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‘O caso Evandro’: criador do podcast que virou série da Globoplay relembra pesquisa

Produção sobre assassinato de um menino de 7 anos por uma suposta seita satânica, estreou na plataforma de streaming em 13 de maio

Erick Luiz, Nathália Nunes e Sabrina Castro, com supervisão de Vivian Ortiz Publicado em 14/05/2021, às 08h30 - Atualizado às 16h49

Ivan Mizanzuk idealizou podcast que destrincha história de crime brutal - Instagram/@mizanzuk | Globoplay
Ivan Mizanzuk idealizou podcast que destrincha história de crime brutal - Instagram/@mizanzuk | Globoplay

A série documental ‘O caso Evandro’, adaptação da 4ª temporada do ‘Projeto Humanos’, podcast de Ivan Mizanzuk, estreou na Globoplay,na última quinta-feira (13). A proposta veio da própria plataforma de streaming da Globo, que acompanhou o sucesso estrondoso do podcast: em seus 35 episódios, a narrativa somou cerca de 9 milhões de downloads.

O projeto foi desenvolvido durante o tempo livre de Ivan, que é professor na área de Design da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Grande admirador de podcasts norte-americanos que seguem um formato narrativo (como o ‘Serial’ e o ‘This American Life’), o produtor decidiu criar o seu próprio. Vale lembrar que, em 2015, a maioria dos podcasts brasileiros seguiam o conceito de ‘conversa/debate’ (exemplos são o ‘Mamilos’ e o ‘NerdCast’).

Assim, surgiu o ‘Projeto Humanos’, que é dividido em 4 temporadas. Na primeira, ele conta a história de Lilli Jaffe, iugoslava que sobreviveu a Auschwitz, o maior campo de concentração da Segunda Guerra Mundial; na segunda, registra experiências vividas por brasileiros e refugiados nos conflitos do Oriente Médio; na terceira, investiga, junto de alguns colaboradores, o que faz as pessoas se tornarem heróis; na quarta, recordou de um caso bastante peculiar, que envolvia outro interesse dele: as ‘seitas satânicas’. Era o chamado ‘Bruxas de Guaratuba’, que gerou grande repercussão no Paraná da década de 1990.

O QUE ACONTECEU?
O caso gira em torno de Celina e Beatriz Abagge, respectivamente esposa e filha do ex-prefeito de Guaratuba, Aldo Abagge. As duas foram acusadas de sequestrar e matar o menino Evandro Ramos Caetano, de 6 anos, para um ‘ritual satânico’ com o objetivo de garantir prosperidade financeira. Junto delas, três ‘pais de santo’ e dois funcionários da serraria que pertencia ao prefeito foram presos. O corpo do menino foi encontrado sem os órgãos, o couro cabeludo, as mãos e as orelhas, entre outras mutilações - o que favoreceu a narrativa do ritual.  No podcast, Ivan analisa processos judiciais, provas e depoimentos, buscando entender o que realmente aconteceu, por trás de todo o misticismo.

O professor irá lançar um livro também sobre o caso Evandro, pela editora Harper Collins, no próximo mês. Nessa entrevista para AnaMaria Digital, você pode conhecer um pouco mais do produtor, seus interesses e, principalmente, suas opiniões acerca do caso que transformou sua carreira.

A 4ª temporada do ‘Projeto Humanos’, sobre o caso Evandro, foi adaptada para série, pela Globoplay, e para livro, pela editora Harper Collins. Como foi  fazer essa adaptação da narrativa? A riqueza de detalhes que o podcast traz foram inseridos no livro - ou, como você comentou sobre a série de TV, houve uma síntese da história?
Ivan Mizanzuk:
Está sendo uma experiência bacana, porque tenho mais informações do que tinha quando fiz os episódios do podcast. O caso Leandro Bossi [menino que também desapareceu na mesma época de Evandro; por isso, os eventos foram muito relacionados] é o grande capítulo do livro. Nele, consigo trazer coisas que não estão no podcast, são novas, e explicam melhor a situação. Escrevi da maneira mais completa possível, dei na mão deles e disse: “não tenho mais condição de saber o que é importante ou não, porque para mim tudo é importante. Preciso que vocês leiam, como editores, e editem”. Posso dizer que o livro é mais maduro do que o podcast.

A série de TV já é outra coisa, né? Ela é dirigida pelo Ali Murytiba, acima de tudo, e pela equipe de roteiristas. Sou um entrevistado ali, mas é uma coisa que não tenho controle. A série é uma adaptação de um projeto meu, mas é longe de ser minha, pois não tem o mesmo nível de detalhes. Seria impossível fazer isso, até por questão de produção mesmo. Não existe, hoje em dia, série de TV com 20 episódios. Por mais que tenha recurso visual ajudando, ninguém estaria nem interessado…  Fechamos em 8 episódios.

Posso te garantir que não vai ter o mesmo nível de aprofundamento que o podcast. Nada vai ter o mesmo aprofundamento do que o podcast, porque nele consigo contar essa história de cabo a rabo, entrando fundo em um monte de coisa que ninguém nunca entrou e nem vai entrar. São três obras que contam a mesma história, com ângulos diferentes. 

Como você se sente ao ver seu projeto ser adaptado para dois formatos diferentes?
IM:
De tudo isso, o que me deixa mais embasbacado é pensar em quanta gente está se mexendo para fazer essas coisas acontecerem, sabe? Uma vez, estávamos gravando um dos meus depoimentos aqui em casa, e tinha uma equipe de 10, 12 pessoas. Virei para a Eliane, minha esposa, e disse “você lembra quando a gente trouxe os autos dos processos aqui para casa?”. Aqui não tem elevador, tivemos que trazer caixas e caixas de processo pelas escadas. Os caras no fórum de justiça não sabem nem o que é um podcast direito. Trouxe tudo aquilo, passei dias lendo e digitalizando fita VHS [Vídeo Home System, tecnologia que era amplamente utilizada nas décadas passadas].

Agora tenho 10, 12 pessoas empregadas, ganhando dinheiro por causa de um projeto que fiz anos atrás. Mas algo muito forte no caso Evandro é o meu olhar, e, quando começou a envolver muita gente, isso se perdeu. E faz parte, não vejo com maus olhos. Tenho a impressão de que essa história foi feita para ser contada em podcast. Mas sou muito envolvido com ela, então não tenho condição de julgar. No fim das contas, são vocês que decidem se é bom ou não.

"BRUXAS DE GUARATUBA"

Em diversas entrevistas, você menciona que sua infância foi impactada pelo caso Evandro. Em que sentido? Quais são as suas memórias do caso?
IM:
O que lembro da época foi o pânico pelo desaparecimento das crianças no Paraná. Dentre eles, o que mais me marcou foi o do Guilherme Tiburtius [desaparecido em 17 de junho de 1991, em um bairro nobre de Curitiba, tornou-se o caso “símbolo” das crianças desaparecidas naquele Estado no início da década de 1990. Até hoje, seu caso permanece sem solução]. Eu até cito no início do podcast. Tive uma infância muito tranquila, nunca me faltou nada, então provavelmente poderíamos ter estudado no mesmo colégio.

Meu pai assistia muitos programas policiais e, volta a meia, apareciam manchetes dizendo que encontraram locais para deixar crianças antes de um ritual satânico. No meio desse pânico e clima de medo, ele falava coisas como “decore seu endereço, seu telefone, o nome do seu pai, da sua mãe, para quem ligar caso você precise de ajuda”. Hoje em dia, provavelmente teria ganhado um celular do meu pai aos 7, 8 anos, e provavelmente vou fazer isso com meu filho [risos].

Só fui conhecer o caso Evandro, chamado, na época, de ‘Bruxas de Guaratuba’, ali em 2002, quando fiz uma viagem com meus amigos para Guaratuba. Lá, uma amiga me disse “olha, ali moravam as bruxas que matavam crianças e enterravam no quintal”. E eu só pensava: "cara, que loucura". Isso ficou martelando na minha cabeça por um tempo. Em 2015, quando decidi fazer o ‘Projeto Humanos’, esse caso me pareceu uma boa história para contar, e comecei a me debruçar nele. A maioria dos curitibanos tem essa ideia: “ah, ‘Bruxas de Guaratuba’ eram mulheres que matavam crianças”. E não é. Nem é essa a acusação. O processo é sobre a morte de uma criança na serraria, e sete pessoas foram indiciadas. Mas caiu para cima das mulheres, porque na época havia muito esse estereótipo de bruxas, crianças e rituais satânicos. 

No podcast, você citou que ficou três anos investigando os meandros do ‘Caso Evandro’. Como foi se debruçar tanto tempo em um projeto? De que maneira você conciliava isso com os outros aspectos da sua vida?
IM:
Comecei a pesquisar o caso Evandro em 2015, e só lancei três anos depois. Mas não parei desde então - são cinco anos pesquisando. Tem um momento que foi muito intenso, entre o final de 2016 e início de 2017, quando fui para Guaratuba fazer entrevistas e peguei os autos do processo. Escolhi esses meses justamente porque eram as férias da faculdade [Ivan é professor universitário].

Nunca consegui fazer só o ‘caso Evandro’, pois sempre fiz isso no meu tempo livre, entre aulas, tocando o ‘Anticast’ nesse meio tempo... Se fosse apenas isso, teria terminado o caso Evandro muito antes [risos]. A parte boa é que demorei para cansar do tema.  Perdi a conta de quantas revisões tive que fazer porque ficava meses longe, mas, com isso, encontrava erros que não tinha visto da primeira vez. Ainda bem que deu certo. Hoje em dia, estou com menos horas em sala de aula, porque meu trabalho na internet conseguiu me dar retorno financeiro. Ainda mais com a série e o livro saindo agora.

Os autos do processo do caso tem cerca de 20 mil páginas. Apesar de declarar que teve ajuda de cerca de 50 pessoas para catalogá-los, como foi interpretar tudo? E ir atrás dos demais documentos, fitas e evidências apresentadas durante a temporada?
IM:
As fitas que inseri no podcast estão todas nos autos do processo, com exceção das usadas no episódio 25, então é meio que um pacote só. O mais difícil mesmo é você entender como funciona um processo: o que é uma denúncia, uma declaração... São termos que não estamos acostumados, então toda hora tinha que falar com algum amigo advogado para me explicar. 
Esse grupo de 50 voluntários era composto por ouvintes do ‘Anticast’ e do ‘Projeto Humanos’. Cheguei e disse “a próxima temporada vai ser sobre um caso criminal, e não entendo nada de processo judicial. Preciso que vocês cataloguem os autos para mim, para que eu possa ter uma noção do que está acontecendo”. Aí fazia reunião por Hangouts, para conversar com essas pessoas, e elas me explicavam. Inclusive, um deles participou de um dos episódios do caso Evandro, explicando as questões que aconteceram naquele trecho.

Foi um aprendizado, também. Chegou uma hora que eu comecei a perceber que, mesmo sendo professor universitário, com doutorado, me ferrei para entender um processo judicial. Quando cai essa ficha, você começa em todas as denúncias que foram feitas, em qualquer lugar, que vão para qualquer jornal que você já viu na sua vida… A quantidade de jornalistas fazendo merda simplesmente porque o delegado ou o promotor falou um negócio, e ele nem percebeu que aquilo é uma besteira gigante, é enorme. E aí entra a questão de confiança na fonte. Se não está no papel, se não tem prova, não adianta nada. Aí você fala “ah, mas eu não posso revelar por causa do sigilo de fonte”. Te digo: “se ela está te passando algo que não é verificável, essa coisa não existe”. Se não consegue verificar, é uma informação inútil; é fofoca, é boato. Estabeleci o critério que é verdadeiro está nos autos. 

Durante nossa pesquisa, encontramos comentários dizendo que você está “sutilmente defendendo as Abagge” [Beatriz e Celina Abagge, acusadas como mandantes do homicídio de Evandro]  e tem “medo de Diógenes Caetano dos Santos Filho” [primo de Evandro e autor da denúncia contra os acusados]. Como você lida com isso?
IM:
Bom, é muito simples: publiquei os e-mails que troquei com o Diógenes. Convidei um milhão de vezes para vir conversar comigo, mas ele não quis. Já as Abagge conversam. Consegui provas mostrando que elas são inocentes, então não estou muito interessado em defender um ou outro, mas sim na verdade. Fui tão honesto que coloquei a denúncia do Ministério Público inteira para download na enciclopédia. Se alguém achar que estou escondendo algo, por favor, venha aqui e me aponte uma incoerência.

Vai chegar um ponto onde as pessoas vão dizer: “eu ouvi que elas foram torturadas, mas acho que foram culpadas”. Aí, não tem o que fazer. Faz muito tempo que eu desconfiava que esse caso era furada, simplesmente porque não existem casos de grupos satânicos matando crianças. Existe um fenômeno para isso, que se chama “pânico satânico” (“satanic panic”, em inglês). Inclusive, tem um relatório do FBI [‘Federal Bureau of Investigation’ ou ‘Departamento Federal de Investigação’, em português; é uma unidade de polícia do Departamento de Justiça dos Estados Unidos], produzido em 1992 por um investigador chamado Kenneth Lenin, que explica como isso é um fenômeno de histeria popular muito sério nos Estados Unidos durante a década de 1980, e mais atrapalhou a solução de crimes sérios do que ajudou.

Como já conhecia esse conceito, quando vi o caso de Guaratuba e comecei a cair de cabeça, pensei: “essa história está estranha”. Se houver provas contundentes que esses caras de fato faziam parte de um culto satânico que matava crianças, é o primeiro no mundo. Quando foram aparecendo os relatos de tortura, ficou mais estranho. Ficou mais estranho ainda quando vi que o Diógenes, enquanto era rival político do prefeito, foi quem fez as denúncias contra a esposa e filha dele.


O pequeno Evandro Ramos Caetano, assassinado aos 7 anos | (Crédito: Divulgação)

Você acredita que o Diógenes inventou tudo?
IM:
Não. Tenho certeza de que ele acredita em cada vírgula do que diz. Só que, na época, era um cara que não poderia ser ouvido, porque era um rival político. Se ele visse que a família Abagge estacionou o carro de forma errada, iria dizer: “olha só, são um bando de bandidos que não respeitam a lei”. O cara ia pegar qualquer grãozinho de areia e transformar em um escarcéu. Quando acontece uma coisa tão grave, quando some um parente dele, que tem a mesma idade dos filhos, imagino como ficou a cabeça desse cara. E daí, quem é o inimigo mais próximo? Os Abagge.

Honestamente, por incrível que pareça, eu pego leve com o Diógenes. Sempre fui muito cético de que não era uma seita satânica matando crianças. Poderia ser o primeiro caso, porém, então eu estava aberto a essa possibilidade. Ao mesmo tempo, a defesa também fez um monte de maluquices, e até hoje acha que o corpo não é do Evandro. Eles dizem que Diógenes é um mestre do crime. A solução “Diógenes fez tudo” é muito simples para esse caso. A situação ali é: policiais torturaram pessoas e houve um acobertamento. O Estado é o grande culpado, e isso eu sempre tive desconfiança. Simplesmente não acredito em seita satânica, não acredito em bicho papão. 

Você chegou a entrevistar diretamente o próprio Diógenes e João Bossi [pai de Leandro Bossi, criança desaparecida dois meses antes de Evandro, que possuía características físicas muito parecidas e, por isso, a imprensa da época relacionou os dois casos]. Como foi encontrá-los e conduzir essa conversa?
IM:
No início, o Diógenes não queria dar entrevista para mim. Depois, quando ele topou, fui encontrá-lo em Guaratuba. Já o João Bossi queria falar porque sente que foi abandonado pela imprensa e pela polícia. E é inegável que foi. A história do filho dele sempre é levada como uma nota de rodapé da do Evandro, sendo que aconteceu antes. É um absurdo. O grande problema de quando fui falar com o João e com o Diógenes é que não conhecia o caso profundamente. Não tinha como.

Meu processo de conhecê-lo foi conversar com essas pessoas naquela fase inicial. Hoje em dia, em um mundo ideal, estaria começando a fazer as gravações com as pessoas agora, sabendo do processo e fazendo as perguntas certas. O problema é que seriam entrevistas muito longas, que não se encaixariam no meu sistema de produção. Mas, mesmo despreparado, eu já conhecia o caso melhor do que muita gente. O Diógenes foi muito simpático e atencioso comigo. O João Bossi… foi muito doloroso entrevistá-lo. Ele não tem advogado… então você vê como é quando um pai pobre perde o seu filho. 

DIREITO DE RESPOSTA

No início de todos os episódios, você cita que qualquer pessoa ofendida pode pedir seu direito à resposta. No final de 2018, você trocou e-mails com Diógenes, que se sentia ofendido e disse que você recusou, “removeu e adulterou” as respostas dele, conforme comentários no Spreaker [plataforma onde os episódios eram postados]. Como se deu essa conversa, que resultou no direito de resposta publicado em junho de 2019?
IM:
Existe um motivo para eu não ter sessão de comentários em nenhum dos meus sites: evitar esse tipo de coisa. Ainda assim, ele [Diógenes] achou um jeito de comentar no Spreaker. Se soubesse disso, nem teria usado essa plataforma. Se a pessoa está afim de me escrever, use o e-mail. Eu dei espaço para o Diógenes e disse “acho que seria melhor a gente conversar no final da história, para você contar tudo o que quer”. Em princípio, ele tinha aceitado essa proposta, mas começou a escrever lá direto.

Ele estava querendo contar a história do jeito dele, sendo que eu já tinha recomendado seu livro para quem quisesse ler. Isso interferiu no meu trabalho, então respondi os comentários: “já que você está mentindo que te neguei direito de resposta, vamos publicar todos esses e-mails que a gente trocou. Você me autoriza?”. Ele autorizou, e eu publiquei. Quem pensa que silenciei o Diógenes, é só ler lá. Quem acha que tenho poderes para editar comentários no Spreaker, por favor, confira com a plataforma se é possível fazer isso. Quando coloquei o Diógenes contra a parede dizendo que isso é impossível, ele disse que foi um hacker que estava apagando coisas de seu computador.

Diógenes sempre vai tentar dar um jeito de dizer que está sendo culpado, que as pessoas estão contra. Ele queria usar o direito de resposta quando quisesse, só que de maneira informal, e nunca deixou isso claro por e-mail. Se ele falasse “não, Ivan, eu quero agora o meu direito de resposta”, teríamos conversado. Registrei tudo e trabalhei sempre com ética e frieza nessas horas. Fui chato a ponto de perguntar três vezes se o Diógenes me autorizaria a publicar os e-mails, porque, se não falasse explicitamente “sim, eu autorizo”, poderia desmentir depois. Dá para ver que em alguns e-mails eu escrevo: “Diógenes você quer gravar e mandar um áudio para mim?”, e ele não queria. Então, tive que gravar. É o direito de resposta mais bizarro possível: eu lendo um direito de resposta que nem existiu de verdade. Ele não está afim de se incomodar, e se eu fosse ele também não estaria. Se der uma entrevista para mim agora, sabe que vai ser atacado e pode se complicar mais. Então, entendo. Discordo da tática, mas entendo.


Capa do podcast, que somou 9 milhões de downloads | Divulgação

ARCOS NARRATIVOS

O caso Evandro possui 36 episódios no total. Cada um conta com 1h, em média. Quando questionado sobre prender a atenção do público, você comenta que é “questão de trabalhar os arcos narrativos (...) tentar simplificar algo complexo para ficar didático”. Qual o processo para você fazer isso?
IM:
O caso Evandro funciona em arcos. Os dois primeiros episódios dão uma geral do caso. No primeiro, o Evandro é sequestrado, o corpo aparece, a fita de confissão vai para a imprensa e as Abagge são presas. Já no segundo, entra a questão das torturas. Tudo o que vai acontecer nos próximos 28 episódios está entre esses dois. Também tento sempre terminar um episódio com uma informação que vai te deixar louco para ouvir o próximo. É uma técnica chamada Cliffhanger [em tradução literal, “a beira do precipício”]. Isso tem a ver com séries antigas americanas em que, sei lá, o mocinho estava correndo atrás do bandido no seu cavalo, tropeçava e se apoiava no penhasco, prestes a morrer… Ai acaba o episódio. E você tinha que assistir o da semana que vem para saber se ele ia sobreviver ou não.

É possível notar que várias vezes vocês ouviram o episódio e, no final, pensaram “tenho que ouvir o próximo!”. Isso sempre foi pensado. O mais difícil é adaptar. Nós temos ideia da técnica na teoria, mas é difícil usá-la na prática… Porque você deve olhar para uma história bruta, analisar todos os elementos e pensar em como adaptar para uma narrativa desse tipo. Quais são os pontos que posso deixar nos finais de episódio, para puxar para um próximo? Vou separando por tema, para ficar mais claro, como “dia das prisões”, “gravações”, “alegações de tortura”, “testemunhas”... Toda hora tenho que ficar puxando informações que já passei antes, porque já faz tantos episódios que você ouviu que é muito provável que tenha esquecido. E falo: “lembra aquele episódio em que falei aquilo?”, e puxo uma informação, para refrescar sua memória, e você colocar aquilo em contexto de novo. Dá uma noção maior do geral.

Olhei para o caso, tentei entender quais as principais alegações de defesa e acusação e colocá-las de uma maneira didática e, ao mesmo tempo, interessante, que te prenda a atenção. Outra técnica que geralmente uso, se você notar, é que normalmente abro o episódio fazendo, direta ou indiretamente, uma pergunta. Então, você vai gastar as próximas horas ouvindo o episódio tentando responder aquela pergunta. Depois, vai ter outra pergunta, que vai abrir outro episódio, e assim vai. O motor principal que prende alguém é a curiosidade. Você precisa deixar seu ouvinte curioso. E, para isso, precisa apresentar algumas informações, no momento certo, em seus contextos devidos.

SEM RESPOSTAS

Como fazer isso no caso Evandro, especificamente, uma vez que ele possui poucas respostas definidas?
IM:
Vou respondendo o que dá para responder. Infelizmente, não temos muitas. Por isso, quando aparece alguma, é uma explosão de cabeça. E, com ela, deixamos uma cascata de outras informações de lado e conseguimos ter uns pontos de segurança, finalmente. O caso Evandro dá um pouco da sensação de que você não vai conseguir entender tudo, mas vai ter que saber lidar com isso.

Para isso ser interessante, é preciso saber apresentar as histórias da maneira certa. Porque, com uma história muito complexa, é comum que ela fique muito bagunçada e ninguém consiga entender o que está acontecendo. É a sensação que tenho, inclusive, com as fitas do episódio 25. Se eu ouvisse, e não conhecesse o caso Evandro com a profundidade que conheço, não entenderia nada. Isso que é bizarro: você tem um material em algum lugar, com uma chance enorme de uma pessoa jogar fora, porque não entendeu nada. É meio assustador pensar que, por pouco, esse material não foi perdido. Ainda bem que consegui resgatar.