AnaMaria
LGBT / Entrevista exclusiva

Nany People chega à teledramaturgia: ‘O respeito vem à frente de tudo’

Após 25 anos no elenco da linha de shows de várias emissoras de TV, ela estrela o horário nobre da TV Globo

Fabrício Pellegrino Publicado em 27/04/2019, às 14h00 - Atualizado em 07/08/2019, às 17h47

Nany People está em 'O Sétimo Guardião' - Reprodução/Instagram/Nany People
Nany People está em 'O Sétimo Guardião' - Reprodução/Instagram/Nany People

Em entrevista exclusiva à AnaMaria, ela festeja o sucesso de Marcos Paulo no folhetim das 9 da Globo, O Sétimo Guardião, fala da importância para a comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Travestis, Transexuais e Trangêneros) em ter uma atriz trans na televisão e como a mãe a preparou para a vida.

“Ela me ensinou que as pessoas fazem com a gente aquilo que deixamos e pelo tempo que permitimos”, diz.

Como foi o teste para o papel do Marcos Paulo?
Na verdade, fui chamada para fazer um registro de atriz no cadastro do departamento de seleção da Globo. Quando me sugeriram para o personagem, a produção quis me conhecer e tive uma reunião com o Papinha [diretor da novela]. Depois, participei de várias leituras. Desde o primeiro momento, fui muito bem aceita, querida e bem recebida por todos. A Lilia Cabral e o Tony Ramos me receberam de braços abertos.

Quanto tempo após o teste soube que o personagem era seu?
Fui chamada 15 dias depois de ter feito o cadastro. Eu já sabia que o personagem era esse, polêmico e esperado. A minha sensação foi de total alegria, mas não podia falar nada a ninguém, pois ainda era junho, estava rolando Copa do Mundo e a novela só estrearia em novembro.

Quais características de Marcos Paulo mais desafiam você?
Primeiro o visual, que é extravagante, ela usa muito animal print... A Marcos Paulo vem para causar mesmo, é transgressora. Embora eu tenha a imagem pública de anarquista, divertida, sou tranquila, calma, clássica até. Já ela extrapola e vai às últimas consequências. É uma provocadora. Talvez, por maturidade, eu já não tenha mais tanto isso.

Como você entende o vínculo de amor e ódio entre Marcos Paulo e Valentina [Lilia Cabral]?
Elas têm uma relação de outros carnavais. Então, possuem grande liberdade uma com a outra e sabem os segredos e qualidades uma da outra. Elas não se criticam para se condenarem, mas para se alfinetarem. As duas se respeitam, se adoram e têm uma mágoa do passado que obrigou o Marcos Paulo a ir embora para Paris. Isso ainda será desvendado. Elas têm uma intimidade como poucas pessoas, que falam sempre a verdade uma para outra, doa a quem doer.

O que o público pode esperar da relação entre Robério [Heitor Martinez] e Marcos Paulo?
Rola uma grande amizade. É evidente: a Marcos Paulo está interessada no Robério e faz de tudo para seduzi-lo, tanto que o contratou como assessor. Robério será lapidado, Marcos Paulo dará uma organizada nele. Torço para que tenham uma união estável muito feliz. 

É a sua primeira vez em novela. O que a surpreendeu do formato?
A estrutura com o que tudo é criado. Às vezes, estou em uma cena com 40, 60 pessoas trabalhando para aquilo acontecer. Tudo é bem pensado: cenário, gestos, ações, criações, direção, execução, técnica... A estrutura da Globo, realmente, é impecável. Tudo isso me assustou. O que mais me desafia é organizar na minha cabeça a sequência de cenas, pois não gravamos em ordem cronológica. Então, a cabeça precisa estar ligada na história para você saber de onde vem e para onde vai.

A entrada de seu personagem foi muito aguardada. As pessoas estavam ansiosas para vê-la na Globo. Imaginava que torciam tanto por você? 
Um amigo disse que nunca viu em uma novela um personagem ser tão bem anunciado, aguardado e apresentado como a Marcos Paulo. Fiquei e estou feliz com a reação das pessoas que sabem da minha história no teatro e na TV. Sempre fui da linha de shows da televisão e essa é a minha primeira vez na teledramaturgia. Estou agradecida e lisonjeada com o carinho das pessoas.

Por que demorou tanto para fazer dramaturgia na TV?
Tenho 25 anos de carreira de TV na linha de shows. Poucas pessoas sabiam da minha formação teatral, achavam que eu trabalhava na noite, peguei uma deixa por ter uma linguagem pop e fui para o showbusiness. Veio na hora certa, no núcleo certo e na novela certa.

O seu site diz que Nany People é a mulher que se autofez. O que isso quer dizer?
A Simone de Beauvoir (escritora feminista francesa) dizia: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”. Baseado nisso e considerando que a minha transsexualidade foi bem trabalhada, apresentada e negociada - resolvi assumir a posição mulher definitiva depois 37 anos -, construí passo a passo toda a minha identidade, caminho e personalidade, ou seja, segundo um amigo, me autofiz.

A sua família sempre aceitou a sua sexualidade. Quando percebeu que não seria discriminada dentro de casa e qual importância disso para a formação da sua personalidade?
Devo à minha mãe 1.000% da minha formação de vida, pessoa e conduta. Ela fez com que a família me recebesse de braços abertos e sem críticas, salvo raras exceções. Ela fez com que a cidade em que vivíamos [Poços de Calda, MG] entendesse ou, ao menos, respeitasse a minha condição. Ela me ensinou que as pessoas fazem com a gente aquilo que deixamos e pelo tempo que permitimos. Ela me preparou muito para a vida. A minha mãe foi uma mulher à frente do tempo dela. 

O que a fez se tornar tão bem-resolvida com a própria autoestima?
A minha autoestima tem a ver com o meu amor próprio. O que aprendi em casa me ensinou a não ser vulnerável e não deixar as pessoas fazerem de mim aquilo que eu não acreditava que não era. Mais uma vez, entra a figura importantíssima da minha mãe. E a maturidade te ensina também: muita coisa você pode, mas não deve. E se deve, nem precisa. Você descobre com o tempo que não precisa de muita coisa.

Em 2015, você lançou a biografia Ser Mulher Não É para Qualquer Um. Que capítulo adicionaria à obra?
Colocaria o sucesso que tive na minha escalada profissional: o fato de ter feito a peça Caros Ouvintes (2015), onde interpretei uma mulher homofóbica de extrema direita. Em seguida, veio o espetáculo Forever Young (2018) e, agora, novela. Um capítulo à parte seria sobre O Sétimo Guardião. A primeira telenovela da minha vida. 

Costuma dizer que sobreviveu porque sempre ousou ser quem é. Quando descobriu que vale mais a pena ser quem é?
Quando você ganha o respeito dentro de casa, o resto do mundo se torna quintal. Então, nunca critiquei a minha condição porque para mim ela sempre fluiu bem. Logo, não era um problema meu, mas dos outros. As pessoas costumam dizer “eu aceito”, não precisa aceitar nada. Eu quero que você respeite. O que adianta falar que aceita, mas não respeita? O respeito vem à frente de tudo.

Você não fez a redesignação sexual por um pedido da sua mãe. O que a convenceu a atender o desejo dela?
Eu estava com a cirurgia marcada e minha mãe pediu que eu não fizesse. Automaticamente, a vida me mostrou dois exemplos que serviram como avisos: uma amiga fez a cirurgia e se matou. Já outra que realizou o procedimento, quando fui visitá-la, levei um choque, foi como se tivesse tirado a tomada dela do 220W e colocado no 50W. Então, vi que não precisava passar por aquilo para ter qualquer tipo de aceitação ou adequação que eu quisesse ter na vida. Podia me adequar pelo trabalho. A gente sobrevive aos solavancos e responde aos desaforos com trabalho.

Quais são os próximos sonhos que planeja realizar?
Costumo dizer que a minha vida muda em um telefonema. Estou em um relacionamento sério com O Sétimo Guardião até maio. A partir daí, devo retomar minha agenda de show e viajar o Brasil. E tem o projeto de retomar Caros Ouvintes no segundo semestre. Caso pinte outro trabalho na Globo, vou aceitar com o maior prazer.