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Ansiedade: como ajudar as crianças a superarem este sentimento? Veja dicas

É importante validar que os pequenos também estão no limite da exaustão mental

*Priscila Correia, do Aventuras Maternas Publicado em 28/05/2021, às 08h00

Abre e fecha das escolas trouxe muita insegurança - Shlomaster/Pixabay
Abre e fecha das escolas trouxe muita insegurança - Shlomaster/Pixabay

“Respira! Inspira! Não pira!" Perdi as contas de quantas vezes repeti esta frase, que soa como mantra, tanto para mim quanto para meus filhos no último ano. A tal ansiedade, definida no dicionário como "condição emocional de sofrimento, causada pela expectativa de que algo inesperado e perigoso aconteça”, entrou com força total em nossas casas e mentes, passando a fazer parte de nossa rotina desde que uma impensada pandemia aconteceu. 

Perguntas como: "quando tudo isso vai passar?”, "Como será o novo normal?”, "Quando vamos tomar a vacina?" e "Como vou conseguir dar conta de tantas atividades?” passaram a tirar nosso sono e causar inúmeros sintomas, como boca seca, falta de ar, esquecimento de tarefas, cansaço mental, entre outros.

E se tudo isso está acontecendo com adultos, imagine com os pequenos? Afinal, mesmo que a gente não verbalize todas essas dúvidas e preocupações, as crianças absorvem pela nossa comunicação verbal. Além disso, é claro que elas também pensam, sentem saudades e têm suas próprias necessidades, o que colabora para o desenvolvimento da ansiedade infantil, tema que abordaremos na coluna da semana.

NOVA ROTINA, NOVOS RECEIOS
"Ir à pracinha, andar de skate e jogar bola. Também ir à praia e brincar de futebol com outras crianças”. É disso que Lucas, de 9 anos, sente mais falta desde que começou a pandemia. O afastamento dos amigos e o fato de não saber quando vai poder retomar a rotina de antes, em segurança, já provocou acessos de raiva e  crises de choro. 

A mãe dele, Cristiane Fernandes Moreira, ainda relata que a rotina ficou alterada. "Ele acha que está em casa e não precisa ter horários determinados para fazer as suas tarefas, mesmo estudando online, tendo curso de programação e fazendo outras atividades”, diz.

Outro fato que deixa o menino preocupado é o acesso a informações preocupantes, que chegam pelos amigos na aula virtual ou por pessoas próximas. "Recentemente, o professor de programação dele faleceu, assim como o pai de uns amigos meus. Por mais que tomemos precauções, os riscos existem e ele tem a noção diária disso. Também sabe sobre novas variantes. Isso é bom e ruim ao mesmo tempo, pois deixa alerta, mas também provoca ansiedade e receios”, destaca a mãe.

SOBRECARGA
Já são quase 450 dias desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a pandemia e, consequentemente, adultos e crianças foram retiradas das suas rotinas, de amigos, das famílias, especialmente dos avós, perdendo também seus passeios. E é importante validar que os pequenos também estão no limite da exaustão mental, precisando retomar algumas atividades mais lúdicas e divertidas, além de ter ajuda especializada, seja com atendimento psicológico ou até mesmo com apoio medicamentoso, de acordo com o estado de cada um.

Barbara Calmeto explica como lidar com ansiedade infantil. (Crédito: Arquivo Pessoal)

A neuropsicóloga Bárbara Calmeto, diretora do Autonomia Instituto, explica que a instabilidade causa, de maneira geral, um sentimento de insegurança e emoções mais intensas para as crianças. “O abre e fecha das escolas, principalmente, trouxe muita insegurança e uma montanha-russa de sensações”, destaca. E o papel dos pais, ao ouvir e validar os sentimento delas, explicando de maneira lúdica os fatos e diminuindo as notícias sobre a pandemia no dia a dia da casa, é fundamental. "O ideal é tentar fazer rotinas de atividades variadas, incluindo as cognitivas, artísticas, físicas, ajudar na casa, entre outras”, completa.

ARTE COMO ESTRATÉGIA PARA O ALÍVIO
Encontrar soluções, como as sugeridas pela neuropsicóloga, se tornou missão para muitas mães e pais durante a pandemia. Não apenas para apoiar as crianças, mas pela própria saúde mental e financeira da família. Foi assim com Laura Aguiar, mãe de Maria Clara e Mell. Com as aulas suspensas, e duas crianças dentro de casa, ela lembrou que pintava esculturas de gesso quando pequena e amava.

Maria Clara e Mell pintam gesso para aliviar a ansiedade. (Crédito: Arquivo Pessoal)

"Fui na rua, mesmo morrendo de medo de pegar o vírus, comprei gesso, molde, tinta e pincel. Então, as Marias, como as chamo, fizeram as esculturas comigo e passaram a tarde toda pintando. Como elas gostaram da atividade e se divertiram, imaginei que poderia ser interessante oferecer isso para outras crianças e criei a minha 'Andorinhas Presentes Afetivos'”, conta.

Laura ressalta que, além de ser uma solução criativa para manter as crianças ocupadas, pensou em como outros pais no home office também precisavam de algo que deixasse os filhos longe das tecnologias, acalmando a ansiedade das crianças de forma leve. "A pintura, o faz de conta e a imaginação sempre foram nossa válvula de escape. Eu não tenho dúvidas que tudo seria muito mais difícil nesse momento sem o lúdico”, conta. 

TERAPIA PARA O CORPO E A MENTE
Depois de mais de um ano de pandemia, a angústia constante de algumas crianças pode gerar sérias crises de ansiedade, inclusive com sintomas físicos, como aumento dos batimentos cardíacos, formigamento no corpo e grande sentimento de insegurança. “Nesses casos, os pais devem acolher, observar o que aumenta a ansiedade (os gatilhos) e buscar estratégias de escape para ajudar. As atividades físicas, yoga, meditação são indicados. Além disso, a psicoterapia cognitivo-comportamental é indicada para que a criança consiga se expressar melhor e identificar formas para melhorar a ansiedade”, explica Bárbara.

A neuropsicóloga ainda sugere que os pais apoiem a criança, ouçam, validem o sentimento e sejam empáticos. “Vale também buscar itens de autorregulação que possam ajudar, como slime, spinner, pote da calma, massagens de pressão”, indica. Outro fator importante são as saídas ao ar livre, porque elas estão super cansadas de ficar em casa, de ter atividades online e de não poder brincar com os amigos. "Essas saídas, dentro do possível e com a segurança indicada, podem favorecer o equilíbrio e diminuir a ansiedade”, complementa.

Outra dica que também pode ajudar é a realização de práticas com foco na respiração, no autoconhecimento e no autocontrole corporal, como a yoga. Hoje em dia, muitos pais e filhos estão constantemente com o sistema nervoso simpático ligado, ou seja, pronto para lutar ou correr, pois vivem em estresse diário e não conseguem mais desligar. "Quando respiramos lenta e profundamente por alguns minutos, começamos a ligar o sistema nervoso parassimpático e a estimular a calmaria, diminuindo a ansiedade, entre outros benefícios”, destaca Daniela Mattos, professora de Kundalini Yoga. 

Daniela Matos faz Yoga com a filha. (Crédito: Arquivo pessoal)

Abaixo, ela explica um passo a passo de como as crianças podem fazer exercícios de respiração em suas rotinas:

1. Deite a criança de barriga para cima e coloque um bichinho de pelúcia no umbigo dela. Então, diga para inspirar (cheira a florzinha) pelas narinas e encher a barriga e o peito. O bichinho de pelúcia vai subir. Faça bem devagar. Depois, diga para que ela solte o ar (assoprar a velinha) bem devagar também, e assim abaixar o umbigo (trazer a barriga para dentro). Tudo bem devagar. Repita algumas vezes o exercício. Dependendo da idade a criança, ela vai conseguir fazer entre 5 a 10 respirações lentas e profundas dessa forma. Isso já vai ajudar. Se a criança for muito ansiosa, faça isso diversas vezes ao dia. É como dar um 'reset';

2. Outra ideia é fazer bolinhas de sabão no copo mesmo, bem devagarzinho. Use a mesma ideia do exercício acima, mas fazendo bolinha de sabão no copo na hora de soltar. Tudo bem devagar. E lembrando de observar o movimento do umbigo, pois a respiração tem que ser profunda.

3. Sente a criança de pernas cruzadas e, quando inspirar (cheirar a florzinha), diga-a para levar os braços para cima até as mãos tocarem. Quando soprar a velinha (expirar), explique que deve  trazer os braços para baixo, como se a criança estivesse enchendo um balão com os braços. Tudo bem devagar.

ANSIEDADE E ESPECTRO DO AUTISMO
Durante a entrevista, a neuropsicóloga Bárbara Calmeto lembrou sobre as crianças com TEA, que estão mais agitadas nesse período. Afinal, tiveram perdas com os meses sem escola e longe das terapias. E, como uma das dificuldades do TEA é a comunicação social e elas tiveram menos nesse período, muitas retornaram às dificuldades que já tinham sido superadas.

A seguir, ela dá algumas dicas para os pais ajudarem a controlar a ansiedade em seus filhos com TEA:

• Reconheça os sentimentos de ansiedade
A criança autista precisa aprender o que é a ansiedade e como ela a sente em seu corpo, como, por exemplo, com mãos suadas ou coração batendo mais rápido. Uma dica é fazer um desenho do corpo da criança, onde ela possa desenhar ou escrever o que acontece em cada parte em momentos e estresse;

• Use estratégias de relaxamento
As pessoas com Transtorno do Espectro Autista também precisam aprender o que podem fazer para se acalmarem. Respirações, contagens mentais, pequenas corridas pelo quintal ou ler um livro podem ser estratégias que ajudam a relaxar;

• Ensaie situações estressantes
Se preparar para novas situações ajuda muito a evitar uma crise de ansiedade no autismo. Ensaiar ou praticar situações que podem ser estressantes pode ajudar as pessoas com TEA a entenderem a situação antes que elas ocorram;

• Busque ajuda para gerenciar a crise de ansiedade no autismo
Médicos, psicopedagogos, psicólogos, terapeutas ocupacionais e outros profissionais podem ajudar as pessoas com TEA a lidar com a ansiedade, pois trabalham com elas e com a família, criando formas de gerenciar situações de stress. Estar atento aos sinais que as crianças, adolescentes e adultos com TEA transmitem e buscar ajuda profissional, são estratégias fundamentais para lidar com a ansiedade no autismo.

• Tente manter a rotina ao máximo
Evite a exposição aos estressores (poluição sonora e ambiental, exposição constante a notícias negativas etc). Isso inclui a rotina de sono e alimentação.

E lembre-se: além dessas dicas, existem alternativas medicamentosas e não medicamentosas que podem ser discutidas como suporte terapêutico.

*PRISCILA CORREIA é jornalista, especializada no segmento materno-infantil. Entusiasta do empreendedorismo materno e da parentalidade positiva, é criadora do Aventuras Maternas, com conteúdo sobre educação infantil, responsabilidade social, saúde na infância, entre outros temas. Instagram: @aventurasmaternas