Caro adolescente integrante da Geração Z: respeite os meus cabelos tintos

Quem nunca experimentou um olhar de desprezo enfadonho de um jovem ser humano que não completou duas décadas, mas tem certeza que já nasceu sabendo?

*Wal Reis Publicado segunda 12 outubro, 2020

Quem nunca experimentou um olhar de desprezo enfadonho de um jovem ser humano que não completou duas décadas, mas tem certeza que já nasceu sabendo?
Atenção, jovens adultos: os ''velhinhos'' de 40 e muitos são meio diferentes hoje em dia. - Ingela Skullman/Pixabay

Se você passou dos 40 – ou até antes disso – tem altas chances de ter se deparado com uma situação mais ou menos assim: um ser humaninho, normalmente com menos de 20 anos, que se refere a você como se estivesse diante de uma peça encontrada em um sítio arqueológico ou de uma samambaia que, como todo vegetal que se preza, tem pouco a contribuir com as questões de ordem da Geração Z.

O que mais intriga são os adultos dotados de QI normal, que vestem a carapuça e, na presença de adolescentes, se sentem constrangidos, como quando estamos entrevistando um ganhador do Prêmio Nobel. Aceitam pacificamente a cara de saco cheio ao abrirem a boca para argumentar, quase pedindo desculpas por estarem ali, respirando o mesmo ar que a divindade presente. Um misto de medo do pequeno aprendiz de tirano e idolatria por essa geração que se vende como muito evoluída.

Não raro, vejo pais, mães e até professores tentando travar algum diálogo com este público, caindo dois patamares na evolução da espécie, usando, sem muita habilidade, um dialeto aprendido às pressas na internet. A resposta? Geralmente monossílabos entredentes, que se assemelham a uma linguagem tribal, enquanto a atenção se mantém no game do smartphone.

Ok, via de regra, esses nascidos entre a segunda metade dos anos 1990 até o início do ano 2010 chegaram em plena revolução digital e se adaptaram facilmente ao mundo que encontraram ao verem a luz. Mas isso não os faz super humanos, acima do bem ou do mal e muito menos salvadores da pátria. No máximo, os faz ser o que são: jovens.

O que deprime é observar nas gerações anteriores uma veneração destemperada por quem já acha que, literalmente, nasceu sabendo. O contra-argumento aqui pode vir fácil: “mas todo adolescente acha que nasceu sabendo”. Verdade. A diferença é que agora outros, além deles, acreditam nisso.

Em um comentário baby boomer, arriscaria que, para boa parte dos teens, o que sobra em habilidade na tecnologia falta em inteligência emocional e empatia para ouvir e se interessar pelo o que, não necessariamente, faz parte do universo em que habitam. E o que não compreendem costumam desprezar.

VELHINHOS SARADOS
Mas os “velhinhos” de 40 e muitos são meio diferentes hoje em dia. Cuidam, literalmente, da cabeça: disfarçam cabelos brancos, quando lhes convêm, com tinturas modernas, mechas e balayage ou até arriscam cores mais ousadas porque querem ver refletida por fora a juventude que continuam sentindo por dentro. E, internamente, sabem que ainda sobra muito giga de espaço para erros e acertos.

Esses anciões modernos – que tratam de manter a boa forma não só pela saúde, como recomendariam os médicos, mas para, deliberadamente, seguirem despertando olhares de cobiça – teriam muito a dizer àqueles que imaginam que experiência é um aplicativo que se baixa no celular.

Mas, sinceramente? Desperdício de tempo contar essa história a quem quer apenas conhecer as hashtags. E tempo é algo que aprendemos a valorizar quando ele começa a rarear. Por isso, acho mais saudável tentar aplaudir menos aqueles que sobem ao palco da vida de costas para a plateia porque o silêncio da claque pode ensinar mais do que mil palavras.

*WAL REIS é jornalista, profissional de comunicação corporativa e escreve sobre comportamento e coisas da vida. Blog: walreisemoutraspalavras.com.br

Último acesso: 12 May 2021 - 09:19:52 (1126922).