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Será que estou sendo preconceituosa?

Por mais que a gente se policie, acaba às vezes fazendo algum julgamento injusto com o próximo. Veja se você está pisando na bola

Luciana Bugni Publicado em 27/11/2015, às 15h25 - Atualizado em 07/08/2019, às 17h44

995 - João Miguel Junior TV Globo
995 - João Miguel Junior TV Globo
Preconceito sempre existiu. A diferença é que nos dias de hoje, com as redes sociais, as pessoas falam o que vêm à cabeça. O resultado é que a gente descobre que aquele amigo de infância tem uma opinião totalmente contrária à nossa. Até aí tudo bem. O problema começa se há dificuldade de aceitar a divergência de ideias. “Que olhar é esse que a gente tem sobre o outro na sociedade? Vivemos num país que julga as pessoas sobre o que elas têm. A opinião alheia não é aceita se não for parte da massa”, afirma Luciana Ruffo, psicóloga do Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Infor-mática da PUC-SP. Selecionamos seis temas que frequentemente causam polêmica e suscitam posições preconceituosas para propor uma reflexão: será que não estamos sendo intolerantes? No caso do racismo, a lei defende a vítima. Mas para a gordofobia, por exemplo, ainda não há lei que proteja quem sofre agressões. É o bom senso que determina a postura adequada. E nada melhor do que pensar, né?

Racial e social 

No seriado Mister Brau, que estreou na Globo no mês passado, o cantor pop que dá nome à série (interpretado por Lázaro Ramos) e sua mulher, Michelle (Taís Araújo), decidem se mudar para a casa que sempre sonharam: uma mansão dentro de um condomínio chique no Rio de Janeiro. 
No primeiro episódio já dá para perceber que a vida dos dois não vai ser fácil no novo endereço. A vizinha Andrea (Fernanda de Freitas) fica louca ao pensar que vai morar do lado de “pagodeiros”. Lógico que viver perto de um casal que promove altas festas madrugada adentro não é o sonho de ninguém. Mas que diferença faz se eles são pagodeiros, roqueiros ou integrantes de uma orquestra erudita? E se fossem brancos, será que seria diferente? Esses rótulos, como o usado pela personagem Andrea no seriado, são extremamente preconceituosos.
Abordar esse tema (um casal negro bem-sucedido que ganha dinheiro e deixa os vizinhos em choque por isso) em um seriado global caiu bem aqui e lá fora. Tanto que o jornal inglês The Guardian fez uma matéria grande sobre o assunto. A reflexão, afinal, é sempre bem-vinda: quem disse que o funkeiro vindo da periferia não é boa pessoa e o violonista clássico europeu é? E mais: o lugar de onde a pessoa veio determina quem ela é? O fato de Caetano Veloso ser nordestino não faz dele um artista diferente de Roberto Carlos, que é do Espírito Santo. Olhar para o ser humano como semelhante é um ato de bondade e pode render surpresas agradáveis e boas amizades.

Aparência

Julgar o outro pela aparência é algo tão antigo que virou até ditado popular: “Nunca julgue um livro pela capa”. Todo mundo sabe disso, mas às vezes acaba cometendo algum deslize. Recentemente, a atriz Betty Faria deu uma declaração bem infeliz: ela confessou que não gosta de mulheres gordas. “Elas me incomodam profundamente. Tenho repulsa, rejeição. Sempre batalhei para não ser uma velha gorda”, disse. É preciso pensar que esse tipo de preconceito é idêntico ao racial: faz algum sentido condenar uma pessoa pela maneira que ela é ou se veste? 
A vencedora do MasterChef 2015, da Band, Izabel Alvares viveu na pele esse tipo de situação. Ela foi alvo de críticas nas redes sociais durante as últimas semanas do programa por seu tipo físico. Izabel reagiu bem: tirou o assunto de letra e usou o bullying a seu favor. “No começo foi difícil... Por mais que soubesse meu tamanho, não sabia que as pessoas eram tão agressivas e que usavam as redes de forma livre pra ofender os outros. Fiquei com muita vontade de responder a cada um, mas vi que, como pessoa pública, não poderia fazê-lo. Virou um exercício muito interessante de autocontrole. Eu parei de olhar tudo e as ofensas não existiam pra mim... Mas uma vez ou outra eu dava uma espiada e me fazia mal. Nunca tinha vivido isso”, ela contou.


No trânsito

Quem diz que nunca fez nenhum comentário maldoso no trânsito está mentindo. Um alvo comum são as mulheres, com direito a piadinhas machistas. Idosos também são vítimas de preconceito e da falta de paciência.  Atualmente, em São Paulo, motoristas reclamam das faixas exclusivas aos ônibus que aumentam o trânsito para quem está nos carros. É questão de matemática: cerca de 80 pessoas andam de ônibus, enquanto num carro de passeio cabem no máximo cinco. Pensando assim, é justo que exista a faixa exclusiva? Tem também quem reclame das bicicletas – meio de transporte comum nas capitais brasileiras. Todos têm o direito de escolher como se locomover, né? E as regras de trânsito devem ser obedecidas tanto pelos ciclistas como por pedestres e motoristas de carro. Aliás, a melhor maneira de prevenir multas e acidentes é obedecer à lei. 

Político

Brigas políticas existem desde que a democracia foi inventada. Mas na eleição do ano passado, no Brasil, o que deveria ser saudável atingiu um nível preocupante. Você já ouviu falar em maniqueísmo? É a palavra usada para nomear a briga do bem contra o mal – algo parecido com as opiniões dos eleitores no segundo turno da eleição presidencial. 
Se uma pessoa vota em um candidato, e outra no seu adversário, como alguém pode ofender o outro em vez de discutir? A argumentação é válida, claro, e enriquecedora. Porém, mesmo que discordem, ninguém tem direito de atacar outra pessoa só porque tem opiniões diferentes. 
Agora, vamos pensar em números: no segundo turno, 51,64% votaram na Dilma e 48,36% votaram no Aécio. É possível dizer que a opinião de praticamente metade (já que o resultado foi tão apertado) do Brasil que pensa diferente de você está errada? E, se o objetivo de todos é um país melhor, a população deveria estar unida. Discutir, xingar e menosprezar nas redes sociais é perda de tempo quando se tem muito a fazer por um propósito que é de todos os brasileiros!

Religião

No Brasil, segundo o Censo 2010 do IBGE, existem mais de 30 religiões – mas os especialistas garantem que o número é bem maior que esse, já que há igrejas variadas para cada uma das principais vertentes religiosas. A maioria da população (quase 90%), entretanto, é cristã – e entre esses estão católicos e evangélicos, principais religiões no Brasil. Mas se existem tantas crenças diferentes (as de matriz africana, indígenas, orientais, islâmicas), como alguém pode dizer que sua fé é melhor?
O papa Francisco declarou recentemente que é preciso deixar de lado preconceitos pessoais e ter coragem e humildade para ser guiado pelas “surpresas” de Deus. Ao kardecista, ao judeu, ao umbandista e a tantos outros religiosos diferentes, o pontífice afirmou: “Não quero saber se a educação será resolvida pelo católico, pelo protestante ou pelo judeu. Temos que trabalhar pelos outros. Não se pode guerrear entre nós e abandoná-los”. Bonito, né?

Outras opções sexuais

Nunca é demais repetir: que diferença a opção sexual faz em nosso caráter? Por que alguém que ama uma pessoa do mesmo sexo é melhor ou pior do que quem ama o sexo oposto? Muito se caminhou em direção ao fim do preconceito. Em 2013, o público surpreendeu ao se apaixonar pelo Félix (Mateus Solano), homossexual da novela Amor à Vida. E ainda reagiu bem ao beijo gay na TV. Mas ainda há problemas: as personagens Teresa (Fernanda Montenegro) e Estela (Nathalia Timberg), casal gay de Babilônia, foram rejeitadas pelo público logo de cara. Nas últimas semanas, a Comissão Especial do Estatuto da Família,  em Brasília, aprovou um projeto de lei que define como família os casais formados por um homem e uma mulher apenas. Esse fato levantou outra vez a questão: não é hora de mudar o jeito de pensar e aceitar o próximo como ele é? E para quem sofrer algum tipo de ofensa por conta de sua opção sexual, vale o alerta: homofobia ainda não é crime, mas a difamação, calúnia e danos morais por homofobia são! Vale denunciar e cortar o mal pela raiz.