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Um tapinha dói, sim!

Um tapa como punição pode reverberar por anos na memória afetiva e cognitiva de uma criança; entenda os danos e saiba como contorná-los

Caroline Cabral Publicado em 08/12/2017, às 16h00 - Atualizado em 07/08/2019, às 17h45

Um tapinha dói, sim! - Shutterstock
Um tapinha dói, sim! - Shutterstock

Educar é uma arte que, por vezes, tira adultos do sério. No ápice do estresse causado pela sobrecarga da rotina, não é raro o uso da força física para impor respeito e punir desobediências. De acordo com um estudo levantado pelo Instituto FrameWorks, em parceria com a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, a palmada gera três principais reações: a criança aprende a temer o agressor, a fugir do agressor ou a mentir para se esquivar dele. O estudo também aponta que o desenvolvimento infantil é afetado de maneira integral quando a criança é submetida à violência recorrente, atrasando ou interrompendo processos neurológicos, socioemocionais e cognitivos. O preço de um tapa pode ser altíssimo quando o futuro vier cobrar a conta.

A mensagem que o tapa entrega

Para Luciana Brites, psicopedagoga do instituto NeuroSaber, de Londrina (PR), a ligação entre o tapa e a desobediência nem sempre é clara aos olhos infantis. “Crianças de até 4 anos que são expostas a agressões podem não entender por que estão sendo punidas fisicamente”, explica. Já crianças que compreendem a ligação da represália com um ato delas que desagradou ao adulto podem aprender que bater é o caminho para reforçar algo de que não gostam, tomando isso como regra. “Ao ver um amigo fazendo algo de errado, ela se sente no direito de
repreendê-lo da mesma maneira, agredindo-o fisicamente”, alerta. Os efeitos negativos vão além do comportamento inadequado, podendo
refletir na autoestima durante o crescimento. “Elas se tornam inseguras, têm dificuldades em decidir e problemas de autonomia, tudo reflexo
da agressão na infância”, justifica. Bater é uma maneira de mostrar que o diálogo não é necessário: ou resolve-se no grito ou no muque
e isso é péssimo para a criança.
Para Clay Brites, pediatra e neurologista infantil da Neurosaber, de Londrina (PR), “bater em uma criança passa a mensagem de que o
caminho do aprendizado é cruel, mas ela precisa aprender que existe uma maneira suave e tranquila.” De acordo com Brites, o ato de educar deve equilibrar afeto, carinho, atenção, dedicação e disponibilidade por um lado; com limites, disciplina, rotina e amadurecimento do outro.
“O exemplo é sempre o melhor caminho para conquistar a confiança e o respeito da criança”, reforça, “se crescer a custo de palmadas, vai ensinar da mesma maneira.”

Danos emocionais

Luciana explica que a área do cérebro responsável pelas reações de autodefesa é a amígdala. “Pesquisas apontam que crianças expostas a maus-tratos e grandes índices de estresse acabam tendo a amígdala lesionada pelo aumento do cortisol, substância produzida naturalmente pelo corpo.” Essa alteração no funcionamento da amígdala faz com que a criança se torne mais agressiva e desenvolva, possivelmente,
transtornos de conduta durante a vida adulta. Ao crescer, essa agressividade sofrida na infância pode ser canalizada para o lado profissional. “Essas crianças podem se tornar pessoas agressivas no trabalho ou na relação com o parceiro amoroso, mesmo que sejam amáveis com os filhos”, pontua. Ou seja: o saldo é bem ruim...

“Apanhei e não morri”

A justificativa é mais comum do que parece. Por isso, Luciana indica um exercício de empatia com a criança antes de optar por uma abordagem mais agressiva. “Lembre-se da sua criança interior: do medo, da dor e do pavor que você sentia quando seus pais te batiam. Para
uma criança pequena e indefesa, essa pancada causa muito sofrimento.”

Uma saída possível

Manter o tom de voz firme e o olhar fixo na criança enquanto passa o recado transmite segurança e dá mais credibilidade ao adulto. Para Lígia Machado, pedagoga e diretora da Escola Lígia Machado, de Jundiaí (SP), “utilizar a restrição aos itens de que a criança gosta é uma boa
saída para educar, mostra que a atitude dela a fez perder o benefício que lhe foi concedido.”

Para criar diálogo:
Use frases curtas e efetivas.
Evite o ‘porque não’, sempre dê um motivo.
Permita que ela palpite nas decisões.

Controle-se, menino!

Rosemarie Truglio, vice-presidente sênior de conteúdo do Sesame Workshop, lista atividades que estimulam habilidades emocionais nos pequenos:
Prestar atenção no professor.
Levantar a mão para falar.
Esperar para poder abrir um presente.
Escutar os pais em silêncio.
Seguir as regras estabelecidas.
Revezar atividades.
Esperar em uma fila.
Conversar sem bater.
Colocar as meias e esperar que calcem os sapatos.
Se abraçar.