AnaMaria

Consciência Negra: você sabe o porquê essa e outras datas são celebradas?

Questionamento crítico e a empatia são fundamentais durante a vida

*Priscila Correia, do Aventuras Maternas, colunista de AnaMaria Publicado em 19/11/2021, às 09h00

A escritora Gisela de Castro, mãe de Lara, de 13 anos. - Arquivo pessoal
A escritora Gisela de Castro, mãe de Lara, de 13 anos. - Arquivo pessoal

Como todos sabem – ou deveriam saber -, amanhã, 20 de novembro, é celebrado o Dia da Consciência Negra, data cujo objetivo é relembrar um passado vergonhoso da História do Brasil, levando ao debate diferentes ações de combate ao racismo estrutural da nossa sociedade. Infelizmente, porém, enquanto muitos lutam por equidade, outros só lembram da data por ocasião do feriado. E é exatamente sobre isso que vamos conversar essa semana: afinal, seus filhos sabem o porquê de algumas datas serem celebradas?

A escritora Gisela de Castro, mãe da Lara, de 13 anos, conta que sempre conversaram muito - inclusive, foi por um questionamento da filha sobre não existirem princesas negras que ela escreveu o livro “Preta de Ébano”, publicado pela editora Zucca Books. “Sempre conversamos abertamente desde muito cedo, quando ela ainda era da pré-escola. Hoje, as conversas são políticas e históricas, mais para explicar os feriados e a datas que se referem à conscientização sobre algum tema", diz ela, ressaltando que esses papos rendem muito em casa. “É lógico que respeitando cada fase, o vocabulário da criança, com as metáforas bem colocadas, já que muitas vezes as crianças entendem por analogia. Ensinar respeito, empatia e amizade são as bases para uma sociedade menos beligerante e mais justa. Acredito que ajudá-la a entender sobre o porquê de algumas celebrações vai torna-la uma pessoa mais consciente. Afinal, o questionamento crítico e a empatia são fundamentais sempre”, complementa.

Outra mãe que sempre busca a atenção do filho para que ele compreenda sobre a importância de algumas datas é a jornalista Priscilla Silvestre, mãe de Rafael, de apenas 5 anos. “Procuro explicar o porquê de todas as datas. No entanto, mais do que falar, o que muitas vezes pode não ser útil para a compreensão da idade dele, utilizo desenhos, historinhas e vídeos para ilustrar a data. No ano passado, ele me disse que o Natal é o “nascimento de Jesus”, que ele tinha visto no desenho da Turma da Mônica. Curioso, ele questionou: “Você sabia disso, mamãe?”. Então, sempre busco explicar que determinado feriado possui um motivo e, de forma lúdica ou com outros recursos, a importância desse dia”, pontua. Ela diz, ainda, que levantar esses temas com o filho não o tornará apenas mais consciente em relação ao outro, mas também sobre si próprio, já que saberá escolher as causas e lutas que devem ser defendidas, além de distinguir o que é, de fato, algo para ser debatido do que é apenas algo passageiro. “Vivemos em um mundo capitalista, em que tudo vira comércio. Então, entendendo cada data e sua utilidade para a sociedade, ele saberá até onde ir com as suas crenças, costumes e valores”, complementa.

DE ACORDO COM A FASE
E elas estão certas. O psicólogo Rodrigo Gomes Ferreira explica que sim, é importante conversar com os filhos sobre as datas celebradas e o que significam, mas é necessário, em primeiro lugar, que se tenha uma noção real do que, de fato, se trata aquele dia. “Por exemplo, que o Dia da Mulher representa as conquistas que foram alcançadas com muitas perdas, a duras penas, e não é uma ocasião feita para se lembrar de cortejar as mulheres. Em segundo lugar, não subestime a capacidade das crianças e dos adolescentes em captarem problemas sociais relacionados à estas datas. Muitas, inclusive, já podem estar sofrendo ou presenciando, por exemplo, o racismo, mesmo sem entender. O mesmo podemos dizer sobre o machismo com meninas. Por último, principalmente no caso de crianças pequenas, desde o início da linguagem, por volta dos 3 anos, até o início da adolescência, por volta dos 10, é melhor buscar um vocabulário acessível e também analogias com coisas concretas do cotidiano da criança", diz.

Já os adolescentes, embora muitas vezes combativos na discussão, estão aptos à uma conversa direta, justamente no momento em que constroem um lugar para si na sociedade, já enfrentando todas estas questões evocadas por grande parte das datas. Quando nós, adultos, não conversamos sobre os problemas sociais, a tendência é criarmos crianças e adolescentes alienados da realidade e que provavelmente só reproduzirão os problemas estruturais. Tanto no caso dos que sofrem, quanto com os que se beneficiam e acham que este benefício é mérito próprio, e sem custo algum para outros. "E falar desde cedo sobre questões da nossa cultura, como os evocados pelas datas, vai ajudar na construção de vocabulário, de capacidade de pensamento, crítica e, sobretudo, diálogo sobre temas difíceis os quais certamente se deparará ao longo da vida”, esclarece.


'Primeiros Anos', do Canal Futura. (Crédito: Divulgação)

A importância da atuação parental na construção do indivíduo é tema da série "Primeiros Anos", do Canal Futura. O programa conta com 20 histórias de diferentes infâncias, pautadas em diversidade e vivências distintas da maternidade e paternidade. Parceria entre a Fundação Roberto Marinho e a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, que é especialista na primeira infância, a série, que estreou esta semana, no dia 16, aborda temas como representatividade negra, indígena e LGBTQIA+; desafios e preconceitos enfrentados por crianças com deficiência; saúde; imigração; e as diferentes formas de educar – um diferencial dessa trabalho é a participação de jovens idealizadores espalhados pelas cinco regiões do país, que fizeram parte do Geração Futura, uma oficina de audiovisual realizada desde 2006 pela emissora.

André Libonati, líder de projetos do Canal Futura, conta que espera que o programa gere boas e profundas discussões em casa e nas escolas, já que os episódios levantam temas importantes, como microcefalia, crianças trans, a importância do brincar, vacinação, preconceito racial, entre outros. “Eu tenho certeza que uma criança que cresce em um ambiente familiar aberto a conversas e discussões sobre direitos e deveres, se torna um adulto mais consciente e mais responsável; e também quando essa pessoa for gerar uma família, essa questão que vivenciou na infância vai passar para a próxima geração”, pontua. Paula Perim, diretora de comunicação e sensibilização da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, diz, ainda, que a série vai muito além do discurso sobre a importância do desempenho parental na garantia de todos os direitos da criança. "Primeiros Anos é uma produção muito importante porque amplia o horizonte ao colocar a criança como protagonista e sujeito de direitos. Nela, vemos a importância da fala, do estímulo, das interações da criança com o mundo que a rodeia sob a perspectiva dela, da própria da criança, e é justamente nisso que reside a grande potência dessa produção", complementa. A série traz ainda uma reflexão sobre como os primeiros anos da criança influenciam atitudes, comportamentos e a construção da personalidade ao longo da vida - novos episódios toda terça-feira, às 19h45.

O PAPEL DA ESCOLA
Quando se fala sobre a formação de indivíduos, é de extrema importância que a família e a escola caminhem juntas. A pedagoga Marina Nordi Castellani, fundadora e Diretora Pedagógica da Escola Mais, diz que, sim, é essencial explicar para as crianças sobre a importância dessas datas e por que elas acontecem. “São sempre referências históricas, culturais e religiosas, além de marcos importantes no processo da construção das civilizações. (...) O papel da educação e da escola deve ser sempre o de explorar e investigar estes contextos, trazendo luz para seu sentido, independentemente de aderir ou não às possíveis celebrações e comemorações típicas ou sugeridas para as diferentes datas. O importante é, como escola, não reproduzir nenhum ritual ou hábito sem ter a clareza de seu sentido e praticar estas situações de acordo com sua identidade, princípios e valores. Assim, a mensagem que fica para as crianças e para toda a comunidade é a de que a escola trabalha sempre a partir de intenções cuidadosamente construídas, o que contribui para que as crianças construam discernimento para, ao longo da vida, avaliar por si mesmo a quais movimentos, celebrações, rituais quer ou não aderir. Acima de tudo, conhecer a história de cada uma das datas comemorativas ou marcos civilizatórios é conhecer a diversidade cultural e valorizar a convivência”, explica.

Que o calendário das escolas, de alguns anos para cá, mudou, não há dúvidas. Quem, há 20 ou 30 anos, imaginaria escolas abordando questões de gênero, a importância da mulher na sociedade, entre outros temas? Larissa Gonçalves, que hoje está com 47 anos, é mãe de Luiza, de 11, e conta que, quando era criança/adolescente, nunca houve uma conversa mais aprofundada na escola sobre pautas que hoje são entendidas como fundamentais. “Lembro-me que no Dia do Índio, que na realidade deveria ser Dia do Indígena, nós apenas colocávamos uma fantasia e fazíamos uma apresentação para os pais. Não havia uma explicação do porque aquele dia ser tão importante. Outro exemplo era no Dia da Árvore, em que íamos ao jardim da escola plantar mudas, mas não se falava sobre a preocupação com o meio ambiente, os cuidados com o planeta etc. Hoje, vejo minha filha sendo incentivada a fazer trabalhos sobre assuntos extremamente relevantes. O último, por exemplo, foi sobre a comunidade LGBTQIA+", ressalta.

Ela lembra que o professor pediu que escolhessem um assunto para debater. "Então, conversamos em casa, assistimos documentários, e ela fez o trabalho, de forma realmente aprofundada. Tenho certeza que sua geração será muito mais empática em relação ao outro do que a minha. Fico muito feliz dela estudar em uma escola onde se incentive o aluno a pensar realmente, a compreender e enxergar o outro”, ressalta. E complementa: “já em casa, sempre que há alguma data emblemática, conversamos, pesquisamos juntas. E até o olhar dela em relação a feriados mudou. Sempre que vai chegando uma data importante e que coincida com um feriado, como 20 de novembro, ela faz questão de dizer que é importante olharmos além do dia off, que existe um porquê de celebração”.

Mas a partir de qual idade a criança já tem compreensão do que está sendo explicado? A pedagoga Adriana Tavares Passeio, coordenadora Pedagógica da Educação Infantil da Rede Daltro (Daltrinho), explica que não existe idade para a criança absorver e aprender o que é passado, pois são observadores e, desde do seus meses iniciais de vida, começam a observar, absorver e reproduzir o que é passado ou espelhado - um exemplo disso é que com meses, uma criança pode compreender o ‘não’. “Entendemos também que cada faixa etária tem sua fase de desenvolvimento, e trabalhar as explicações das datas comemorativas deve ser em uma linguagem onde a criança entenda, pois pode ajudar no seu desenvolvimento. Exemplo: se pegarmos uma criança com seus dois anos, e trabalharmos uma data como Consciência Negra através de historinhas e brincadeiras, a criança vai entender o significado e aprender sobre respeito pelo outro e convivência”, diz. Adriana pontua, ainda, que por meio dessas explicações sobre as datas comemorativas, é possível trabalhar diversas ideias, culturas e princípios, fazendo com que a criança aprenda a conviver, socializar e se conhecer.

A IMPORTÂNCIA DO SABER
Na sequência, conversamos com alguns professores e especialistas sobre assuntos que estão cada vez mais em pauta entre adolescentes e crianças. Eles falam um pouco sobre o porque determinada data é importante e os questionamentos mais comuns

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Por Janine Rodrigues, Diretora fundadora na Piraporiando. (Crédito: Arquivo pessoal)

“Esta é uma data, um mês importante, tanto para celebrar as conquistas, mas, principalmente, para refletir sobre todos os desafios e desigualdades provocadas pelo racismo. Estas reflexões deveriam ocorrer o ano todo, mas ainda vemos muitas iniciativas abordando o tema somente em novembro. (...) O racismo está na estrutura da nossa sociedade. Está na invisibilização da história e da pessoa negra na arte, cultura, educação, ciência, política etc. Por isso, desde a primeira infância, é fundamental que as crianças se relacionem com estes conteúdos, com estas histórias, para que cresçam e se eduquem a partir de uma lógica antirracista. (...) É importante lembrar que as crianças manifestam um comportamento racista quando ao seu redor algo está alimentando e incentivando este comportamento. Porque pra elas, na verdade, é algo que não faz sentido. É uma semente plantada por quem está ao seu redor, por uma sociedade racista. É comum quando falamos dos heróis, dos criadores, dos pensadores algumas crianças ficarem surpresas de serem pessoas negras. A sociedade a todo momento mostra o negro ocupando outros lugares, mas quase nunca o lugar do pensar, do construir, do intelectual. Por isso, aconselho aos pais que não falem sobre o dia 20 de novembro somente neste mês. Nós somos negros 12 meses no ano. Nossa história não cabe num único mês, num único dia. E estudem. Se interessem por conhecer a história do Brasil e como o racismo construiu as bases e relações na sociedade. O racismo é um problema social, não foi criado pelos negros e, portando, não nos cabe, sozinhos, resolver este problema”

DIA NACIONAL DE LUTA DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA
Por Flávia Albaine Farias da Costa, Defensora Pública de RO, Mestra em Direitos Humanos das PCDs, professora universitária no tema das pessoas com deficiência, além de criadora e coordenadora do projeto Juntos pela Inclusão Social.

“A importância de conversar com as crianças sobre a importância da inclusão social é a de formar essa consciência desde pequenos, para que cresçam com o comportamento e a mentalidade de que é necessário incluir, de que não devemos discriminar, de que ser diferente é normal e que elas aprendam a conviver com essas diferenças. Assim, as diferenças são tratadas sem exclusão. Porque a educação é a base, então, a maneira com que for ensinada na infância, vai se refletir no adulto que ela se tornará. (...) Muitas vezes os questionamentos das crianças acabam refletindo os preconceitos (ou “pré-conceitos”) que elas trazem da criação. Porque a criança não nasce preconceituosa, ela acaba criando preconceitos pela criação que ela tem na família, da escola, ou seja, nos diversos ambientes sociais que ela frequenta. Então, se ela foi ensinada que o coleguinha com deficiência é uma pessoa “problemática” e que ela não deve conviver com ele, ela vai questionar isso. Mas quando ela é ensinada que a diferença faz parte da sociedade, que são nas diferenças que a gente aprende a conviver, além de que devemos respeitar a diferença, ela vai lidar com tudo isso com mais naturalidade”.

DIA DA MULHER
Por Ellen Senra, psicóloga especialista em Terapia Cognitivo Comportamental e autora do livro “Autoamor: um caminho para a autoestima e regulação emocional feminina”, da Editora Conquista.

“Desde cedo, podemos ensinar as crianças a importância da luta das mulheres por reconhecimento e direitos iguais, sempre falando sobre as condições em que as mulheres viviam antes e o que conquistaram com sua luta, resultando em como podemos viver atualmente. Ensinar para os pequenos sobre o porquê da criação do Dia Internacional da Mulher, explicando de maneira correta, não dá margens para interpretações errôneas no futuro, ou seja, com os pais ensinando, ninguém poderá ensinar o contrário. Os responsáveis devem ter em mente, ao explicar, que é comum as crianças perguntaram se existe o dia do homem também e porque tem um dia especial para as mulheres, mas, em geral, aceitam bem as explicações, pois elas são mais resilientes que adultos para adquirir conhecimento. Portanto, seja franco, atenham-se aos fatos. Isso vale não só para o Dia das Mulheres. É também importante falarmos para as nossas crianças sobre as origens de todas as datas comemorativas que temos e esse ensinamento deve partir de casa”

DIA DA CULTURA E DIA DO SACI
Por Priscila Ximenes Souza do Nascimento, Doutora em Educação e Professora do Curso de Licenciatura em Pedagogia da PUCPR.

“Tratar sobre as datas comemorativas, no geral, tem grande importância na formação das crianças por ser uma oportunidade delas compreenderem a construção histórica da sociedade, marcada no tempo e no espaço. Especificamente, o Dia da Cultura e o Dia do Saci possibilitam conhecerem elementos dessa construção histórica do povo brasileiro e se perceberem como integrantes dessa sociedade, além de participantes dessa construção. (...) Conhecer as manifestações culturais de nosso país enriquece o olhar da criança sobre a identidade do nosso povo e a sua própria identidade, contribuindo na valorização e análise crítica da história, ou seja, com critérios e respeitando as diferentes expressões e modos de vida. Portanto, é importante a família conversar sobre nossa cultura sempre que a criança mencione algo a respeito, pois isso demonstra o interesse dela pelo assunto. Caso isso não ocorra, mas a família deseje tratar do tema e ensinar as crianças, aconselho que comece fazendo perguntas para provocar a curiosidade e assim ter a atenção delas. Perguntas do tipo: “Você já ouviu falar de uma criatura que protege as florestas e os animais que vivem nelas?” (Caipora), “Já pensou se pudéssemos ter poderes mágicos para encontrar coisas e animais perdidos?” (Negrinho do Pastoreio). Uma estratégia interessante para aprofundar o assunto e se divertir em família é buscar por músicas, brincadeiras, momentos de leitura e contação de histórias, encenações teatrais com marionetes, com sombra, construção de brinquedos e preparação de receitas culinárias que estejam relacionados aos elementos culturais do povo brasileiro. Cabe ainda destacar a relevância de explorarmos às referências da nossa cultura aos costumes de povos indígenas, africanos e europeus. (...) É muito legal quando as famílias e/ou as escolas promovem passeios pela cidade para conhecer marcos históricos e culturais da vida local. Também é bastante enriquecedor quando as crianças têm a oportunidade de participar de oficinas com artistas locais e moradores antigos da cidade para aprender e participar da produção cultural como, por exemplo, artesãos, grupos de capoeira, de dança, contadores de histórias, cozinheiras de comidas típicas, entre outras.”

DIA DO ÍNDIO
Por Cristine Gonzaga, Professora de História e Sociologia nas redes pública e na Rede Daltro Educacional.

“Primeiramente, falar em ‘Dia do índio’ já não é o termo correto, pois não existe dia do índio e sim do indígena, dos povos indígenas, já que quando os europeus chegaram em nosso território, já existia uma vasta comunidade indígena vivendo aqui. Por uma questão histórica e cultural, o Dia do índio deve existir, mas no que diz respeito a conscientizar, mostrar a cultura das diversas comunidades indígenas, a importância dessas comunidades para o povo brasileiro, penso que é válido, mas aquela comemoração de colocar a criança com um cocar e de rosto pintado é muito pouco. A data precisa ser celebrada aprofundando o conhecimento indígena em nossa cultura para que a cultura indígena se perpetue para as futuras gerações do povo brasileiro. (...) Quando você conversa sobre a formação do Brasil, da importância dos povos indígenas e sobre a cultura desses povos para a nossa construção social e cultural, acredito que são explicações muito importantes. Mas quando ensinam querendo passar uma imagem de que os povos indígenas são inocentes ou que atrapalham o desenvolvimento do país e que estão ali somente pra cumprir o papel de uma data, neste caso, é um desserviço à educação. Quando conversamos sobre esse tema com os alunos, precisamos abordar a preservação das florestas; o respeito às comunidades indígenas, que, ultimamente, vêm sendo tão afetadas por madeireiros, grileiros, garimpeiros ilegais e tantas pessoas que querem destruir a riqueza das terras indígenas.

Nós, enquanto educadores, precisamos lembrar sempre que os indígenas são os verdadeiros donos do nosso território. Quando os europeus chegaram, os indígenas já habitavam as terras brasileiras. Sabemos que o desenvolvimento do país faz parte de uma evolução, mas todo país que se preze, valoriza a sua história e precisamos fazer o mesmo. Portanto, é imprescindível cultuar e preservar as culturas indígenas e desenvolver nas nossas crianças respeito, solidariedade e empatia a esses povos. Devemos desenvolver essa consciência não somente aos povos indígenas, mas também aos povos de origem africana, e de todos os povos que se misturam compondo a sociedade brasileira. Eu sempre falo para os meus alunos que eu não cobro datas, porém, há datas que precisam ser lembradas pelo seu valor histórico e como refletem ao longo da nossa história. (...) Os pequenos sempre questionam o fato da história do Brasil começar a ser contada a partir da chegada dos povos europeus. Então, explico que a história era oral ou então feita através das pinturas rupestres. Há também muita curiosidade em relação às línguas, que são muitas. Ou questionamentos sobre "porque eles não usam roupas?" ou "o que eles fazem para sobreviver?". A partir daí, precisamos explicar desde o início da colonização um "entrosamento" baseado na cordialidade. Mas, ao longo do tempo, vamos percebendo que a visão que o indígena tem de terra, de trabalho, de natureza, é muito diferente da visão do chamado "homem branco".

Nestas diferenças, conseguimos passar para os pequenos o olhar do indígena, a forma com que se relaciona com a terra e com a natureza, as diferenças culturais entre as tribos. Eles gostam de perguntar também sobre as tribos antropofágicas, que, segundo eles "comiam gente", em que também precisamos explicar que isso fazia parte de rituais culturais, que podemos explicar a partir das lendas indígenas. Percebo a necessidade de desconstruir a visão de muitas crianças de que os índios são coitadinhos. Já que mesmo sofrendo com a perda de terras, possuem uma vasta cultura, uma história que perpetua sua importância em nossa sociedade. Ensinar e debater esse assunto é muito pertinente na formação do cidadão. Portanto, meu conselho é que os pais conversem muito com seus filhos sobre todas as datas importantes, mas sobretudo sobre a história em si. O dia em que o povo brasileiro parar de achar que o importante na vida é saber ler, escrever e fazer conta, e entender que matérias como História, Geografia, Sociologia, entre outras, são importantes na formação de jovens pensantes e críticos, que não se deixam enganar, com certeza construiremos uma sociedade mais justa e igualitária”.

DIA DO ORGULHO LGBTQI+
Por Juliano Coimbra, psicólogo, especialista em Sexualidade Humana, membro da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana (SBRASH), coordenador no estado do Espírito Santo do Dia Mundial de Saúde Sexual pela World Association For Sexual Health, representante do Brasil no Comitê de Jovens Sexólogos da Federación Latinoamericana de Sociedades de Sexología y Educación Sexual e Professor em cursos de pós-graduação e graduação nas áreas de educação, saúde, psicologia e gestão.

“O primeiro espaço de socialização de uma criança é o lar. É em casa que os primeiros questionamentos sobre o mundo vão aparecer. Sendo assim, precisamos conversar sobre as diferenças que existem na humanidade, inclusive sobre sexualidade, para que quando se depararem com uma determinada situação não se sintam ‘perdidas’. Quando se conversa sobre as diferenças em casa, a criança, ao se deparar com pessoas com orientações sexuais diferentes, vão lidar com naturalidade. Nós podemos falar sobre tudo que acreditamos para os nossos filhos, só não podemos falar inverdades. Por exemplo, eu falar com a criança que a masturbação gera espinha é algo completamente contraditório, errado, isso não existe, é um mito. Agora, eu posso falar para a criança que a masturbação vai propiciar prazer, embora não ache legal ela fazer com aquela idade. Ou seja, uma coisa é falar uma inverdade, que quando essa criança crescer vai poder avaliar, entender que é uma mentira e colocar em xeque a educação que recebeu dos pais; outra é dizer a verdade é mostrar que é algo que não tenha que pensar a respeito ainda. Então, a educação precisa ser feita com transparência. Os pais têm direito de falar todas as suas crenças e seus valores para os filhos. Porém, esses valores precisam ser descritos enquanto valores. (...) Quando eu preparo meu filho para lidar com as diferenças, automaticamente esse indivíduo vai ser muito mais humanizado.

Ele estará melhor preparado para lidar com as adversidades da vida. É sabido, também, que quando um indivíduo recebe uma excelente educação em sexualidade na infância, ele começa a entender o processo gradativamente - pesquisas mostram, inclusive, que a experiência sexual, às vezes, torna-se muito mais retardatária do que precoce. (...) Ao abordar datas como o Dia do Orgulho LGBTQI+, os questionamentos que costumam surgir quando veem um casal de dois homens ou de duas mulheres, ou na escola, quando veem coleguinhas com dois pais ou duas mães, não aparecem mais, porque eles entendem aqueles casais como qualquer outro. A primeira coisa que a gente precisa entender é que as crianças não têm maldade, e quando a maldade não foi instaurada na cabeça dessa criança, ela vai ver tudo de forma natural. Vale lembrar ainda que falar sobre sexualidade na infância é falar sobre a descoberta do corpo. Nós, como adultos, depois da puberdade, é que erotizamos as coisas. Mas as crianças veem só como reconhecimento de corpo. Muitos pais se preocupam tanto com as respostas, que acabam não entendendo o que a criança realmente está querendo saber.

Então, perguntem mais. “O que você quer saber com isso?”, “Qual é a sua dúvida?”. Esteja aberto às possibilidades para que as crianças possam perguntar e seja sempre honesto ao responder. Por meio da transparência, da clareza e da delicadeza do falar sobre o assunto que a criança vai entender e compreender. E caso tenha dúvida, diga que não sabe a resposta, que vai pesquisar, mas realmente pesquise e depois retorne para seu filho com a resposta. Não esqueça de dar esse retorno, porque a criança vai ficar esperando. Se você prorroga a resposta, essa criança pode entender isso como uma fuga também sua e ela vai atrás da resposta em outros meios. E isso, sim, pode ser perigoso. Ser transparente deve estar acima de todas as coisas. (...) Às vezes, estamos tão preocupados com a orientação sexual do outro, que esquecemos de fazer a educação em sexualidade baseada no que é seguro e saudável. Falar das diferenças não precisa ser um bicho de sete cabeças, significa apenas que estou mostrando para meu filho que há diferenças na sociedade e que é preciso respeita-las”.

DIA DO MEIO AMBIENTE
Por Thiago Souto Maior, Professor de Biologia e Ciências da Rede Daltro Educacional.

“Conversar com as crianças sobre o Dia do Meio Ambiente é extremamente importante, pois contribui para a conscientização dos pequenos sobre o lugar onde vivemos. Além disso, falar sobre o tema pode estimular nelas viver de forma sustentável, pois o conhecimento leva a reflexão e a reflexão a mudança de hábitos. Percebo um interesse maior dos alunos ao falarmos sobre os animais, questionando muito sobre quando ou porque tal animal foi extinto, quais mais possuem o risco de entrar em extinção e como protege-los. Ou seja, ainda que inconscientemente, as crianças se preocupam com o meio ambiente. Por isso sempre sugiro aos pais adotarem junto aos filhos algumas simples medidas sustentáveis em casa, como desligar a torneira enquanto escova os dentes, evitar usar copos descartáveis, apagar as luzes, não demorar no chuveiro, deixar para depois a compra daquele celular novo se não existe a real necessidade de comprar agora. São hábitos que podem entrar no nosso dia a dia e, ao explicar o porquê dessas atitudes para os filhos, certamente também podem ensinar sobre sustentabilidade e proteção do nosso planeta”.

[Colaboração Alessandra Ceroy]

*PRISCILA CORREIA é jornalista, especializada no segmento materno-infantil. Entusiasta do empreendedorismo materno e da parentalidade positiva, é criadora do Aventuras Maternas, com conteúdo sobre educação infantil, responsabilidade social, saúde na infância, entre outros temas. Instagram:@aventurasmaternas