AnaMaria
Facebook AnaMariaTwitter AnaMariaInstagram AnaMariaSpotify AnaMaria

Vape: o que o cigarro eletrônico pode causar na via respiratória?

Cantoras Solange Almeida e Doja Cat tiveram problemas com o cigarro eletrônico; entenda

*Dra. Maura Neves, colunista de AnaMaria Digital Publicado em 31/05/2022, às 08h00

O e-cigarro são aparelhos eletrônicos que vaporizam um liquido. - Unsplash
O e-cigarro são aparelhos eletrônicos que vaporizam um liquido. - Unsplash

Duas artistas foram notícias essa semana por conta dos efeitos do cigarro eletrônico na via respiratória. Mesmo após parar de fumar há seis meses, a cantora Solange Almeida contou que o uso indevido do cigarro eletrônico quase culminou na perda total de sua voz. Já Doja Cat precisou passar por uma cirurgia nas amígdalas de urgência.

Por esses e outros exemplos, acho importante falar sobre o uso desses e-cigarros, uma “moda” que se difundiu rapidamente entre os jovens, ganhou muitos adeptos e ficou conhecida por “Vaping” ou “Vape”.

Tratam-se de aparelhos eletrônicos que vaporizam um líquido, ao invés de queimar as folhas de tabaco como o cigarro tradicional. A solução liquida é variável e consiste em  propilenoglicol e/ou glicerina, água e alguns aromas (tabaco, menta, fruta, café, chocolate etc.) e pode ou não conter nicotina, além de outros aditivos.

Eles são vendidos como dispositivos mais seguros do que o cigarro convencional, inclusive sendo comercializados como auxiliares a quem deseja parar de fumar (lembrando que a comercialização destes produtos não é permitida no Brasil). O que não corresponde totalmente à verdade, certo? Todos os componentes agem como irritantes respiratórios e podem afetar desde lábios, boca, língua, garganta, cordas vocais e até pulmões.

SUBSTÂNCIAS CANCERÍGENAS

Vale ressaltar que existe repercussão em outras partes do corpo. Um estudo publicado pela Respiratory Research, em 2021, mostrou que há uma alta eliminação na urina de toxinas inaladas durante o Vape, tais como acroleína, benzeno e acrilamida, que são conhecidas substancias cancerígenas.

O grande problema dos e-cigarros está na falta de regulação na composição dos líquidos utilizados, que podem trazer problemas para saúde em curto e longo prazo. A composição pode ser variável, entre nicotina, aromatizante e álcool.

Um estudo laboratorial com os refis de uma marca comercializada mundialmente encontrou níveis de furaneol, álcool benzílico, etil maltol, etil vanilina, corilona e vanilina dos e-cigarros estavam significativamente correlacionados com a toxicidade celular e redução de regeneração das células do trato respiratório.

Os cálculos da margem de exposição mostraram que os níveis de toxinas eram altos o suficiente em alguns produtos para apresentar um risco de câncer. Já as concentrações de aromatizantes químicos frequentemente excederam as concentrações permitidas.

Ou seja: como a maioria das recargas de refil não são padronizadas, não sabemos ao certo o que é inalado. E muitos deles contem nicotina, e pode, sim, viciar. Um estudo do INCA (Instituto Nacional do Câncer) aponta que há três vezes mais risco de experimentação de cigarro convencional e mais de quatro vezes o risco de usar o cigarro a partir do uso do Vape.

Outra consideração é que o próprio dispositivo pode dispersar partículas de metal por conta do aquecimento.

O QUE ACONTECE QUANDO USAMOS VAPE?

Como mencionei acima, sendo relatado em estudos, o e-cigarro causa uma inflamação em toda a via respiratória - da garganta ao pulmão - por exposição a substâncias tóxicas. Essa inflamação diminui a capacidade de defesa e regeneração da via respiratória. Outras alterações relatadas são cardíacas e vasculares, muito semelhantes as relatadas ao cigarro convencional. A extensão do dano é proporcional a quantidade inalada.

COMO O VAPE PODE AFETAR A VOZ?

Todas as substâncias inaladas nos e-cigarros são potencialmente tóxicas e cancerígenas. Estes irritantes causam uma inflamação nas cordas vocais e na laringe, e que se manifesta com rouquidão, tosse ou dor de garganta. Lembrando que qualquer alteração na voz que dure mais que duas semanas deve ser avaliada por um médico.

E A CIRURGIA NAS AMÍGDALAS? 

Neste caso, acredito que o Vape não seja o único responsável. A cantora relatava uma infecção de garganta em tratamento e fez uso de álcool e Vape. O e-cigarro, neste caso, pode piorar o quadro ao causar mais irritação da via respiratória (reduz a defesa local), o que pode ter sido agravado pelo álcool e outros hábitos. Em tabagistas, a cirurgia de amígdalas pode ser especialmente necessário em casos de câncer de boca.

Para finalizar: do ponto de vista de saúde, recomendo evitar o uso de quaisquer dispositivos de vaporização de substancias não controladas.

Referências:

Omaiye EE, Luo W, McWhirter KJ, Pankow JF, Talbot P. Electronic Cigarette Refill Fluids Sold Worldwide: Flavor Chemical Composition, Toxicity, and Hazard Analysis. Chem Res Toxicol. 2020 Dec 21;33(12):2972-2987. doi: 10.1021/acs.chemrestox.0c00266.


Marques P, Piqueras L, Sanz MJ. An update overview of e-cigarette impact on human health. Respiratory Research, 22(1),151. 2021. Doi:10.1186/s12931-021-01737-5

*DRA. MAURA NEVES é formada na Medicina pela Faculdade de Medicina da USP. Residência em Otorrinolaringologia pelo HC- FMUSP. Fellow em Cirurgia Endoscópica pelo HC- FMUSP. Doutorado pela Faculdade de Medicina da USP. Médica Assistente do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo -SP. Aqui na Revista AnaMaria, trará quinzenalmente um conteúdo novo sobre a saúde do ouvido, nariz e garganta. Instagram: @dra.mauraneves

{# Taboola Newsroom #}