

Com o filho mais velho longe da escola, preciso pensar em atividades para entretê-lo e que também possa afetar seu desenvolvimento. Não quero que ele lembre deste período com tristeza, mas como um tempo que, apesar de difícil no mundo, tivemos dias legais. Este foco me sobrecarrega mentalmente. Confesso que alterno meu estado emocional. Sinto uma angústia grande.

Apesar da baixa mortalidade na Alemanha, não deixo de pensar que pode acontecer com a gente. Quero ver meus dois filhos crescerem.

Estou na Alemanha há quatro anos, e, há dois, sem ver meus pais, que chegariam este mês para nos visitar, mas precisamos remarcar a viagem que, certamente, não tem previsão para acontecer. Sei que se estivesse no Brasil não mudaria a situação, mas, de longe, parece que não posso protegê-los. 

Não vejo a hora de rever meus familiares e visitar nossos amigos (é a família de quem mora no exterior), juntar as crianças para brincarem, sair na rua sem ver semblantes de desconfiança e sem ter medo de encontrar as pessoas. Apesar de imaginar estes bons momentos, sei que não vai ser fácil tirar da memória a reportagem que trazia a despedida de um paciente dos familiares por meio de um tablet.

E eu, que nunca fui uma pessoa de tanto contato físico, neste momento, percebo a falta que um abraço faz. Desculpa, estou emocionada. Tenho de ligar para minha mãe!.”

ANA CLAUDIA CUNHA FARIAS, 37 ANOS, ESTADOS UNIDOS - “ESTAMOS DANDO O NOSSO MELHOR”

Foto: Arquivo Pessoal

“Sou mãe em período integral do Marcos, de seis anos, e da Laura, de quase três. Desde 13 de março estamos isolados em Orlando, na Flórida, onde moramos há cerca de um ano. Restaurantes, pizzarias e bares fazem somente entregas em casa. Nos supermercados, já faltam alguns alimentos e itens de higiene.

Nossa rotina não mudou muito, pois trabalhamos daqui. O maior impacto é a falta de aulas  para as crianças e a ausência de contato com professores e amigos. Como mãe, me sinto muito pressionada.

Não tenho um tempo para respirar, não consigo concluir nenhuma tarefa do início ao fim sem fazer pausas. Eles não pedem nada ao pai, tudo sou eu. Isso estressa bastante. 

Tenho família na Espanha, onde moramos por 13 anos, e, no Brasil. Queremos proteger a todos e, ao mesmo tempo, não podemos nada. A culpa materna é quase algo natural, já temos uma carga de tarefas gigantesca e, neste momento, precisamos tentar longe destas cobranças, afinal, estamos dando o nosso melhor.”

YAEL BECHIMOL, 27 ANOS, ISRAEL - “PARAR DE TRABALHAR AFETOU DEMAIS MINHA DISPOSIÇÃO”

Foto: Arquivo Pessoal

“Assim como em todo mundo, apenas os locais essenciais estão abertos por aqui. É comum policiais pedirem para as pessoas voltarem para as residências. A desafio está sendo tentar criar uma rotina em família. Já estipulei que acordo sem o despertador. Além das tarefas relacionadas aos cuidados da casa, faço todo acompanhamento das atividades com meu filho, que é autista. 

Diariamente, ele realiza diferentes tratamentos e, desde o início do isolamento, está sem as orientações direta dos profissionais. Mesmo sem as qualificações, realizamos o possível com ele. É intenso buscar, a todo momento, experiências diferentes para que ele gaste energia dentro de casa. 

Parar de trabalhar afetou demais a minha disposição.

O desgaste psicológico me deixa até sem energias para cozinhar. Sinto agonia ao imaginar que não tenho previsão para voltar a trabalhar ou quando meu filho retomará os tratamentos. Assim que encerrar o isolamento, só quero comemorar nosso aniversário de casamento.”

ALEIDA MONTEIRO, 42 ANOS, CABO VERDE

Foto: Arquivo Pessoal

 “DEIXEI DE VER NOTÍCIAS SOBRE O ASSUNTO”

“Assim como em todos os países, lidamos com as dificuldades de ter os estabelecimentos fechados e nossa mobilidade restrita. Estou confinada com meu marido e nossa filha de 14 anos, saindo apenas para repor os itens de alimentação. Buscamos fazer tudo sem exagero, pois precisamos pensar em todos, já que boa parte das pessoas correram para fazer compras e realizar estoque de maneira irresponsável. Foi difícil encontrar gás.

Trabalho no esquema home office no horário normal e as tarefas que envolvem o cuidado da casa foram divididas. Mesmo assim, é impossível manter os horários. Para minha filha está mais complicado, tanto que já demonstra sinais de stress. Antes, até dávamos uma volta de carro, mas, depois do estado de emergência, não foi mais possível.

Estou tentando lidar com a impaciência dela, que demonstra uma preguiça muito grande, com dificuldade para reagir.

Tento demonstrar a importância dos detalhes, como estar juntos durante as refeições. Isso ameniza o pânico que entro só de pensar que minha filha possa pegar o Coronavírus ou que o pior possa acontecer comigo. Já deixei de ver notícias com frequência, pois até alguns sintomas já senti. Será que estou falta de ar? Será que a garganta está ardendo mesmo? Aí eu paro, me concentro até tudo passar, afinal, estamos tomando os cuidados para a  prevenção.

Loucura, né? Em breve, só quero levar minha filha para tomar um banho de mar e retomar a nossa vida de forma tranquila e cheias de energia !”

KARLA DE CARVALHO HELENO, 42 ANOS, INGLATERRA

Foto: Arquivo pessoal

“TENTO VER O LADO BOM”

“Estamos em quarentena desde 20 de março, tentando nos adaptar. Nos primeiros dias, parte da população estocou produtos e alimentos não-perecíveis desnecessariamente, mas a situação foi rapidamente controlada e todos seguiram as instruções vindas do governo. Quem está fora do grupo de risco pode sair para realizar exercícios ao ar livre, desde que acompanhado de pessoas que vivem na mesma casa.

Como sou professora de inglês, confesso que dar aulas (planejamento e didática) não é, necessariamente, um desafio para mim, mas manter a rotina de estudos das crianças em meio a tantas mudanças, pode ser bem estressante. Exige disciplina. O que facilita é que meu marido e eu sempre fomos participativos na criação dos dois pequenos.

Também procuramos manter nossa saúde mental em dia, não esquecendo de mencionar aqueles que estão sofrendo em nossas orações, de deixar o coração agradecido, buscar nos ocupar de coisas boas e aproveitar os momentos em família.

Agora, sobre nós, mães, creio que somos seres especiais, só pode ser! Mesmo quando a gente sente que não vai dar conta, acabamos conseguindo. Não podemos nos cobrar. É tempo de brincar, sorrir e resgatar o tempo perdido com a correria diária. Ouvir o que seus filhos têm a dizer. Desligar  as telas, se ligar na batida do coração de cada serzinho que, até pouco tempo, estava dentro de nós. Desacelerar incomoda no começo, mas é uma saída. Isso tudo vai passar.

Vamos sair mais fortes dessa crise.“

DANI MARCOS É Jornalista, doula e idealizadora do ‘Mãe de Mala e Cuia’, programa de acolhimento materno. Acha importante dar inspiração e acolhimento para mamães de todas as idades. Instagram: @maedemalaecuia
 

Último acesso: 18 Sep 2021 - 19:05:20 (1107218).