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Descomplica / SINTA & LIGA

O destino difícil de ser deixado para trás: um lugar chamado nunca mais

Muitos têm dificuldade para aceitar que a vida é um trem em movimento e que o “quadro” formado pela janela vai mudar o tempo todo

Wal Reis Publicado em 11/08/2020, às 08h20

A angústia do “nunca mais” tem a ver com nossa impotência de comandar o tempo - StockSnap/Pixabay
A angústia do “nunca mais” tem a ver com nossa impotência de comandar o tempo - StockSnap/Pixabay

Alguma vez você teve uma sensação parecida: é o último dia daquela viagem adorável e, enquanto tranca a mala para voltar à rotina, se avizinha uma espécie de melancolia, que transcende o fim das férias. Essa é a certeza de que tudo o que foi vivido ali já faz parte da história e talvez nunca mais volte a ver aquele lugar, aquelas pessoas ou até reveja, mas não será a mesma experiência.

Pode acontecer também ao fechar, pela última vez, a porta da casa que foi cenário de sua infância e entregar as chaves ao novo morador. Olhando através das grades da escola onde estudou ou limpando a gaveta de sua mesa no último dia naquele emprego. Ou ainda ao lembrar do último beijo, aquele não será mais repetido. 

A ideia do “nunca mais” é difícil de ser assimilada até mesmo quando a vivência nem foi assim tão gratificante. Porque é mais sobre a impotência de mandar no tempo, sobre termos a consciência de que não estamos no comando de nada e de que a vida vai passar incólume, independentemente de tê-la desfrutado ou não.

Nem sempre o “nunca mais” tem a ver com a escassez de anos para serem vividos, mas, sem dúvida, a quantidade de “nunca mais” cresce conforme envelhecemos: o “nunca mais” de encontrar o amigo que partiu, o “nunca mais” de voltar àquele país ou reescalar uma montanha (uma vez que seu joelho “nunca mais” foi o mesmo)... vamos folheando o álbum da nossa história e angustia não ter o direito de dar um pulinho nas fotos de antigamente para colher os frutos doces de uma época que desapareceu sem o seu consentimento. 

MAS AINDA DÁ...
A única maneira de não tornar a vida sombria diante de tanto tropeço em “nunca mais” é voltar a atenção para o “ainda dá”. Porque acredite: ainda dá para fazer muita coisa. Mas precisamos cuidar para que o “nunca mais” não ocupe todos os “gigas”: com a capacidade de armazenamento esgotada, o “ainda dá” não terá chance.

Quando o “nunca mais” é realmente “nunca mais” qual a vantagem de continuar parado olhando para o muro entre você e o que já foi? Se não dá mais para fazer um salto duplo carpado, faça Pilates. Se “nunca mais” poderá abraçar sua mãe, faça o bolo que ela te ensinou e reúna a família como ela gostaria. Isso sim é homenagem e enche de boas energias seu dia a dia. 

Mas vale sempre ter cuidado para não trancar na lista do “nunca mais” – por comodismo ou certa inclinação de sentir pena de si – o que “ainda dá”, pois existem acessos escondidos para a Terra do Nunca Mais, que a gente encontra tateando, por tentativa e erro, e quando menos esperamos, destrancamos a porta e descobrimos do outro lado amores e alegrias que estavam só esperando o resgate. Esperando sua mão firme para serem içados ao patamar do “ainda dá”.

WAL REIS é jornalista, profissional de comunicação corporativa e escreve sobre comportamento e coisas da vida. Blog: www.walreisemoutraspalavras.com.br