AnaMaria

Regina Duarte diz que foi ‘apedrejada’ e não defendeu ditadura: ''Me desculpem''

Secretária Especial de Cultura foi substituída por Mário Frias no cargo

Da Redação Publicado em 23/05/2020, às 08h32 - Atualizado em 25/06/2020, às 23h14

Regina foi substituída no cargo do governo pelo também ator Mário Frias - CNN Brasil
Regina foi substituída no cargo do governo pelo também ator Mário Frias - CNN Brasil

Depois de causar polêmica, Regina Duarte voltou às redes sociais, na manhã deste sábado (23), e fez um longo desabafo sobre sua passagem como Secretária Especial de Cultura do governo de Jair Bolsonaro.

No texto, a artista diz que tentou uma conversa pacífica, mas foi apedrejada pelas redes sociais. Ela ainda completou que sua resposta para o mal era a “serenidade e a paz”.

“Em vez de uma discussão franca, que seria saudável, por mais altos que fossem os decibéis, o que identifiquei foi só a ação coordenada de apedrejar uma pessoa que, há mais de meio século, vem se dedicando às artes e à dramaturgia brasileira”, escreveu.

Duarte ressaltou que não defendeu a ditadura militar ao cantar a marchinha ‘Pra Frente Brasil’, e relatou as dificuldades que viveu ao interpretar a Viúva Porcina, da novela ‘Roque Santeiro’ (1985).

“Enfrentei a censura nos primórdios da redemocratização. Fui aplaudida. Amo meu país, sim, e tenho deixado isso sempre bem claro, a ponto de, numa recente entrevista à TV, ter cantado a conhecida marchinha dos anos 70, que fala de ‘todos ligados na mesma emoção’. Nada a ver com defesa da ditadura, como quiseram alguns, mas com o sonho de brasilidade e união que venho defendendo ao longo de toda a minha vida”, desabafou.

Por fim, desculpou-se: “E me desculpo se, na mesma ocasião, passei a impressão de que teria endossado a tortura, algo inominável e que jamais teria minha anuência, como sabem os que conhecem minha história. Dito isso, não será o veneno destilado nas redes sociais que me fará silenciar nem renegar amor à minha pátria”.

Confira o texto na íntegra:

"Que classe é essa, companheiro?

Ao aceitar o convite do presidente Jair Bolsonaro para ocupar a Secretaria Especial da Cultura, eu tinha plena consciência de que minha gestão seria alvo de críticas. Essa certeza, no entanto, nunca me desencorajou. Ao contrário, assumi a missão com a firme convicção de que, para contribuir com a cultura brasileira, teria que enfrentar interesses entrincheirados em ideologias cujo anacronismo não parece suficiente para sepultá-las.

Não são as críticas, portanto, que me surpreenderam. O que me causa espanto, isto sim, é a total ausência de substância das sentenças condenatórias que me dirigem na praça pública das redes sociais – esse potente megafone usado por grupos organizados dentro e fora da classe artística.

Não me vi no centro de um debate acalorado sobre a relevância de uma política pública voltada para as artes, o que seria natural, dado o papel que desempenhei como formuladora de diretrizes nessa área.

Em vez de uma discussão franca, que seria saudável, por mais altos que fossem os decibéis, o que identifiquei foi só a ação coordenada de apedrejar uma pessoa que, há mais de meio século, vem se dedicando às artes e à dramaturgia brasileira.

Recuso-me a responder às manifestações de desaprovação vociferadas pelos mais exaltados. Há críticas que são refratárias ao argumento racional exatamente por extrapolarem qualquer juízo. Elas vicejam apenas no terreno pantanoso da maledicência. Recuso-me a adentrar essa arena onde meus pretensos algozes se movimentam com desenvoltura.

Minha resposta tem sido a serenidade que deriva de uma paz de espírito que só pode ter quem age de acordo com sua consciência, fiel a seus princípios, sem se vergar diante de pressões, sem se preocupar em agradar ou desagradar este ou aquele.

Não acredito que a campanha insidiosa que mirou a minha cabeça e o meu coração tenha tido um componente de ordem pessoal. Com o Brasil irremediavelmente polarizado, o posto de projeção que ocupei parece ter servido de instrumento a enfurecidos gladiadores entrincheirados nos dois extremos do espectro político.

Tenho sido criticada à esquerda e à direita, o que me coloca numa posição intermediária dessa régua imaginária. Não é um lugar de conforto. Sei disso porque foi onde sempre estive, independente das circunstâncias.

Nos anos 80, na pele da Viúva Porcina e integrante do elenco da novela “Roque Santeiro”, enfrentei a censura nos primórdios da redemocratização. Fui aplaudida.

Duas décadas mais tarde, não me abstive de alertar a sociedade sobre a ameaça que representaria para o país um governo de matiz notoriamente socialista. Fui vaiada.

O que mais lamento é a insistência em querer separar os brasileiros, enquadrando-os em bastiões irreconciliáveis. Lamento não por mim, vítima da vez dessa escaramuça empobrecedora. Lamento pelo Brasil.

Amo meu país, sim, e tenho deixado isso sempre bem claro, a ponto de, numa recente entrevista à TV, ter cantado a conhecida marchinha dos anos 70, que fala de “todos ligados na mesma emoção”. Nada a ver com defesa da ditadura, como quiseram alguns, mas com o sonho de brasilidade e união que venho defendendo ao longo de toda a minha vida.

E me desculpo se, na mesma ocasião, passei a impressão de que teria endossado a tortura, algo inominável e que jamais teria minha anuência, como sabem os que conhecem minha história. Dito isso, não será o veneno destilado nas redes sociais que me fará silenciar nem renegar amor à minha pátria.

O que mais me dói é ver o Brasil à mercê de uma ignóbil infodemia, termo cunhado para designar a pandemia de informações tendenciosas em que conta o viés de quem as veicula e não o factual isento, não a verdade. O país precisa de uma política cultural que transcenda ideologias. Foi isso o que tentei colocar de pé quando acedi colaborar diretamente com o governo federal. Num país que tivesse nas comunicações uma elite pensante que não optasse pelo “quanto pior, melhor”, esse era o trabalho que deveria estar sob os holofotes da opinião pública – nunca a minha pessoa.

Regina Duarte, atriz e Secretária Especial da Cultura".