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Diversão faz bem e vai além do brincar: veja como estimular as crianças

Entenda a importância da diversão na vida das nossas crianças

*Priscila Correia, do Aventuras Maternas, colunista de AnaMaria Digital Publicado em 18/02/2022, às 08h00

Criança se diverte brincando numa poça de lama. - Arquivo pessoal
Criança se diverte brincando numa poça de lama. - Arquivo pessoal

Falar sobre a importância do brincar na vida da criança se tornou um pouco lugar comum – nós, inclusive, já fizemos uma matéria sobre a chamada vitamina N (de Natureza). Mas, muito além do brincar ao ar livre ou em casa, é preciso saber que a ação inclui também a diversão em si. Ficou confuso? Eu explico.

Associamos, comumente, brincar a atividades físicas ou a grupos, mas a diversão é muito maior do que isso. Pode estar no assistir a uma peça de teatro ou um filme no cinema, no ler um livro de uma história instigante e lúdica, e até mesmo (para algumas crianças) em ajudar os pais a arrumar a casa ou cozinhar. Diversão, então, vai muito além do brincar.

Andréa Ribeiro, mãe de Clarice e Joana, sabe bem disso. Ela conta que as filhas, mesmo com 8 e 10 anos, não são muito ligadas em telas, especialmente depois do período das aulas remotas, e que as duas, sim, adoram arrumar e organizar seus armários e passear por locais normalmente associados a adultos, como centros de decoração ou museus. “Minhas filhas nunca foram muito ligadas a joguinhos e vídeos de celulares e tablets. Até porque nunca incentivamos isso. Além disso, mesmo antes da pandemia, sempre que percebíamos certo tédio por parte delas, levávamos para sair, mas não necessariamente para um local para crianças brincarem", conta. Às vezes, segundo ela, era um simples passeio de carro pela cidade ou sair pela rua só para tomar sorvete.

"Literalmente enxergar leveza e diversão em pequenas coisas da vida. Damos muito valor a isso. Então, acredito, acabamos associando diversão a coisas simples. Elas realmente ficam felizes quando saímos todos juntos, ainda que não seja um programa especifico para as duas”, avalia Andréa.

E é para falar um pouco mais sobre a importância da diversão na vida dos nossos filhos, no sentido mais amplo, e como se divertir não significa, necessariamente, brincar, a nossa coluna de hoje será sobre esse assunto.

A IMPORTÂNCIA DA DIVERSÃO E ONDE ENCONTRÁ-LA

criança correndo na chuva
Crédito: Mi Pham/Unsplash

A diversão não é apenas importante na vida de uma criança, ela é algo essencial. Afinal, as ações infantis de divertimento, passatempo e recreação promovem a ludicidade e esta interfere no desenvolvimento integral da criança. Quem nos diz isso é Priscila Ximenes Souza do Nascimento, Doutora em Educação e Professora do Curso de Licenciatura em Pedagogia da PUCPR. Mas só é possível se divertir brincando? “A diversão pode ser relacionada aos atos que promovem prazer e, certamente, o brincar é um deles. Contudo, é importante entendermos que o brincar, as brincadeiras, os brinquedos, os jogos (sejam em meio eletrônico ou não) fazem parte do arcabouço do lúdico e do desenvolvimento da ludicidade. É de extrema importância oferecer às crianças experiências diversificadas de diversão, inclusive, criando brinquedos, jogos e brincadeiras com coisas do cotidiano que não são vistas dessa forma (como representar animais com a sombra das mãos, caixa de papelão que vira cabana, gravetos de árvores que viram microfones etc). Nós fazemos isso desde bebês, quando nos divertimos com o nosso próprio corpo, por exemplo”, comenta.

Para Adriana Drulla, Mestre em Psicologia Positiva, a diversão é bastante importante, pois é na brincadeira que ela constrói vínculo com outras crianças e até com adultos, além de cuidar da saúde emocional e estimular o aprendizado. A brincadeira de faz de conta, por exemplo, é a principal responsável pela função simbólica. "A capacidade da criança olhar para um cabo de vassoura e pensar que é um cavalo requer uma capacidade de simbolizar. Esse raciocínio de representar um conceito a partir de uma outra coisa é a mesma habilidade que a criança precisa para aprender a ler, por exemplo. É a capacidade de simbolizar um conceito concreto em uma palavra. Na leitura, outra forma de diversão para os pequenos, a criança precisa conseguir fazer essa associação símbolo/objeto concreto. Sabemos também que é na brincadeira que elas constroem a capacidade de autorregulação, inteligência emocional, saber dividir, dar a vez pro outro, aprender a lidar com frustração. Então, a brincadeira é importantíssima no dia a dia da criança”, diz.

Só que a diversão não precisa, necessariamente, estar atrelada ao brincar. É possível, sim, se divertir de outras formas. Fabiana Souza, mãe do pequeno Gustavo, de 8 anos, assim como Andréa com suas filhas, procurar mostrar para o filho que o dia a dia comum pode ser divertido também, mesmo que nem sempre tenha amigos ou telas por perto. “Normalmente, meninos adoram jogos e vídeo games. Não proíbo, mas tento ao máximo fazer sua rotina sem telas e sem necessariamente ter outra brincadeira para substituir. Acredito que crianças precisam aprender a encontrar graça nas coisas mais comuns. Então, chamo para me ajudar a fazer uma comida que ele goste ou arrumar seus brinquedos de forma diferente no quarto. E ele curte, percebo que fica feliz. E não preciso de brinquedo ou algum gadget pra isso, entende?”, comenta.

Outra forma de divertir as crianças sem necessariamente usar brinquedos é levando-os para curtir a natureza, já que esta apresenta inúmeras oportunidades de brincadeira, de simbolização, de desafio do corpo – desde correr, se balançar e subir numa árvore até caminhar, observar o entorno, curtir mesmo o local. “A natureza é bastante saudável para a saúde física e emocional e é importante que as crianças estejam em contato com esses ambientes. E quando digo em contato não é apenas para brincar no local, mas a diversão gerada pelo contemplar mesmo”, comenta Drulla.

TELAS NÃO CUMPREM ESSE PAPEL

bebês brincam com telas
Crédito: Jelleke Vanootegh/Unsplash

Muitos pais acreditam que a diversão para algumas crianças está apenas em jogar ou ficar em frente a telas. Há, inclusive, alguns que “trocam” algo importante por um tempo de jogo, com frases como “se você fizer isso, deixo jogar 30 minutos”. E para quem costuma fazer isso, um aviso: não, você não está proporcionando diversão para seu filho. Adriana Drulla lembra que as telas não são, necessariamente, uma oportunidade de diversão.

Inclusive, se você assistir a uma criança jogando, muitas vezes as emoções que estão presentes ali vão da ansiedade, que é aliviada quando a criança ganha, até a raiva, dependendo da competição. E as telas viciam não porque são divertidas, mas porque fazem o nosso organismo produzir dopamina, que é um hormônio estimulante. Uma vez que o nosso organismo se acostuma a altas doses, precisaremos cada vez de mais um pouquinho daquilo para nosso corpo ficar bem. “A questão do vício nas telas pouco tem a ver com diversão. Por isso até se chama vício”, pontua.

Na verdade, explica a Mestre em Psicologia Positiva, as telas acabam entrando no lugar das brincadeiras, que contribuem verdadeiramente para o desenvolvimento da criança. Isso porque ela poderia usar a criatividade para inventar algo, ou para exercitar a função simbólica quando ela está entediada. Então, é necessária uma dose inicial de tédio para que a criança olhe para o espaço em que se encontra e aí possa inventar uma brincadeira divertida. Já nos jogos eletrônicos, as crianças são muito mais passivas, não há tanto espaço para a criatividade, ou movimento do corpo.

“É preciso dizer também que os pais precisam tolerar a frustração da criança quando fica entediada. O principal problema das telas é que elas viciam tanto as crianças, que querem sempre mais, quanto os pais, que aprendem a dar as telas para a que criança se cale. Então, o comportamento dos pais de sempre dar a tela acaba reforçando o comportamento da criança, que é o de fazer a birra para ter a tela. E, com isso, vamos fortalecendo essa dinâmica de colocar a tela no lugar de brincadeiras mais valiosas”, complementa.

Hoje, é muito comum escutarmos pais que dizem que seus filhos não se divertem se não estiverem com algum vídeo game ou tela em sua frente. Priscila ressalta, porém que isso comumente está relacionado a uma rotina muito restrita e padronizada vivida por elas. Para cortar esse hábito, é preciso oferecer experiências diversificadas de diversão. “A tecnologia precisa estar na nossa vida para somar e não subtrair”, enfatiza. A Professora da PUCPR lembra, ainda, que nesse ponto cabe reforçar a recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria e da Organização Mundial da Saúde (OMS) para que bebês e crianças até dois anos de idade não sejam expostos a atividades sedentárias em frente a uma tela. A partir dos dois anos de idade, orientam que o tempo sedentário em frente às telas não seja superior a uma hora e que priorize-se estar junto com a criança ao acessar conteúdos digitais”, esclarece.

E mais: a geração atual de jovens será a primeira a ter QI (Quociente de Inteligência) menor do que a geração anterior. E como causa disso, além de outros fatores ambientais, como poluição, por exemplo, já há certeza da influência da exposição a telas nesse fenômeno. “Isso inclui: distúrbios do sono, de atenção, de concentração, impulsividade, entre outros. Existem efeito indiretos significativos também sobre o desenvolvimento emocional e de linguagem, sobre o desenvolvimento físico (sedentarismo, obesidade) e inclusive sobre a cultura do indivíduo, uma vez que o repertório cultural fica muito restrito”, esclarece o pediatra Josemar Lidio de Matos.

APRENDENDO A SE DIVERTIR

Mães e pais sempre querem proporcionar o melhor para seus filhos. Entretanto, a rotina das famílias normalmente é super corrida e, muitas vezes, não há tempo para encaixar a diversão. E aí aparece a culpa pela falta de oportunidade de gerar momentos de lazer para seus pequenos. Mas, calma. É possível, sim, conciliar a necessidade de recreação com a correria do dia a dia. Para Drulla, muitas vezes os pais se vêm vítimas das necessidades de diversão dos seus filhos. É preciso entender que, se a criança precisa brincar, dependendo da idade, não significa que ela necessite de um adulto que brinque com ela ou de alguém que a supervisione o tempo inteiro.

“A criança tem a capacidade de se divertir sozinha, inclusive. Não tem porque a gente ter pena dela porque não tem, de repente, a todo momento do dia, alguém para brincar junto. Claro que é importante a socialização, a convivência com os pais, com um adulto, para desenvolver vínculo. Mas enquanto nossa rotina está corrida, a criança pode brincar com os objetos da casa. Por exemplo, se os pais estão cozinhando, podem dar um potinho ou uma colher para que a criança aprenda a brincar sozinha”, diz.

Ela lembra, entretanto, que essa construção de repertório de brincadeira é um processo que leva tempo. Então, crianças que estão acostumadas a terem adultos ou outras crianças disponíveis o tempo inteiro, podem expressar um certo tédio quando forem deixadas para brincar sozinha. “Mas isso é uma coisa que se constrói com o tempo - essa capacidade de lidar com o tédio e se divertir sozinha. O importante, quando a rotina está corrida, é fazer combinados com a criança, explicar anteriormente que não vão brincar juntos o tempo inteiro, que às vezes ela vai brincar sozinha também. Converse com sua criança, combine de criar com ela um cantinho da brincadeira, que vai ajudá-la a equipar um local com brinquedos, jogos e ideias para que possa começar a se engajar em uma brincadeira sozinha”, esclarece. E o mais importante, que às vezes é o mais difícil: confiar na capacidade que a criança tem de se divertir. Sim, ela consegue.

No entanto, caso os pais achem que não estão conseguindo fazer a criança se divertir, seja sozinha ou com outras pessoas, é preciso procurar ajuda. Afinal, a diversão, como já dissemos, é importantíssima para o desenvolvimento dos pequenos. “A hora de pedir ajuda varia de família para família. Mas, no modo geral, isso acontece quando os pais sentem que não conseguem contornar aquela situação ou que estão dando soluções que não somam e que prejudicam a criança em vez de contribuir para o desenvolvimento. E a ajuda pode ser desde uma orientação parental, com consultas com especialista que possam ampliar o repertório de comportamento desses pais e ajudá-los a lidarem com a própria frustração e explicar outras alternativas para essa frustração da criança, até normalizar essa dificuldade ou um aconselhamento psicológico para esses pais.”, complementa Adriana.

Para Priscila Ximenes, quando os responsáveis observarem mudanças drásticas no comportamento da criança, especialmente quando ela não se interessa por momentos de interação com outras , é o momento de procurar apoio. “Cabe conversar com a própria criança para que ela possa se expressar (às vezes, brincar de faz-de-conta com ela será a melhor forma de entendê-la) e conversar também com as demais pessoas (crianças e adultos) que convivem com ela”, esclarece.

CULTURA E DIVERSÃO: UMA DUPLA PERFEITA

crianças na natureza
Leve sua criança simplesmente para ver o mundo. (Crédito: Torsten Dederichs/Unsplash

A diversão engloba muito mais do que o ato de escolher algo para brincar. Ela inclui, ainda, momentos de pura contemplação (como acontece quando a criança vai passear em um parque e observa a Natureza), de rotina (quando encontram prazer em uma simples volta no bairro ou em sair para tomar um picolé), períodos em que está sozinha (seja curtindo seus pensamentos ou lendo, por exemplo) e programas culturais, aqueles que, na maioria das vezes, chegam não apenas para servir de entretenimento, mas também de conhecimento. Afinal, atividades culturais divertem e geram conteúdo para conversas, brincadeiras e novos passeios.

Priscila, da PUCPR, explica que a cultura é elemento muito significativo para o desenvolvimento socioemocional no início da vida. “Desde a gravidez, o contato da mãe com músicas, danças e literaturas, por exemplo, estimulam os bebês e favorecem a expressividade, sensibilidade, atenção, senso crítico, criatividade etc. Esse tema é tão relevante que o Plano Nacional pela Primeira Infância definiu duas das dezoito ações finalísticas envolvendo o assunto (14. A criança e a cultura e 18. O direito à beleza)”, conta.

Além disso, pontua que, embora não exista uma quantidade mínima de passeios culturais indicada para uma criança ter ao longo do ano, é muito importante promover essas ocasiões com certa frequência. “Aqui, cabe aquela máxima de que “vale mais a qualidade do que a quantidade” dos passeios. Além das contribuições ao desenvolvimento humano que mencionei na pergunta anterior, devemos lembrar que os passeios aos museus, cinema, teatros, praças, parques, entre outros são formas de vivenciarmos a cidade como educadora e de termos acesso à história das gerações que nos antecederam”, complementa.

Para Grasiela Camargo, sócia do Clubinho de Ofertas, plataforma especializada em entretenimento infantil com descontos que chegam a 80%, se for possível para a família, o ideal é levar as crianças a alguma atividade cultural pelo menos uma vez por final de semana. “As atividades culturais, de lazer e entretenimento são superimportantes no desenvolvimento das crianças porque ensinam ao mesmo tempo que se divertem, e tudo é gravado de forma mais forte e perene na mente delas. Além disso, quanto mais experiências uma criança tiver, maior será o horizonte de oportunidades que ela conseguirá enxergar quando for um adulto porque teve mais vivência na infância”, comenta. E complementa:

“Cultura é importante para todos e nessa pandemia vimos o quanto ela é fundamental em nossa vida. Ela é a parte lúdica, emocional e inspiradora. As atividades culturais estimulam a imaginação e a criatividade das crianças, o aprendizado de valores culturais e sociais, e ampliam o entendimento dela sobre as possibilidades da vida."

VACINAÇÃO E LAZER: TUDO A VER

Se a vacinação contra a covid-19 já é amplamente divulgada para a saúde de nossas crianças, a imunização é importante, também, para que se tenham acesso à diversão. Afinal, não são poucos os locais que estão exigindo o comprovante para permitir a entrada. Para o pediatra Charles Schmidt, embora obviamente a vacinação não deva ser encarada como uma atividade de lazer, é possível dizer, sim, que ela acaba proporcionando, de alguma forma, o retorno a uma rotina de programações divertidas, que ficaram anuladas por muito tempo durante a pandemia.

“Os pais que ainda não vacinaram seus filhos precisam entender que, além de colocarem em risco a saúde de suas crianças, estão as privando de atividades sociais, que são muito importantes para seu desenvolvimento”, diz. E para aqueles com medo de se vacinar [algo normalmente associado ao medo da agulha da vacina do que à doença que ela imuniza], os responsáveis não devem barganhar a vacinação com presentes ou guloseimas. "Na verdade, quando bem orientadas e com pais conscientes e vacinados, as crianças entendem esta responsabilidade quando chega a sua vez”, complementa.

Grasiela Camargo, do Clubinho de Ofertas, lembra também que os pais que não vacinaram seus filhos não estão privando as crianças “apenas” da imunização, mas também do retorno às atividades mais coletivas. “Muitas crianças ficaram deprimidas e até tiveram déficit de aprendizado durante o período de isolamento por falta de convivência com outras crianças, de sair de casa, conhecer outros lugares e viver outras experiências. Por isso é fundamental que elas sejam vacinadas para que possam voltar a ter estes momentos de diversão, retornando a teatros, circos e outras atividades de aprendizado com mais segurança”, comenta.

A também pediatra Caroline de Gouveia Buff Passone enfatiza, ainda, que a vacinação se mostrou segura e eficaz a curto e médio prazo para as crianças, e não há porque os responsáveis temerem o imunizante. “Atualmente, já temos mais estudos que reforçam sua importância e tranquilizam os pais em relação ao risco. Não foram relatados eventos graves e os efeitos encontrados foram transitórios. Já não estamos mais em fase de teste. Neste momento de grande propagação do vírus, a vacina irá reduzir o risco das formas graves da doença e certamente ajudará a criança a voltar a sua rotina pré-pandemia, inclusive em relação às atividades sociais, tão importantes para o seu desenvolvimento”, conclui.

Em tempo: “Gostaria de terminar indicando um documentário muito legal que precisa ser visto por todos, especialmente os adultos que convivem diretamente com crianças. Chama-se Tarja Branca e, entre várias reflexões, adverte-nos de que o brincar é uma alternativa para a medicalização dos afetos e da infância”, conclui Priscila Ximenes, da PUCPR.

*PRISCILA CORREIA é jornalista, especializada no segmento materno-infantil. Entusiasta do empreendedorismo materno e da parentalidade positiva, é criadora do Aventuras Maternas, com conteúdo sobre educação infantil, responsabilidade social, saúde na infância, entre outros temas. Instagram:@aventurasmaternas