Mulheres criam projeto para ajudar pessoas em situação de pobreza menstrual

Por mais que ainda seja um termo desconhecido para a maioria, a falta de acesso a itens de higiene menstrual é a realidade de muitos

Naty Falla Publicado sexta 10 julho, 2020

Por mais que ainda seja um termo desconhecido para a maioria, a falta de acesso a itens de higiene menstrual é a realidade de muitos
A primeira ação foi a doação de 2.712 unidades de absorventes higiênicos para Ocupação Mauá, em São Paulo - Divulgação

Jornal, papel higiênico, papelão, pano velho e até miolo de pão. Esses são alguns exemplos das alternativas as quais pessoas que menstruam precisam recorrer pela falta de acesso a um simples absorvente descartável. Observando esse cenário, nomeado como ‘pobreza menstrual’, a estudante de medicina Gabriela Ribeiro Aguiar e a publicitária Beatriz Correa Garcia decidiram criar o Projeto TPM - Transformando o Período Menstrual, a fim de auxiliar quem sofre com a falta desses itens.

Por mais que a menstruação seja algo normal na vida da maioria das meninas, mulheres e também homens trans em todo o mundo, nem todos conseguem arcar com o preço dos produtos básicos de higiene. Aqui no Brasil, por exemplo, um kit com 16 unidades de absorventes custa em média R$ 15. E o alto preço tem um motivo. 

De acordo o Impostômetro, mantido pela Associação Comercial de São Paulo (SP), o produto tem tributação média de 34,48% e tudo isso porque, na nossa Lei, ele não é considerado um item de higiene, e sim de cosmético. E esse detalhe causa problemas além do custo, pois também interfere na presença do absorvente descartável nos kits de higiene pessoal criados para pessoas em situação de vulnerabilidade, que acabam não contando com o produto nas cestas.

“A ideia do projeto começou justamente quando decidimos nos juntar para arrecadar dinheiro e fazer uma compra para as ocupações dos centros de São Paulo. Conseguimos a quantia e, dentre os itens, colocamos também o absorvente. Após a entrega, uma das voluntárias no contou que as mulheres se mostram emocionadas e surpresas. Isso ficou na nossa cabeça, pois jamais imaginaríamos que algo tão comum teria esse impacto. Por isso, decidimos começar a ajudar as pessoas que sofrem com a Pobreza Menstrual e criar o Projeto TPM”, conta Gabriela Ribeiro.

MAS AFINAL, O QUE É A POBREZA MENSTRUAL? 

Trata-se da dificuldade de ter acesso aos itens que absorvem ou armazenam o sangue, como, por exemplo, o absorvente descartável. Beatriz Correa explica que essas dificuldades acontecem por questões econômicas e sociais, e que as pessoas acabam optando por alternativas que, muitas vezes, são materiais inadequados, como jornal, papelão e miolo de pão. 

“São itens imagináveis e que não têm nenhuma segurança. Além da falta de acesso por questões financeiras, também há quem sofra pela falta de saneamento básico, com muitas mulheres sem acesso a um banheiro e água potável, por exemplo”, explica a parceira do projeto.  

COMO AJUDAR A COMBATÊ-LA?

Para Gabriela, o primeiro passo é se informar e entender que trata-se de um problema de saúde pública. A estudante de medicina, inclusive, ressata ter sentido uma falta de entendimento geral ao divulgar o projeto. “Nos feedbacks que recebemos, tem quem diga que nunca parou para pensar ou ver algo relacionado à Pobreza Menstrual. Por isso, acredito que, enquanto não falarmos sobre e não questionarmos, não existirão ações para ajudar no combate da questão”, analisa.

O segundo passo é encontrar projetos parecidos com o criado por Gabriela e Beatriz para apoiar, seja em forma de doação ou divulgação das informações sobre o assunto. “Quanto mais você informar, mais as pessoas irão entender o problema e buscar maneiras de ajudar. Se manter informado sobre o assunto ajuda a abrir a cabeça sobre algo tão sério e tão pouco falado”, ressalta Gabriela. 

O PROJETO

O ‘Projeto TPM’, que atende inicialmente o ABC paulista e a Grande São Paulo, elabora kits, por meio de doações, em duas versões: uma destinada para pessoas em situação de rua e outra para pré-adolescentes e adolescentes que vivem em abrigos. 

“O primeiro contém absorvente descartável, sabonete, pasta de dente, lenço umedecido, um pedaço de toalha e calcinha. No segundo kit entregamos absorvente descartável, sabonete, lâmina de barbear, uma bolsa térmica feita com sementes e ervas, um porta-absorvente e um chocolate, para ter uma forma de carinho para essas meninas”, detalham. 

A princípio o projeto se chamava ‘É Menina!’, mas para abranger todas as pessoas que menstruam, como é o caso dos homens trans, elas decidiram mudar o nome para algo que não abordasse gênero. Por conta disso, passou a se chamar ‘Projeto TPM - Transformando o Período Menstrual’. 

Por ter sido criado em meio à pandemia do coronavírus (Covid-19), o projeto não conseguiu ainda arrecadar as doações de maneira física. Por enquanto, toda a ajuda é feita de forma on-line, através do site. A ideia é criar um “clube de assinatura” para receber doações mensais de R$ 10,00 a R$ 20,00 ou doações únicas. A primeira ação foi a doação de 2.712 unidades de absorventes higiênicos para Ocupação Mauá, no Centro Histórico de São Paulo.

Último acesso: 28 Jul 2021 - 14:43:44 (1116249).