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Como se preparar para a adolescência dos filhos? Mães compartilham experiências

Aprenda a lidar com as mudanças da adolescência, que interferem no relacionamento de pais e filhos de forma tão profunda e diária

*Priscila Correia, do Aventuras Maternas, colunista de AnaMaria Digital Publicado em 01/10/2021, às 09h00

Marilda tem percebido a chegada da adolescência de forma diferente com a filha mais nova - Arquivo pessoal
Marilda tem percebido a chegada da adolescência de forma diferente com a filha mais nova - Arquivo pessoal

Parece de repente, mas não é. Os primeiros indícios da adolescência chegam anos antes e podem ser sentidos na forma de pensar e de falar, no estirão das pernas que se alongam ou nos odores da axila. A chamada pré-adolescência é um momento natural de descobertas e adaptações ao novo corpo, além de um turbilhão de emoções, que traz dúvidas e descobertas não apenas para os filhos, mas também para os responsáveis. Afinal, essa fase de despedida da infância requer preparo, compreensão e diálogo entre pais e filhos. Embora seja um período de mudanças para os jovens, nem todos passam por ele da mesma forma. Há, inclusive, famílias com exemplos bastante distintos. 

Marilda de Andrade é mãe de Carolina, de 17 anos, Gabriela, de 11, além de Thiago, de três anos. No caso dela, por exemplo, a filha mais velha passou por esse período de forma muito amena, diferentemente do que ouvia falar de outras crianças. Depois de entrar na adolescência, além de manter o jeito tranquilo, a primeira ficou um pouco mais falante e alegre. Já com a Gabriela, a mãe conta que a fase já começou diferente. "Percebo uma instabilidade emocional, irritabilidade mais frequente, choro com mais facilidade. Antes ela era uma menina mais carinhosa e agora não tanto, existindo uma dificuldade grande em aceitar a minha opinião. E ainda está super respondona", ressalta Marilda, ressaltando saber que é uma fase complicada e que tem início meio e fim: "Enquanto não termina, a gente vai segurando para não brigar."


 A mudança de comportamento foi o primeiro sinal de adolescência do filho de Mariana. (Crédito: Arquivo pessoal)

Quem tem passado por algo parecido é Mariana Brasil, mãe de Guilherme, de 12 anos, e de Beatriz, de apenas três. Ela conta que começou a perceber mudanças no filho quando ele estava perto de completar 11 anos. “Ele começou a apresentar uma irritabilidade que não tinha antes, se tornou mais ansioso, passou a ter menos paciência com tudo e ficou mais sensível. Por outro lado, também passou a ter mais autonomia para realizar suas tarefas e ficou com o senso crítico mais apurado”, conta a mãe, antes de comentar que apesar de sempre terem sido muito amigos, a convivência está mais delicada e sensível agora. "Percebo que com a alteração hormonal e comportamental que ele está passando, determinados diálogos se tornam mais difíceis e coisas que antes eram facilmente resolvidas, hoje precisam de maior atenção e cuidado”, analisa.

E é por isso que na coluna de hoje vamos falar sobre como lidar com tantas transformações, que interferem no relacionamento de pais e filhos de forma tão profunda e diária. Sem dúvida, a fase da pré-adolescência e puberdade é cheia de altos e baixos para a maioria das crianças. Nossos filhos, que até ontem tinham nas mães suas heroínas, vão passar a entortar o nariz ou fazer cara de deboche para algumas opiniões nossas. Mas como podemos nos preparar para esse momento?

O QUE ESPERAR QUANDO SE ESTÁ "ADOLESCENDO"?
Quando descobrimos que um bebê vai chegar em nossas vidas, é comum começar a buscar informações durante a gravidez sobre como será depois do nascimento. Procuramos orientações sobre as fases de desenvolvimento, possíveis doenças, melhores formas de educar, entre outros assuntos. E o mesmo deveria acontecer quando os filhos estão chegando à adolescência, visto que mudanças de personalidade, crises e conflitos normalmente são bastante comuns. A psicóloga Sandra Sorgatti D´Arduini, da Clínica Casagrande, que é especializada na criança e no adolescente, explica que não existe uma receita de bolo que ensine a lidar com eles, pois cada adolescente é único e enxerga suas questões de acordo com suas experiências. A busca por esse aprendizado, porém, poderá tornar os pais mais próximos.

“Ao conhecermos melhor esse período, seremos capazes de estar ali com nossos filhos, direcionando quando necessário, sendo firme quando preciso e ao lado, como amigos e companheiros, sempre. É interessante nos lembrarmos também do período em que passamos por essa fase, das nossas experiências e frustrações, e do quanto precisamos de orientação, entendimento. Essa reflexão também ajudará os pais a se posicionarem frente às questões dos filhos e moldar certos comportamentos para que prevaleça a confiança, respeito e companheirismo”, pontua. Sandra recomenda alguns livros que podem ajudar a entender esse momento dos filhos. “Existem diversas abordagens sobre o tema. No entanto, dentro da literatura, com linguagem direta e simples, costumo compartilhar e recomendar aos nossos pacientes 'Disciplina Positiva para adolescentes, uma abordagem gentil e firme na educação dos filhos', de Jane Nelsen e Linn Lott; 'Criando adolescentes, para pais e mães de verdade!', de Michael Carr Gregg; e 'Como ensinar bem a crianças e adolescentes de hoje', de Leo Fraimman”, sugere.

Mas, mesmo que a literatura possa ajudar a compreender nossos filhos nesse momento, não existe uma fórmula mágica que funcione com todos os adolescentes. Entretanto, o diálogo, a amizade e a confiança entre todos podem ser determinantes para um processo mais tranquilo. “Sempre oriento aos pais e responsáveis, de que o diálogo ainda é o maior facilitador para entendermos o que se passa com esse adolescente. Mostrar que existe amor, afeto e respeito, para que ele se sinta seguro em falar de suas questões emocionais, é fundamental”, diz Sorgatti. E complementa: “Para muitos pais, contudo, esse entendimento não é fácil e, por isso, muitas vezes, o período necessita de acompanhamento psicoterápico familiar, como forma de ajudar na sustentação dos laços familiares. Nesse momento, tanto pais quanto filhos precisam da ajuda de um profissional especializado, um psicólogo, que fará essa ponte, para não causar mais desgaste e conflitos futuros”.

HORMÔNIOS DEMAIS OU DE MENOS
Embora, normalmente, os pais percebam os filhos entrando na puberdade por causa das alterações de comportamento, há outras mudanças acontecendo no corpo desses pré-adolescentes que não são tão perceptíveis. Essa fase é caracterizada por importantes transformações físicas, reorganização psíquica, peculiaridades afetivo-sexuais, comportamentais, socioculturais e de percepção de mundo. Dentre as alterações físicas, as mais evidentes são aquelas relacionadas ao desenvolvimento das características sexuais secundárias orquestradas por mudanças na produção hormonal presente neste processo chamado puberdade, que acontece nas meninas entre 8 a 13 anos de idade e nos meninos entre 9 e 14 anos. Contudo, tem sido percebida uma tendência do início da puberdade precoce e isso se dá em razão de fatores ambientais que contribuem para este processo, como obesidade e alimentação inadequada; de modo que é possível atender crianças com 7-8 anos de idade já com os primeiros sinais.

“Os hormônios envolvidos nesta etapa, especialmente o crescimento e desenvolvimento físico, são o GHRH (precursor do hormônio do crescimento), produzido pelo hipótalamo (estrutura do sistema nervoso central) e que estimula a produção do GH (hormônio do crescimento) na hipófise. Este, por sua vez, estimula o crescimento ósseo. Nessa fase, há um crescimento inicialmente acelerado, atingindo então o estirão puberal. Este, após a menarca ou a sementara, é seguido de uma desaceleração do crescimento ósseo e dos órgãos internos. Também é observado aumento da massa muscular, tecido adiposo e desenvolvimento do sistema cardiorrespiratório”, esclarece Aline Rocha, pediatra e professora do curso de Medicina da Universidade Santo Amaro (Unisa). E vai além: “mais especificamente quanto aos hormônios sexuais, sua produção vai se dar também inicialmente pelo Sistema Nervoso Central, em que o hipotálamo, ao produzir GnRh (hormônio liberador de gonadotrofina), estimula a hipófise na produção de LH/FSH (as gonadotrofinas). Esses hormônios atuam nas glândulas sexuais (ovários e testículos) e são responsáveis por estímulos na produção de hormônios androgênicos (sexo masculino) e estrogênicos (sexo feminino). Nos pacientes de sexo masculino, o LH estimula testículos a produzirem testosterona e o FSH aumenta o volume testicular e espermatogênese. Já nos pacientes do sexo feminino, o LH estimula os ovários a produzirem estrogênios. O FSH, por sua vez, atua na formação dos folículos ovarianos", explica.

Aline lembra, porém, que em algumas situações específicas, como no caso de a puberdade não acontecer do modo esperado, o pediatra ou hebiatra deve solicitar ajuda do profissional endocrinologista pediátrico. Isso acontece em casos de puberdade precoce feminina antes dos 8 anos, ou antes dos 9 anos no sexo masculino. Por sua vez, o retardo puberal também é indício da necessidade de procurar um profissional. "No sexo feminino, o retardo puberal é caracterizado por ausência da características sexuais secundárias (broto mamário, pilificaçâo) até os 14 anos, ausência da menarca aos 16 anos ou 2 anos após apresentação completa dos caracteres sexuais secundários. Já no sexo masculino, essa condição se revela pela ausência do aumento do volume testicular até os 14 anos”, analisa. Entre os fatores que podem influenciar no ritmo biológico natural do indivíduo, estão a prática excessiva de atividade física ou sedentarismo; dietas muito restritivas ou consumo exagerado de ultraprocessados", ressalta.

TRADUZINDO PARA A PRÁTICA
Quais são os sinais mais claros de que nossas crianças entraram na puberdade? Nas meninas, acontece o surgimento do broto mamário; e nos meninos o aumento do volume testicular. “Em ambos, a puberdade evolui com a progressão do crescimentos de pelos, de acordo com a classificação de Tanner. Cada uma das etapas da puberdade dura em média 6 meses. A partir disso, em um intervalo médio de 2 a 3 anos, ocorre a menarca (primeira menstruação) e a semenarca (primeira ejaculação). Após estes grandes marcos da puberdade, há uma desaceleração do processo e, após um a dois anos, entende-se que a puberdade foi concluída”, explica a pediatra. Além disso, também espera-se o aumento acelerado de altura (estirão puberal) e de todas as estruturas; mudança do timbre da voz e da espessura dos pelos e cabelos; desvios de coluna e alterações posturais (escoliose, cifose); acne; e ginecomastia no sexo masculino de caráter benigno e transitório.

ALTERAÇÕES EMOCIONAIS

Isabela e Rafaela e os muitos questionamentos com a nova fase. (Crédito: Arquivo pessoal)

Isabela Defilippo Hansen, mãe de Rafaela, de 14 anos, conta que começou a perceber mudanças no comportamento quando a filha tinha 13 anos. “Ela ficou mais ansiosa, agressiva, com autoestima muito baixa e reativa às opiniões diferentes da dela. Quando discordo de algo sobre qualquer assunto, por exemplo, ela rebate automaticamente, dizendo de forma ríspida que as coisas atualmente são diferentes da ‘minha época’. Rafaela sempre foi questionadora, mas não respondia como agora. Começou também a falar mais alto quando fica frustrada com algo. Eu coloco muitos limites e ela me respeita, mas percebo como fica irritada e inconformada quando as coisas não acontecem exatamente como quer”, conta a mãe.

A psicóloga Simone Rosa explica que, muitas vezes, esquecemos de um detalhe importante quando nos deparamos com tantas mudanças emocionais dos nossos filhos: essa é uma fase em que o indivíduo está deixando a infância e entrando num período em que se vê obrigado a fazer escolhas, ter autorresponsabilidade, enquanto ainda lhe faltam vivências que possibilitariam decisões mais assertivas. Exatamente por isso, é comum apresentarem grande variação de humor, ansiedade, impaciência, irritabilidade e até depressão. “É importante entender que o indivíduo tem corpo de adulto, mas ainda é imaturo por ter pouca experiência. Sendo assim, há necessidade de estabelecer regras e limites com clareza, proporcionando um entendimento maior das condições adequadas de conduta através de orientações coerentes e não com autoritarismo”, diz.

A também psicóloga Aline Ximenes Resende Da Collina, do Espaço Clínico Ápice, lembra, ainda, uma outra característica comum nessa fase: a insegurança. “Exatamente por se tratar de uma transição, existe a insegurança. Com frequência, o adolescente vivencia situações de conquista e frustração, e lidar com elas gera oscilações de humor. Por vezes, são mais reativos, pois são apresentados a situações que geram dúvidas e provocam transformações. É o novo acontecendo e assusta”, analisa.

MAS COMO LIDAR COM ESSAS MUDANÇAS?
Para Simone, a resposta pode estar na combinação de paciência, respeito, afetividade, diálogo e limites. A paciência é fundamental para compreender os questionamentos próprios da fase, assim como manter uma postura de afetividade e compreensão, que será o pano de fundo para construir um relacionamento saudável entre pais e filho. "Já o diálogo precisa ser sempre aberto, com interesse genuíno dos pais em ouvir os filhos, mostrando empatia por suas questões e respeito à individualidade dos filhos. Mas é preciso deixar claro que ter essa postura afetiva não quer dizer ser permissivo. É preciso que haja uma construção de limites e regras, mas com coerência e clareza”, pontua. “Ou seja, não existe conexão sem comunicação, e essa precisa ser sincera, clara e afetuosa de todos os lados. Pais e filhos precisam ser honestos sobre suas emoções, medos, ansiedades e falhas. Não são apenas os filhos que devem se abrir com os pais. Os responsáveis também podem, e devem, deixar claros os seus sentimentos ”, determina.

Outro ‘conselho’ para manter a comunicação com seus filhos é demonstrar que realmente entende aquele “turbilhão” de emoções, sensações e transformações que ele está vivendo. “Todos já passamos por isso e, se houver oportunidade, relembre seus momentos de adolescência e divida com seu filho o que viveu. Se comuniquem, estabeleçam um diálogo positivo. Fale, mas também esteja atento a ouvir”, diz Aline. “Além disso, para manter o diálogo com os filhos, acho importante encontrarem atividades em comum que tragam prazer para toda família: uma atividade física para fazer junto, um jogo de tabuleiro aos finais de semana, um passeio cultural de interesse do adolescente”, complementa.

SENSO DE PERTENCIMENTO E BULLYING

Andréa conta que companhia dos amigos passou a ser mais interessante para os filhos nessa fase. (Crédito: Arquivo pessoal)

Andréa Paz Coelho, mãe de Rafael, de 18 anos, e Vitor, de 14, percebeu que, além das mudanças corporais e de comportamento, a companhia dos amigos passou a ser muito mais interessante para os filhos nessa fase. "Temos uma relação muito tranquila e a transição pra adolescência tem sido boa. No entanto, nos preocupamos com outras questões, como a violência ao saírem, o que estão fazendo e a que horas voltam, além das amizades. Mas como sempre conversamos com muita sinceridade e transparência sobre todos os assuntos, eles entendem nossas angústias e fazem questão de apresentar os amigos”, comenta.

E essa preocupação de Andréa faz total sentido. Afinal, a necessidade de se sentir pertencente a um grupo é muito comum e importante para os adolescentes. E exatamente por isso é de extrema importância que, desde a primeira infância, as crianças sejam educadas de forma a compreender suas potencialidades. “Quando a criança tem uma autoestima elevada, ela sabe quais são seus limites para não cair em provocações, que são tão comuns em grupos de jovens, como 'olha lá, fulano não sabe fazer isso ou aquilo'. Quando esse indivíduo reconhece seus valores, ele, diante de uma provocação, pensará ‘não sou bom nisso, mas sou naquilo; e tudo bem. Ninguém é bom em tudo’. Enquanto que aquele que tem muitas inseguranças, uma vez provocado, pode ter reações prejudiciais”, comenta a neuropsicopedagoga Mariana Casagrande, especialista em saúde mental, psicomotricidade e transtornos da infância.

E, enquanto alguns mantém as amizades ou iniciam novas nessa fase, outros enfrentam sérios problemas com bullying e falta de amigos. Nesse caso, como os pais podem ajudar? “A compreensão e o diálogo ainda são os melhores caminhos para os casos de sofrimento psíquico/emocional que nossas crianças e jovens sofrem quando estão inseridos em algum grupo social. Quem sofre o bullying deve aprender sobre resiliência emocional, conseguindo expressar seus sentimentos e se defender com educação. Ter uma boa autoestima para que as adversidades da vida não interfiram no seu estado psíquico e assim possa, em todos os momentos difíceis que viver em sociedade, ser resiliente a ponto de entender que a opinião do outro não deve nos trazer sofrimento. Já o que pratica deve aprender sobre compaixão, respeito, preconceito, humildade e a aplicação prática dessas virtudes, se colocando no lugar do outro e entendendo que não há nada de ‘legal’ ou ‘engraçado’ em machucar os sentimentos do outro. E esse é um trabalho de vida que deve ser feito com ambos, não somente no momento do ocorrido. Famílias e educadores devem preparar essas crianças para enfrentar as adversidades e as diferenças sociais com profundo respeito”, explica.

Além das questões ligadas a amizades e bullying, temas ligados à sexualidade, drogas, álcool e depressão/ suicídio não podem ser omitidas do dialogo diário. Em relação à sexualidade, é preciso conversar sempre com profundo respeito e afeto, e sem julgamentos agressivos. Já em relação às drogas e álcool, deve-se, por exemplo, mostrar que existem várias formas ‘legais e divertidas’ de ter prazer e alegria na vida; que não precisamos de determinadas substâncias para sentir as boas sensações. "Treinar a inteligência emocional em grupo para que entenda que mesmo se todos fizerem o errado, ela não precisa fazer também. Treinar princípios, virtudes, moralidade e boa índole para que quando o jovem tiver contato com algo errado, ele tenha sabedoria para escolher o certo. E no caso de já estar envolvido ou não estar conseguindo sozinho se manter bem emocionalmente, buscar com urgência ajuda profissional médica e terapêutica. Quanto à depressão, os pais não devem cometer o erro de achar que é bobeira, coisa de adolescente etc. É preciso buscar ajuda profissional”, finaliza Mariana.

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