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Juliana Caldas sobre papéis pejorativos do nanismo: ‘‘Se for só isso, mudo de profissão’’

Juliana Caldas afirma já ter recusado diversos trabalhos que debochavam de suas características físicas

Milena Garcia, repórter da AnaMaria Digital Publicado em 21/12/2021, às 08h00

Em entrevista, atriz falou sobre preconceito, representatividade e mercado de trabalho - Sergio Santoian
Em entrevista, atriz falou sobre preconceito, representatividade e mercado de trabalho - Sergio Santoian

Juliana Caldas ganhou destaque na TV Globo ao dar vida à Estela em ‘O Outro Lado do Paraíso' (2017). No último mês, a atriz chamou atenção novamente após publicar um vídeo em suas redes sociais sobre o filme ‘Amor sem Medida’. Isso porque ela criticou a abordagem capacitista da nova empreitada de Leandro Hassum para a Netflix. 

Com certeza, não foi fácil se tornar a primeira atriz brasileira com nanismo a ocupar um papel de destaque na televisão - como relata Juliana em entrevista exclusiva à AnaMaria Digital. Houveram muitos desafios, portas fechadas e atos de preconceito escancarados. 

Um dos exemplos citados pela atriz costumam acontecer durante os testes de elenco. “Cada teste tem a característica do ator que eles pedem. Por exemplo, mulher branca, cabelos castanhos, de 30 a 40 anos, que reside em São Paulo. Então, eu vou lá”, conta. 

Acontece que, mesmo se enquadrando em todas as exigências, a artista já perdeu diversas oportunidades de trabalho devido à estatura. “Eu já fiz isso muitas vezes na minha vida para, no mínimo, alguém tentar enxergar o talento. Você estuda pra quê? Você tira horas e horas lendo, estudando, fazendo curso, paga para tirar o DRT… Para nem tentar fazer um teste?”, desabafa. 

Atualmente, a atriz aposta em suas experiências e visibilidade para trazer ensinamentos sobre a luta por inclusão de PCDs dentro e fora da indústria do entretenimento, especialmente quando o assunto é o nanismo - como aconteceu no vídeo que viralizou recentemente. 

PRECONCEITO
Uma das principais questões levantadas por Juliana Caldas é que a luta contra o capacitismo (ou seja, o preconceito contra pessoas com deficiência) está muitos passos atrás dos outros movimentos sociais. 

“Capacitismo começa a ser falado só agora (...) Eu vejo que a luta contra o racismo, a homofobia e a gordofobia, por exemplo, estão muito mais à frente. E que bom, tem que estar mesmo! Se eu eu peço respeito para mim, eu também vou dar o respeito.” 

Outra situação de preconceito mencionada por Juliana foi na época do programa ‘Pânico na TV’. Ela afirmou ser constantemente atacada na rua ou até mesmo no trabalho com os famosos ‘Pedala, Robinho’. Certa vez, chegou até a se prejudicar profissionalmente ao revidar um dos tapas em uma atitude que classifica como ‘ação e reação’. 

A atriz considera que houve um avanço significativo graças à internet e aos serviços de streaming, porém há muito a ser discutido ainda. “Por qual motivo ninguém tem o mínimo de empatia para tentar aprender o nanismo? Esse é o tipo de coisa que já deu (...) As pessoas, em vez de parar para pensar, questionam, julgam e dão risada”, completa. 

AMOR SEM MEDIDA
Essa associação entre preconceito e humor veio à tona no vídeo de Caldas sobre o filme ‘Amor sem Medida’. O tema central da obra é a grande diferença de altura entre Ivana (Juliana Paes) e Ricardo Leão (Leandro Hassum). 

Chorando, Juliana revelou que não conseguiu assistir o longa-metragem até o final devido às “piadas capacitistas e preconceituosas”. Na entrevista, ela reforçou que esse tipo de abordagem ‘humorística’ é inaceitável para os dias atuais: “Imagina se alguém ia arriscar fazer aquelas piadas se fosse com um negro? Ninguém faria porque sabe que é prisão. Agora, com o nanismo, pode.” 

Outro ponto levantado pela atriz é em relação à representatividade. Isso porque, em vez de escalar um ator com nanismo para o papel principal, o próprio Leandro Hassum foi editado graficamente para parecer mais baixo - reduzindo ainda mais as oportunidades para PCDs no entretenimento. 

Quanto à repercussão do vídeo, Juliana revela que já esperava receber críticas e opiniões discordantes. Por outro lado, acredita que “as pessoas que têm empatia entenderam o que eu queria dizer. Para mim, já é um grande passo.” 

A artista afirma não ter recebido um pedido de desculpas de nenhum dos membros do elenco ou da produção, apenas uma nota de retratação. O que ela espera mesmo é que sua visibilidade tenha “plantado a sementinha” para que não se façam mais produções como essa. 

“Se alguém parou para pensar: ‘é, gente, não dá mais pra fazer uma coisa dessas. Vamos tomar um pouco de cuidado’, eu estou muito feliz. De fazer com que as pessoas pelo menos entendam. Podem não aceitar, mas respeitem o meu ponto de vista, porque não foi algo para querer aparecer, não foi nada disso”, ressalta. 

Em seguida, garantiu que não quer que o público deixe de assistir ‘Amor sem Medida’ por esses motivos: “Que vejam, mas entendam que aquilo não é legal (...) A empatia é isso, é você olhar com o olhar do outro e entender o que acontece. Quando machuca, não é legal. Ainda mais se a gente põe o rótulo como humor, que seria para todo mundo rir”. 

REPRESENTATIVIDADE
A discussão sobre o filme, como mencionado anteriormente, também é uma oportunidade para pensar em mais representatividade PCD em todos os aspectos do mercado de trabalho. Para Juliana, muitas vezes os papéis dedicados a pessoas com nanismo são centrados apenas na deficiência ou na comédia. 

“Eu já recusei muitos trabalhos por isso. Às vezes, por ser totalmente pejorativo ou me faltasse ao respeito. Não é isso que quero levar e não é isso que vou fazer. Se for o caso, se só tiver isso para fazer, eu mudo de profissão”, declara, deixando claro que não julga quem aceita tais vagas por necessidade de trabalhar.  

O que a atriz almeja é que pessoas como ela possam ocupar espaços que não se limitem às suas condições físicas: “Vejo que o Brasil está muito atrás em pensar primeiro na capacidade do que em sua atuação, seu trabalho e seu talento.” 

Algumas das indicações da artista que fortalecem a luta contra o capacitismo são as séries ‘NCIS Los Angeles’ e ‘Macgyver’, que contam com atrizes com nanismo mostrando toda a força que possuem. Além disso, Caldas se declarou uma fã do trabalho de Peter Dinklage, conhecido pelo papel em ‘Game of Thrones’. 

PLANOS FUTUROS
Questionada sobre seus planos futuros, Juliana Caldas adianta que está como uma peça de teatro prontinha para sair do forno. O mini espetáculo ‘VIK’ teve que ser adiado devido à pandemia e está previsto para entrar em cartaz em São Paulo (SP) entre os meses de junho e julho de 2022. 

Além disso, a atriz também planeja lançar um projeto de palestras sobre o respeito às diferenças - especialmente em relação ao nanismo e outras deficiências. “Às vezes eu nem falo para dar certo”, brinca. 

Por fim, Juliana também não desiste de fazer uso do seu espaço para incentivar outras pessoas a chegarem ao topo. “É continuar como a gente está: lutando por espaço, por respeito e tentando levar informações a essas pessoas que contratam”, conclui.