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Cinnara Leal revela semelhanças entre ela Justina de ‘Nos Tempos do Imperador’

Atriz Cinnara Leal comentou sua relação com sua ex-personagem da Globo

Karla Precioso Publicado em 17/05/2022, às 16h00

Cinnara Leal contou um pouco sobre sua vivência nos bastidores de 'Nos Tempos do Imperador' - Instagram/@cinaraleal
Cinnara Leal contou um pouco sobre sua vivência nos bastidores de 'Nos Tempos do Imperador' - Instagram/@cinaraleal

Cinnara Leal foi destaque em ‘Nos Tempos do Imperador’, da Globo, como Justina: “Tem uma música do Belchior que levo para a vida, que diz ‘Amar e mudar as coisas me interessam mais’. É isso. Minha personagem é uma mulher de histórias, polêmica e que se transforma a partir do amor. Ela traduz o que eu tanto acredito, ou seja, que ser é um estado, por isso estamos sempre em modificação”. 

Em março de 2020, a gravação da novela foi interrompida por causa da pandemia, e a incerteza sobre o dia seguinte era grande. “Foi preciso usar a filosofia ubuntu [Eu sou porque nós somos], afinal o viver é coletivo. Todos precisamos nos vacinar. Ninguém vai superar tudo isso sozinho e nem comemorar sozinho quando chegar a hora da vitória”, fala.

O mergulho profundo na ex-personagem serviu como válvula de escape para a artista, que descreve a relação marcante de Justina e a Condessa de Barral (Mariana Ximenes) como irmandade. Não à toa. Unidas, ambas aparecem em cenas marcantes e se mostram destemidas, como a sequência do Movimento Abolicionista e o leilão de escravos. 

Com toda sua força, de artista e mulher da vida real, Cinnara sente-se lisonjeada em contar a história africana. “Justina não abre mão de sua trajetória e das marcas da escravidão que carrega em seu corpo. Ela não se diminui nem se intimida, e sempre pensa no coletivo, como eu.” Ta aí uma mulher feminista, antirracista... e cheia de amor. Uma potência em permanente transformação.

Confira a íntegra da entrevista:

Como você diz: “Ser é um estado, estamos sempre em modificação”. Quem é a Cinnara de hoje se comparada com a Cinnara de ontem? 

Gosto sempre de citar uma música do Belchior que levo para a vida, que diz: “Amar e mudar as coisas me interessam mais!”. Eu era uma Cinnara que hoje tem outro olhar a partir de tudo o que eu vivi. Os estudos, a religião, a arte me fizeram uma mulher diferente, me transformaram, porém sem que eu perdesse minha essência. Gosto de ajudar, levantar, estender a mão, viver coletivamente e, principalmente, aprender com o outro, com a vida. Li o livro da Michelle Obama que fala do orgulho e valor que precisamos ter de nossa jornada. Sinto muito orgulho do que construí à base de muita luta, persistência, amor e, claro, apoio da minha família.

A personagem Justina tem uma irmandade grande com a Condessa de Barral, apoiando-a em suas ideias e atitudes, sem julgamentos (falando especificamente sobre o caso que a Condessa tem com d. Pedro). Cinnara e Justina se assemelham em pensamentos?

Estamos falando de uma relação datada, isso implica em comportamentos diferentes, em que estar casado era mais uma instituição, e não o amor propriamente dito. Na novela, nossas personagens se apoiam, sim, mas também se questionam - é uma relação linda de respeito, que não está embutida de julgamento, mas de acolhimento. Nisso sou igual a Justina, porque só nós sentimos. Quem vive, sabe o melhor a fazer. 

Em outra declaração, você disse: “Justina não abre mão de sua trajetória e das marcas da escravidão que carrega em seu corpo, não se diminui. Ela pensa no coletivo, assim como eu”. Que outras características da própria Cinnara a personagem também traz em cena? 

Eu e a personagem temos a persistência em comum. Ela me ensina o tempo todo e tem ensinado o Brasil. Sou só um veículo para dar voz à minha ancestralidade, que foi silenciada e apagada. As sequelas nós vivemos até hoje por causa dessa desumanização que é a escravidão. Ou seja, temos tudo em comum. Não só eu, mas todo o Brasil, porque essa é a história do nosso país. O que tentei deixar vivo e latente na Justina é o reconhecimento, para que todos que olhassem para ela tivessem a sensação e a certeza de que já conheceram ou conhecem uma Justina. Ela é uma personagem que resiste para existir, é atemporal. Ela vive em nós. Aliás, na trama, uso um colar meu com o símbolo do Sankofa [Sanko = voltar; fa = buscar, trazer], um resgate do passado para ressignificar o presente e transformar o futuro. Temos muitas características semelhantes. 

Justina chegou a ficar receosa em viver o romance com Guebo (Maicon Rodrigues) por conta de ele ser mais jovem que ela. Amor tem idade? Já viveu algo assim? 

Ainda não vivi. Mas acredito que tornar isso um empecilho é dar limite ao amor. É não viver a melhor parte da vida, que é amar e ser amado. Então, a Cinnara, sem dúvida, não teria o menor problema com isso. 

A novela retratou a formação do Brasil Colonial. Fale da importância de abordar o tema na sociedade. 

São temas urgentes que precisam ser abordados enquanto estivermos vivos. Quando possível, abordar com mais profundidade. A novela tem a função de entreter, mas, principalmente, informar, alertar, conscientizar e transformar. Por isso, a extrema importância da arte de nos questionar como sociedade, mostrar o quanto resistimos para chegarmos até aqui e o quanto reproduzimos modelos antigos de desvalorização e exclusão do negro. É sobre conscientizar para transformar. Contamos histórias. Ela pode derrubar, mas pode reerguer também. 

Qual é o principal desafio de um trabalho baseado em fatos reais? 

Eu pedi para fazer o teste para a novela. Era minha missão porque foi tudo, absolutamente tudo, muito difícil conquistar diariamente mais e mais espaço para dar voz à minha ancestralidade. Precisamos nos aprofundar em nossa história, na construção deste país, que vive com resquícios da colonização até hoje, e não contar essa história é reforçar o apagamento do povo preto que construiu essa nação. A novela faz parte da cultura do brasileiro, tem o dever de estar a serviço do público, da história, e esse período trouxe muita dor. Mas foi por meio dessas dores que chegamos até aqui. E somos atravessados até hoje pelo que foi vivido na época. Vivemos as mazelas dessa desumanização até hoje. Por isso, repito, é muito importante a arte, a cultura, a teledramaturgia. Estão além do entretenimento, precisam ter uma função social também. A arte e a cultura precisam atingir todos os lugares, pessoas, gêneros, raças.

E o que descobriu com essa trama que você não imaginava? 

O quanto as pessoas querem ouvir o nosso ponto de vista da história. Não nascemos pertencentes à nossa história. Estamos conhecendo a nossa história. Nascemos em um país colonizado e vivemos os resquícios disso ao fazerem a gente odiar nossa cor, nosso cabelo, nossas características físicas, nossa cultura, apagar nossa verdadeira história. A descoberta é diária. Não nascemos negros, nos tornamos, então, afirmarmos o que somos e a partir do que somos. É preciso dar chão, identidade, valor, dignidade, potência... Dar alma! 

Cinnara é coletiva, feminista, além de linda e talentosa. Como você se vê e se posiciona na vida?

Muito obrigada! Como a música do Belchior, “amar e mudar as coisas me interessam mais”. Vou sempre reproduzir essa frase. 

O que ainda falta a você profissionalmente?

Muita coisa. O protagonismo, que é o lugar onde as personagens têm importância e profundidade, em um roteiro que dá visibilidade, voz e representatividade. Quero abrir minha produtora, tirar todos os meus projetos socioculturais do papel. 

Um sonho... Ter minha produtora artística para que todos os projetos sejam realizados juntos com oficinas de formação artística e, assim, fomentar outros sonhos, principalmente das crianças. Eu tive uma família maravilhosa que acreditou no meu sonho, mas não posso tirar as pessoas por mim. Elas precisam acreditar que é possível. Mesmo quando o mundo disser não, eu estarei lá para dizer sim. 

Um medo... Perder alguém da minha família. 

Uma certeza... Sonhar para realizar

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