O racismo está no cotidiano (e a gente nem percebe)

O preconceito racial pode ser por meio de palavras duras e diretas, mas também se esconde em expressões do dia a dia – e com isso ganha força para se perpetuar. Mude de hábitos

Ana Bardella

O racismo está no cotidiano (e a gente nem percebe) | <i>Crédito: Globo/Raquel Cunha
O racismo está no cotidiano (e a gente nem percebe) | Crédito: Globo/Raquel Cunha

"Eu nunca quero ter um neto negro.” “Meu filho não pode se casar com uma mulher negra e pobre.” As expressões usadas pela personagem Nádia (Eliane Giardini) em O Outro Lado do Paraíso ao se referir à doméstica Raquel (Erika Januza) deixam claro o preconceito da esposa do juiz em relação aos negros. As cenas são tão fortes que as atrizes já declararam em entrevistas que se sentem mal depois de graválas e muitas vezes se abraçam ao final dos trabalhos, demonstrando o carinho que sentem fora de cena uma pela outra. No caso da mãe de Bruno (Caio Paduan), é fácil reconhecer o racismo presente em seus discursos, afinal, ela não perde a oportunidade de humilhar sua funcionária devido à cor de sua pele. No entanto, o problema tem raízes profundas e muitas vezes pode ser camuflado nas expressões presentes em nosso dia a dia. Veja alguns exemplos:


“Mas ele não é negro, só é mais moreno...”

De acordo com Juliana Serzedello Crespim Lopes, historiadora e professora do Instituto Federal de São Paulo, quem usa essa expressão
acredita que pode inferiorizar aos demais ao caracterizá-los como sendo negros, uma vez que considera o termo pejorativo. É como se estivesse tentando “amenizar” uma ofensa. Justamente por isso, a expressão parte de um princípio racista. Nesse caso, é preciso lembrar que a negritude não é ofensiva: trata-se de uma característica e envolve elementos culturais dos quais as pessoas têm o direito de se orgulharem de possuir.

 

“Eu sou branco e também sofro racismo”

“Tal afirmação parte do princípio do racismo reverso, um processo que não existe”, explica Juliana. É possível que uma pessoa de pele branca se sinta individualmente ofendida por algo que a outra disse, como ser chamado de “branquelo” na infância, por exemplo. Mas comparar tais
xingamentos ao racismo é um erro. Para entender o porquê é preciso olhar com cautela para o passado: desde as épocas mais antigas, quando começamos a ser colonizados e os negros passaram a ser trazidos da África para serem escravizados, o racismo se alastrou como uma ferramenta de dominação de um povo sobre outro. “Ofender um menino negro na escola, por exemplo, não é só magoá-lo. É também trazer à tona 300 anos de uma história na qual seus antepassados foram colocados no lugar de subalternos”, ressalta a especialista.

 

“Aquela menina tem cabelo ruim”

Já parou para pensar sobre a definição de ruim? Em geral, ela está relacionada às características dos fios crespos, que pertencem à negritude. Enquanto os “bons” são os lisos, presentes em pessoas brancas, ideia que se baseia no racismo. “O problema vai além da ofensa por si só. Muitos homens e mulheres são obrigados a manter seus cabelos presos, alisados (ou até raspá-los, no caso masculino) porque têm dificuldade de se inserirem no mercado de trabalho graças a essa característica, que pode não ser considerada adequada pelas empresas”, lembra a historiadora.

 

“A coisa está preta” ou “Inveja branca”

Ambas as expressões carregam o conceito de que se uma coisa é preta, ela é ruim. “Essa ideia se reproduz com facilidade na nossa sociedade”, diz Juliana. O mesmo se aplica para os termos “coisa de preto”, “serviço de preto”, “tinha que ser preto”, entre tantos outros que escutamos. A origem das expressões está na escravidão. “Apesar de escravos serem especializados em seu trabalho e realizá-los muito bem, tais palavras eram usadas para difundir a ideia de que os negros só poderiam exercer suas funções à base do chicote”, ressalta Juliana. Ou seja, essas ideias eram usadas para justificar a violência contra negros. Apesar de nascerem sob as condições desumanas da escravidão, seus reflexos podem ser notados até hoje, se considerarmos que, de acordo com um estudo realizado pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras.

 

“Não se pode falar mais nada, agora tudo é racismo”

Mais uma vez precisamos olhar para a história do país. Antes de a democracia se estabelecer, vivíamos uma ditadura. Por causa disso, os
movimentos sociais não tinham vez e não ganhavam visibilidade. Há pouco mais de três décadas é que começamos a viver a democracia de
fato e tanto as liberdades individuais quanto os movimentos das minorias começaram a ganhar voz. “Por causa disso, passamos a reconhecer o racismo que sempre esteve presente, mas que antes não era discutido”, explica a historiadora. Ou seja, o problema já estava lá! Mas só agora passamos a falar mais sobre ele.

 

"As pessoas acham que porque eu sou atriz eu não passo por isso. Basta ser negro para passar por isso”
Erika Januza, atriz

RACISMO É CRIME! DENUNCIE

27/11/2017 - 14:19

Conecte-se

Revista Ana Maria