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Conheça Dadá Coelho, uma revelação do humor

Dadá Coelho está em um stand-up comandado apenas por mulheres

Karla Precioso Publicado em 15/01/2022, às 08h00

Dadá Coelho - Instagram/@dadacoelho
Dadá Coelho - Instagram/@dadacoelho

Dadá Coelho, 41 anos, é uma das maiores revelações do humor. Ela situa suas tiradas rápidas no limite
entre o erótico e o pornô; a polêmica e a safadeza. A humorista começou fazendo stand up comedy. Atuou no espetáculo 'Vende-se Usado'. 'Proibido para Menores de 18 cm', em que era uma vendedora de vibradores de segunda mão, fez os shows 'Ali Dadá e as 40 Confissões' e 'A Culpa é da Carlota '– este sendo o primeiro show de humor comandado só por mulheres.

Ainda participou da bancada de 'Amor & Sexo', do quadro 'A Gente Ganha Pouco Mas Se Diverte', do 'Fantástico', fez boletins no 'BBB' 16, e atuou como atriz em 'Flor do Caribe,' tudo na Globo. Com projetos na TV, cinema e um livro em processo de finalização, chegar até aqui pode ter sido puxado, mas Dadá jamais entregou os pontos e muito menos tirou o sorriso do rosto.

Desde a infância humilde no Piauí, nada é motivo para ela perder a alegria. “Com o país afogado nesta crise sanitária e moral, tem dia que a gente precisa tirar uma força sei lá de onde. Mas o humor salva. Ele é realmente terapêutico”, fala. E ela completa: “Não sou do ‘hahaha’ o tempo inteiro, mastenho preguiça de quem se leva a sério. Procure rir de si mesmo, senão alguém vai fazer isso por você”. A entrevista que você vai ler a seguir é mesmo pura diversão... e reflexão também!

O riso fácil sempre foi sua marca, né?

Uma pessoa que nasce num grotão, numa família com 13 filhos, emFloriano (PI), com os nomes das irmãs EmmemeireJanes, Leina Mara, Lisley, Lorena Moema, Raimundo Claudio, (eu mesma Darcimeire), disputando a moela, a asa da galinha, já tem aí um caldeirão de ingredientes para extrair humor, né? A criança já nasce chorando e só depois aprende a rir. É preciso inteligência para rir. E inteligência é você organizar seu caos. Gosto muito de rir de mimmesma. Gosto de me antecipar [risos]. Não curto quem se leva muito a sério, afinal a gente não vai sair vivo dessa vida. Mas nem sempre é assim. Extraio beleza da tristeza também. Porém só consigo ficar triste por três dias. Depois disso é que nem peixe fora da geladeira: começa a feder. Acho que a vida, apesar dos percalços, é potente e alegre. Amo viver, nasci pra isso.

Apesar das dificuldades, desde a infância no Piauí, Dadá jamais esmoreceu: “Sorrir é terapêutico”.

Suas tiradas ficam, em geral, entre o erótico e o pornô, a polêmica e a safadeza. Como é isso?

Meu humor é sexualmente transmissível. A minha família é um teatro a céu aberto. E o sexo e humor
sempre foram muito presentes. E são tão importantes quanto o afeto. Eu tenho pra mim que o sexo rege tudo. Gilberto Freyre diz: “A maior delícia do brasileiro é conversar safadeza”. Aíjuntei a fome com a vontade de viver, ou seja, humor + erotismo. Humor, amor... uma linha tênue.

Então, sexo e alegria sempre caminham juntos?
Sim, a alegria é sexy. Um não vive sem o outro mesmo. É uma relação siamesa. O meu mantra na vida é: quem faz rir, faz gozar!

De onde vem essa veia cômica?

Da minha família. Sempre rimos dos nomes, das contas... Quando menina, gripe não podia ter que a mãe logo se zangava e dizia: “Essa menina nem morre nem deixa os ‘zôto’ dormir”. Foi uma infância de fazer inveja aos personagens de Monteiro Lobato. O rádio era mágico. Levava recado lá: “Mãe, pai manda avisar que chega às 3h. Pede pra levar um jumento, pois vai cheio de mercadoria”. E por
aí afora. Foi assim que todo meu repertório de história e de humor floresceu.

Como é fazer piada em plena pandemia?

Um desafio! A vida virou um milagre. A morte está à espreita. No entanto, é uma bênção ser convocada pra levar alegria numa hora dessas. Sou só gratidão por todos os poros. Porque, embora estejamos vivendo um momento trágico, quando todos os projetos culturais foram interrompidos por causa da maior crise sanitária, política, social e ambiental do país, ando na contramão e comemoro 15 anos de profissão, participando de vários projetos na TV, cinema e literatura.

Estamos estreando a terceira temporada do primeiro programa de humor só com mulheres, 'A Culpa é
da Carlota', por exemplo. Três filmes têm a minha participação: 'Vovó Ninja', 'O Papai É Pop e Correndo Atrás'. Estou no ar com a série 'Gaslerac', na 'HBOMAX,' e estou escrevendo o livro 'PelamordeDadá!– Memórias de uma Amnésia'. Ufa! O trabalho também é terapêutico.

E quando você não está bem, consegue rir?

Tem dia que só no outro dia [risos]... e acaba que o próprio trabalho te salva. É uma força espiritual. Nem todo dia o comediante está no 220 volts. Mas a gente arruma força pralevar alegria. É um alento fazer as pessoas gargalharem. Alegria é algo momentâneo, enquanto felicidade é algo contínuo, uma atividade. A gente precisa ter força e coragem, disciplina até pra ter alegria.

Qual o poder do riso?

Distorcendo Nietzsche, o que não me mata, morre, nem que seja pelo riso. A vida é uma alegria difícil. Aliás, ela é como o sutiã: a gente tem que meter os peitos. Autopiedade, autocomiseração não vão resolver nada.

Existe o lado positivo dos problemas?

Tento ter uma postura confiante. O ‘não’ já temos, né? Sinto uma necessidade física de acreditar na
reviravolta do destino, porque sempre alguma coisa que parecia péssima em determinado momento acaba virando uma bênção enorme depois. A positividade é uma ferramenta de realização. Treino meu olhar pra recair mais sobre as soluções do que os problemas, que não são poucos.

Você já declarou: “Ser mulher, nordestina e comediante é se provar o tempo todo”. Por quê

Desde pequenininha no Piauí, sempre foi peleja, labuta. Minha coragem foi a de uma sonâmbula que simplesmente vai. Mas eu não discuto com o destino, o que vier eu assino. Pra quem driblou todas as estatísticas de mortalidade infantil e depois as loucuras boêmias e os ataques dos terroristas emocionais da afetividade, já me sinto vencedora, uma sobrevivente! Eu sempre fui considerada louca e já sofri muito preconceito: mulher, nordestina e comediante. Mas as coisas estão mudando e eu acredito nos bons ventos. O lugar da mulher é onde ela quiser. Pode até ser em casa... Na Casa Branca, a exemplo da vice-presidente dos EUA, Kamala Harris [risos].

Outra fala sua: “Dizem que a gente toma 20 facadas no bucho e, quando o médico pergunta se
dói, a gente diz: ‘Não, só quando eu dou risada’”. O brasileiro é mesmo resiliente?

Meu lugar de fala é o sertão. Para Euclides da Cunha, forte é o que fica. Para Mario de Andrade, forte é o que migra. Até hoje não sei o que é mais difícil. Eu parti porque não consegui ficar inteira lá, mas tenho amigos que ficaram e acho lindo. O nordestino sempre foi muito testado pelas dificuldades, tanto as sociais quanto as naturais, e pelas adversidades do dia a dia. Euclides da Cunha também dizia: “O sertanejo é antes de tudo um forte”. Tenho um orgulho danado do meu lugar, da minha gente. Minha
mãe falava: “Minha filha, só sabe aonde vai quem não esquece de onde veio [emocionada]”.

O que ajudou você a seguir adiante mesmo com tanta situação dizendo para parar?

Minha filha, Maria Antonia Maximo, de 21 anos, produção independente. Costumo dizer que não existe mãe solteira porque mãe não é estado civil. Ela é uma mulher incrível. Está fazendo faculdade de Direito, arrumou o primeiro emprego. É muito mais feminista do que eu. Temos uma sororidade gigante. Que sorte a minha. Mas é impressionante no Brasil... A mesma sociedade que condena
mulheres que escolhem não ter filhos ou ter filhos independentes, tolera homens que, mesmo tendo filhos, escolhem não ser pais. Então, todas as vezes que pensei em desistir, busquei força no olhar da minha filha, que alimenta o meu.

Para as mulheres, a comédia ainda é um espaço limitado?

O mundo ainda é muito machista em todas as profissões, sobretudo na comédia. 'A Culpa é da Carlota'
recebe tantos comentários de ódio de quem nunca assistiu ao programa, especialmente pelo fato de sermos um grupo de mulheres. Outro dia ouvi que “ser mulher tá na moda”. A piada é feminina, a comédia é feminina. Existe machismo no mundo da comédia, e no Brasil isso é latente. A macholândia
não suporta ver a mulherada sendo protagonista das suas próprias narrativas. Sempre fomos “escada” pra eles. Mas estamos fazendo de todo ódio nossa passarela do samba e estamos sambando na cara do preconceito.


Uma lição que o bom humor traz...
Tem um recorte da Susan Sontag que diz muito e me representa: “Faça coisas.Seja curiosa e persistente. Não espere um empurrão da inspiração. É tudo sobre prestar atenção. É tudo sobre captar o máximo do que vocêpuder, do que está por aí”.

Ao lado do companheiro, Paulo Betti, a artista garante que trabalhar tem sido sua salvação para enfrentar o momento difícil que o país atravessa.