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À Revista AnaMaria, Ingra Lyberato fala sobre quebras de tabu quanto a idade

Ingra Lyberato fala sobre suas descobertas ao longo do envelhecimento

Karla Precioso Publicado em 31/07/2022, às 08h00

Ingra Lyberato fez Pantanal, A História de Ana Raio e Zé Trovão, O Clone e Gênesis - Instagram/@ingralyberato
Ingra Lyberato fez Pantanal, A História de Ana Raio e Zé Trovão, O Clone e Gênesis - Instagram/@ingralyberato

Estrela de novelas como Pantanal, A História de Ana Raio e Zé Trovão, O Clone e Gênesis, Ingra Lyberato agora também se dedica a uma nova função. Apaixonada pela alma humana, concluiu a formação em constelação familiar, abrindo espaço para uma nova compreensão e cura de padrões, e mergulhou num processo de autoconhecimento e fim à autossabotagem. Isso se iniciou quando lançou o livro O Medo do Sucesso, em 2017, no qual confessou ser “vítima do medo do próprio brilho, força e poder pessoal”. Sim, ao escancarar sua fragilidade e tocar num assunto até então pouco discutido, o receio da fama e do sucesso, ela não imaginava que veria a porta se abrir para uma nova empreitada: “A obra fez parte do meu processo de cura ao mostrar minhas limitações e fracassos internos. Terapeutas se encantaram pela autoanálise, estreitamos laços e, na pandemia, comecei a fazer lives sobre espiritualidade e conhecimento de si próprio. E já estou em uma segunda formação terapêutica, a Ecopsicologia”, revela. Com três filmes para serem lançados, aos 55 anos, encarou uma cena de nudez no seriado Chuteira Preta: “A idade precisa deixar de ser tabu. Nunca tive neurose pela boa forma física, mas tenho uma vaidade natural de gostar de me sentir bem, saudável e bonita”. A seguir, ela fala sobre suas descobertas, vaidade e envelhecimento

Como você conheceu a constelação familiar?

Me apaixonei há mais de 20 anos. É um serviço lindo de entrega, que traz a consciência da responsabilidade e transformou minha vida algumas vezes. Conheci em Salvador a constelação familiar TSFI (Terapia Sistêmica Fenomenológica Integrativa), que tem como base o amor e a reconciliação, além de resgatar a cara do xamanismo. Quando vi a constelação familiar integrada ao xamanismo, minhas paixões, não resisti. Um ano depois, entrei na formação. A intenção era apenas conhecer mais e ampliar a consciência, mas comecei a constelar em treinamento e não parei mais.

Conte mais sobre seu processo na busca do autoconhecimento

Entender a natureza humana sempre foi algo que me intrigou. Estudava física quântica, lia livros de cientistas, mas não ia muito a fundo. Aos 40 e poucos anos, comecei a desconfiar que a vida não podia ser só trabalho e distração. Pedi ao Universo que me trouxesse experiências mais profundas, e fui atendida. Foi quando conheci a ONG Paz sem Fronteiras e acordei para uma nova dimensão da realidade, fora do caos urbano e das relações humanas neuróticas. O xamanismo resgatou minha sensibilidade. Comecei a enxergar o processo como um todo e aprendi a navegar a favor do fluxo da vida. Em oito anos de mergulhos internos, me sinto como se tivesse vivido muitas encarnações, me reinventando e construindo um profundo e verdadeiro sentimento de liberdade.

Você gravou cenas sensuais em Pantanal e, naquela época, não se discutia o feminismo como hoje. O tema era abordado na sua casa? 

Sou filha de feminista. Minha mãe, Alba, falava dos direitos das mulheres o tempo todo e, como escritora e poeta, foi perseguida pela ditadura junto com meu pai, Chico Liberato, artista plástico. Mas eu percebi de maneira intuitiva que várias coisas que ela não fazia era porque ela própria se sabotava. E hoje vejo que nosso grande inimigo vive dentro da gente. Claro que, em muitas situações, a pessoa está refém de suas escolhas do passado e precisa de ajuda. Outras vezes, atitudes machistas precisam ser contidas para não machucar ninguém, mas no que diz respeito a ter espaço na vida, sinto que somos nós que temos o poder de bloquear nosso próprio caminho ou nos permitir avançar. Toda necessidade de mudança exige coragem e ação, mas não me identifico com nenhuma bandeira específica. Com relação à sexualidade natural de Pantanal, eu achava lindo! Sexualidade sagrada que nada tem a ver com pornografia, que diminui o valor do nosso corpo e força vital.

No livro O Medo do Sucesso, você fala que não soube lidar com a exposição… 

Cresci num ambiente de arte e o que me movia era o amor pela expressão artística. Não sonhava em ficar famosa. Quando a fama chegou tão rápido, me assustei. Estava acostumada com o quintal do sítio dos meus pais e, de repente, a plateia era de milhões. Foi desconfortável porque eu estava me construindo como artista e via que a imagem falava mais alto do que o trabalho em si. Diante dos aplausos, comecei a ter medo de arriscar e errar. Um artista que tem medo de se atirar sem rede de proteção, trava. E foi o que aconteceu comigo. Tinha medo de crescer e, quando as coisas começavam a ir longe demais, entrava em reclusão. É preciso ter maturidade para ver a luz da ribalta lá fora e continuar focada na sua luz interior. Descobri que as desculpas para fugir do meu brilho pessoal era o medo disfarçado de inúmeras justificativas... Até que entendi que o verdadeiro sucesso era estar a serviço da vida. Nada a ver com aplauso e aprovação, mas sim com me doar.

Na época do lançamento desta obra, você imaginava estar abrindo uma porta para uma nova empreitada? 

Não fazia ideia! Sentia que era apenas um processo de cura pessoal. Arrancar as máscaras e expor minhas fragilidades. Sair da ilusão de busca da perfeição. Foi um processo dificílimo! Mas uma força maior me empurrava para continuar escrevendo e, aos poucos, fui sentindo o doce sabor da liberdade de ser quem sou. Poder ser imperfeita e compartilhar isso abertamente não tem preço. É maravilhoso! Escrevi o livro em menos de quatro meses. Na época, ninguém falava sobre medo do sucesso. Hoje, seis anos depois, muita gente discute o tema. Digo que ele é um “livro portal”. Foi cura para mim, tem sido tomada de consciência para muita gente e, de quebra, encantou psicólogos e terapeutas. A partir daí, comecei a dialogar com esses profissionais.

Isso tem relação com a sua declaração de ter passado grande parte da vida se boicotando? 

Não reconhecia meus dons e também não os valorizava. Exemplo: sempre escrevi bem, pois lia muito, mas tinha medo de me expor escrevendo, e não enfrentava esse receio. Não só me boicotava na profissão como também nas relações afetivas. Hoje sei que isso tinha a ver com padrões sistêmicos na minha família. A dinâmica era a seguinte: por medo de ser abandonada, abandono antes. Claro que o amor e a força de atração é maior do que tudo, e esse padrão herdado não me privou de dois casamentos lindos e cheios de frutos saborosos - experiências ricas, filho, família e a própria amizade sincera que tenho hoje com meus ex-maridos. Realmente, não consigo ver nada mais precioso do que isso.

Você completou 55 anos. O avançar da idade assusta você? 

Estou apaixonada pela vida, descobrindo mil coisas. Agora eu enxergo muito mais os sinais, as sincronicidades. Minha vida tem muito mais sentido hoje. Continuo sem saber muito, mas agora sei o suficiente para confiar no plano maior e só colocar minha energia onde realmente vai fazer diferença. Sofro menos. Fiz as pazes com o medo e parei de projetar no outro minhas sombras e dificuldades. Isso facilita demais a vida. Hoje sinto que realmente estou andando para frente. Mudei o foco e o medo da morte e velhice diminuíram. Não estou aqui para ser eternamente jovem e bela.

Então a maturidade só tem ganhos?

Sim, só vejo ganhos. A experiência é a maior riqueza da vida - quando a gente aprende com ela, claro. Se ficar distraída com bobagens, ilusões do mundo material, é tempo jogado fora. Para aproveitar a incrível oportunidade de viver, repare como você lida com os desafios. Encara com coragem ou joga a responsabilidade para o outro? Sua companhia é boa a si mesma? Você é capaz de se entregar às dores para compreender as mensagens que elas trazem ou não tem firmeza e prefere buscar uma distração ou remédio? Tenha amor-próprio, pois essa é a base para todas as outras formas de amar.

E como você lida com a vaidade? 

Sou vaidosa, mas me identifico com uma beleza natural. Não fico lembrando a idade que tenho. Minha alimentação é saudável e estou sempre me movimentando. Meu corpo e saúde são tudo o que tenho. Escolho o caminho mais longe e vou a pé. Opto pela escada em vez do elevador... Tem a ver com disciplina e dedicação. Se não cuido do meu corpo, não cuido da minha morada. É o lugar que habito até quando durmo, 24 horas por dia. A novidade é que estou deixando o cabelo ficar grisalho. Queria que meu filho, Guilherme, a família e meus seguidores me vissem como realmente sou. Fiquei com ele grisalho por um ano e precisei pintar para a novela Gênesis. Terminada a trama, parei de pintar novamente...