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Conselho de amiga: Senhor Tempo, faz um acordo comigo?

É por conta dessa pressa, desse triatlo do dia a dia que gostaria de negociar

Da Redação Publicado em 20/07/2019, às 08h00 - Atualizado em 18/08/2019, às 10h56

Prometo não te desperdiçar desde que você não se atenha tanto às regras desse jogo - Banco de Imagem/Getty Images
Prometo não te desperdiçar desde que você não se atenha tanto às regras desse jogo - Banco de Imagem/Getty Images

Você vai continuar passando. Essa parte entendi. Tenho sentido, literalmente, na pele. Mas é que está ficando meio complicado te alcançar. Antes, eu chegava na frente. Os natais demoravam três anos.

Contava os dias para o meu aniversário, mas o calendário dava ré. E as férias na praia? Uma eternidade para repetir. Teve a fase em que você ficou elástico. Quanto cabia em 24 horas? Dava para ir à faculdade, trabalhar, passar no shopping, sair com amigos e ficar uma hora ao telefone. 

Sobrava muito de você para ler, ir à academia, brigar com o namorado e fazer as pazes. Mas, na mesma proporção que os projetos foram acumulando, você foi rareando. Coisas a serem feitas que extrapolam o hoje e esperam por amanhã. 

E o dia seguinte fica ainda menor que o anterior e, de repente, a sensação é de que nem adianta tirar o pijama porque dali a dez minutos entramos nele de novo. E é por conta dessa pressa, desse triatlo do dia a dia, que gostaria de negociar.

Fica um pouco sem graça isso de sentir que você navega tão rápido sem que eu possa surfar todas as ondas. Mereço, por exemplo, em uma manhã de inverno, largar tudo por uns minutinhos embaixo de uma frestinha de sol. 

Riscar a agenda e caminhar sem rumo pelas praças e ruas da infância. Abrir o computador e pesquisar a banda favorita. Espalhar fotografias antigas pelo tapete da sala: rir do penteado antiquado da tia do interior e chorar de saudade de quem ficou só nas fotos. 

Sentar no banco de uma igreja silenciosa. Folhear um livro amarelado, lido há muito. Também queria saber se tem um jeito de você refrear de leve quando eu sentir uma alegria descabida, geralmente promovida por estar com pessoas especiais. 

Em troca, pode acelerar à vontade, sempre que as horas ficarem pesadas demais para eu arrastá-las sozinha. Portanto, ficamos combinados assim: prometo não te desperdiçar desde que você não se atenha tanto às regras desse jogo.

WAL REIS é jornalista e profissional de comunicação corporativa. Escreve sobre comportamento e coisas da vida: www.walreisemoutraspalavras.com.br/blog/