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''Aproveitei o espaço na mídia para denunciar o racismo'', revela Zezé Motta

Em entrevista exclusiva, a atriz relembra o início da carreira e cita trajetória

Karla Precioso Publicado em 13/03/2021, às 08h00

A atriz foi capa da edição 1265 da AnaMaria - Foto: Fernanda Garcia | Styling: Milton Castanheira | Beleza: Gabriel Ramos | Zezé veste: Enjoy
A atriz foi capa da edição 1265 da AnaMaria - Foto: Fernanda Garcia | Styling: Milton Castanheira | Beleza: Gabriel Ramos | Zezé veste: Enjoy

Há quem se lembre de ZezéMotta apenas como atriz, mas essa é somente uma das facetas da artista, que tem mais de 50 anos dedicados à cultura. Logo cedo, se interessou por teatro. Fez um curso no Tablado e encenou a primeira peça profissional aos 21 anos. Sua estreia não poderia ser mais marcante: em 1968, ela integrou o coro do musical Roda Viva e surgia ali uma trajetória de sucesso. Com o Teatro de Arena, encenou o clássico Arena Conta Zumbi e Godspell. Em Xica da Silva, ganhou notoriedade.

O filme não apenas a consolidou como uma estrela como também criou uma das personagens mais emblemáticas do cinema nacional. Participou ainda de Quilombo, Dias Melhores Virão, Tieta e Orfeu. Na televisão, fez minisséries, telefilmes e novelas. Beto Rockfeller, O Outro Lado do Paraíso, Juntos a Magia Acontece e Salve-se Quem Puder são alguns desses trabalhos. De festivais de cinema de grande a pequeno porte, Zezé sempre esteve lá, sendo reconhecida e premiada. Cantora, atriz, mãe, ativista.

O seu talento e carreira inspiram atuais e futuras gerações de mulheres que lutam por expressão, espaço e oportunidade. Ela vai bem além disso. No auge dos 76 anos, Zezé revela seu olhar otimista e esperançoso quando o assunto é envelhecimento: “Já tive todas as crises a que uma mulher tem direito, mas cansei. Estou de bem com a vida e agora sei que quem não envelhece morre cedo. Envelhecer é uma dádiva”. Confira a entrevista na íntegra!

Como a ideia de ser artista surgiu na vida da filha de uma costureira e um motorista?

Desde cedo, gostava de me exibir. Declamava e escrevia poemas. Minha casa era um hospício. Era mamãe na máquina de costura o dia inteiro, papai no violão praticando, e o rádio eternamente ligado. Descobri o fascínio pela música ouvindo Ângela Maria, Nora Ney, Cauby Peixoto, Marlene, Emilinha, Jorge Goulart, Ellen de Lima. Tive a felicidade de frequentar A Cruzada, uma instituição fundada por dom Hélder [Câmara], fundamental na minha formação. E foi por incentivo do filósofo Jader de Brito, um dos professores e amigo até hoje, que me interessei pela arte. Ele levava a gente aos Concertos da Juventude do Theatro Municipal, ao Museu de Raimundo Castro Maia, no Alto da Boa Vista, ao Largo do Boticário para assistir a Memórias de um Sargento de Milícias... Era o auge da ditadura, mas tínhamos esse paizão cultural. Comecei a fazer teatro participando do grêmio recreativo. Nos finais de semana, só queria ensaiar. Eram textos engajados, como Diário de Anne Frank e trechos do Liberdade, Liberdade. Percebendo meu profundo interesse por teatro, Jader conseguiu para mim uma bolsa no Tablado, e tive o privilégio de ser aluna da Maria Clara Machado. Foi aí que tudo começou...

Como foi interpretar Xica da Silva, em 1976, no filme homônimo dirigido por Cacá Diegues?

O filme foi um divisor de águas em minha vida. Eu já havia feito muitos trabalhos, mas nada com tanta visibilidade. Antes, eu conhecia apenas três países, e só em sua divulgação conheci mais 16. Nas ruas, todos me reconheciam e me chamavam de Xica. Mas, voltando à pergunta, quando soube que ia rolar o filme, liguei para a produção e me ofereci para fazer um teste.

O Cacá Diegues ficou sabendo de mim por meio de amigos em comum. Nelson Motta, Marieta Severo, Chico Buarque chegavam para ele e diziam ‘Chama a Zezé’. Consegui fazer o teste e, um tempo depois, recebi uma ligação, dizendo que havia sido aprovada. Quase desmaiei. Saí ligando para todos os amigos, recebia telefonemas de jornalistas o tempo todo. Não tinha ideia da mudança que Xica da Silva acarretaria em minha vida. Ganhei todos os prêmios: Air France, Festival de Brasília, festivais internacionais. Viajei muito e até vários shows renderam graças a esse papel. Quando o filme estourou, eu estava fazendo uma comédia com a Eva Todor: Rendez-Vous. Era um papel minúsculo. De empregada, claro. Entrava muda, saía calada. Antes do filme, as pessoas iam ao teatro para ver a Eva. Depois, passaram a ir para me ver também

É verdade que você sempre usou a dramaturgia como ferramenta de resistência? 

A minha profissão me ajudou muito, sim, no sentido de elevar a minha autoestima num país tão miscigenado, porém racista. O sucesso foi uma ferramenta que tive e aproveitei o espaço que conquistei na mídia para denunciar, cobrar e lutar contra essa doença, essa chaga chamada racismo. E foi aí que aprendi a maior lição de todas: não há mais tempo para lamúrias. Precisamos arregaçar as mangas e virar o jogo. É isso que eu faço há, no mínimo, 50 anos, e é o que farei até os meus últimos dias, ou seja, lutar por um país menos desigual e sem violência.

Como lidou com a negritude na infância?

Com 12 anos, fui morar num prédio de classe média baixa e a maioria dos moradores era branca. As crianças falavam ‘Seu cabelo é duro, ruim...’. Isso me incomodava muito. Queria ser aceita. Entrei numa paranoia de que era feia. Na infância e adolescência, passei por um processo muito sério de total negação das minhas origens, de embranquecimento. Foi bem difícil.

Você conseguiu vencer inúmeras barreiras impostas pelo racismo...

Apesar de ter percebido cedo que alguma coisa estava errada, fui empurrando com a barriga. Me interessei pelo movimento negro, mas não me entreguei por inteiro de cara, porque precisava me dedicar à construção da minha carreira. Com o sucesso de Xica da Silva, comecei a ser solicitada para muitas entrevistas. Me perguntavam como era ter protagonizado um filme sendo uma mulher negra... Eu ficava frustrada em toda entrevista que dava, pois tinha o sentimento da mulher negra, mas não tinha o discurso articulado.

Um dia, lendo jornal, descobri um curso de cultura negra com a antropóloga, socióloga, romancista e ativista Lélia Gonzalez, e lá aprendi que tínhamos que lutar e mudar a situação de preconceito, e não se lamentar. Criei, então, o Centro de Informação e Documentação do Artista Negro [Cidan], para dizer quem somos, quantos somos e onde estamos. O banco tem mais de 500 atores negros. Já conseguimos, por exemplo, ter um curso de teatro nas comunidades carentes, patrocinado pela dona Ruth Cardoso [1930-2008]. Na época, uma amiga promovia um curso de cabeleireira para comunidades carentes e fui madrinha da primeira turma. Percebi a transformação que iniciativas como essa geram no modo de vestir e de falar. E assim a luta segue até hoje.

Você revela também que demorou para assumir o cabelo crespo. Como foi isso? 

A minha mãe já alisava o cabelo, então, aprendi com ela. Assim que pude, comprei uma peruca chanel. Quando viajei para os Estados Unidos com o Teatro de Arena fui muito criticada por estar num grupo de vanguarda, representando a vida de Zumbi dos Palmares, usando uma peruca Chanel. Fiquei tão
constrangida... Já acompanhava a movimentação do Black is beautiful, a vida de Angela Davis. Comentei o caso com a cantora e compositora Carmen Costa e, no dia seguinte, ela me levou de presente uma peruca black. Foi um dos melhores presentes que recebi na vida. Depois, deixei o cabelo natural, nunca mais tentei me embranquecer. A verdade é que eu realmente passei por um processo de total negação das minhas origens. Hoje em dia, existe mais diversidade nos padrões e conceitos. E faz muitos anos que ninguém me chama de feia!

Como você encara o envelhecimento?

Sempre fui uma mulher fogosa, mas, com a idade, a gente dá uma acalmada. Faço reposição hormonal, que é o que mantém a chama acesa. Teve uma época que foi complicado, porque os remédios começaram a mexer com o meu corpo. Interrompi e deu aquela brochadinha básica. Agora, faço tratamento com hormônio natural à base de inhame mexicano e amora. Mas também é preciso trabalhar a cabeça, porque existe uma diferença entre 30 e 76 anos, né? Você tem que se adaptar a essa nova realidade, senão fica competindo de maneira desigual. Mas não sofro com isso. Tenho absoluta consciência de que sou uma sedutora. E cheia de disposição e vitalidade. Estou de bem com a vida. Confesso que tive todas as crises a que uma mulher tem direito, dos 30 aos 60, mas agora sei que quem não envelhece morre cedo. Então, envelhecer é uma dádiva. 

Você já declarou que a chegada da menopausa foi um momento de tensão. Por quê?

Eu tinha muito medo da menopausa, uma das coisas que falavam é que você seria menos mulher depois da menopausa, não teria mais prazer, aqueles boatos... Tive uns probleminhas, sim, como insônia, muito calor, teve uma época em que eu ficava muito irritada... Tudo passou e ficou bem.

Tem medo da solidão?

Sim, talvez porque a minha vida inteira eu sempre fui rodeada por muitas pessoas. Criei quatro filhos e três sobrinhas. A casa vivia movimentada. Hoje, estão todos casados... Mas, graças a Deus, tenho também muitos amigos e fãs. São mais de 1 milhão de seguidores nas redes sociais. Quando falo que tenho medo da solidão é no departamento macho e fêmea. Eu casei cinco vezes e, neste momento, estou só. Não pretendo me casar mais, mas não quero envelhecer sozinha, não. Ainda tenho a expectativa de ter um encontro afetivo e efetivo. 


Créditodasfotos: Fernanda Garcia | Styling: Milton Castanheira | Beleza: Gabriel Ramos | Zezéveste: Enjoy