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Violência nas escolas e até no Oscar: entenda como o bullying é prejudicial

Este é o nosso manifesto pela não violência infantil e sobre como tratar a questão com nossas crianças

*Priscila Correia, do Aventuras Maternas, colunista de AnaMaria Digital Publicado em 01/04/2022, às 08h00

Os casos podem parecer isolados e sem conexão, mas o bullying explica muitos casos. - Eliott Reyna/Unsplash
Os casos podem parecer isolados e sem conexão, mas o bullying explica muitos casos. - Eliott Reyna/Unsplash

Fomos, literalmente, inundados com notícias sobre violência nos últimos dias. Domingo (27) passado, por exemplo, uma matéria exibida no ‘Fantástico’ falou sobre o aumento da violência nas escolas, desde o início do ano letivo. Houve ainda o caso do aluno que foi preso com arma de airsoft e facas – mesmo adulto, também era um estudante. Fora a garota que foi esfaqueada por um colega. No mesmo dia, para piorar, o ator Will Smith deu um tapa na cara do comediante Chris Rock em plena cerimônia do Oscar.

Os casos podem parecer isolados e sem conexão. Afinal, o que teria a ver bullying entre crianças com a briga (ao que parece, antiga) entre dois astros de Hollywood? Violência escolar, é claro, nos afeta, como mães, diretamente. Já o que aconteceu no Oscar gera um debate que funciona como uma espécie de espelho, pois o que gerou a agressão foi, sim, bullying contra uma mulher em situação de saúde vulnerável.

Na coluna desta semana, já abordaríamos o assunto bullying, mas de uma forma diferente, tentando traçar uma forma de ajudar quem pratica, e não apenas que recebe (sim, crianças que praticam bullying, quase sempre, apresentam um fator extremamente sério por trás). Mas diante dos acontecimentos desses últimos dias, é preciso falar mais sobre a ótica de quem sofre com o ato. E semana que vem traremos a pauta sob a ótica de quem pratica, afinal, como mães e pais, precisamos estar preparados para lidar com todas as situações, que podem acontecer. Afinal, na parentalidade, temos sempre “telhado de vidro”.

AGRESSÃO FÍSICA QUE DÓI NA ALMA

adolescente triste
Crédito: Unsplash

Embora nem todos os casos de bullying envolvam agressão física, o estresse psicológico que as crianças sofrem em casos assim é devastador. Andressa Machado, hoje com 36 anos, conta que, na época da escola, era muito tímida e os colegas sempre debochavam dela. Sem amigos, se isolava cada vez mais e pensou até em tirar a própria vida. A gota d’água foi em uma excursão, aos 13 anos, quando ela dormiu de boca aberta no ônibus e, por isso, ganhou um apelido bobo.

"Depois disso, o que já era ruim, ficou pior. E como meus pais não entendiam, estava insuportável de aturar, pois sempre achavam que eu havia feito algo ou estava exagerando. Pensei algumas vezes em acabar de vez com aquele sofrimento. Minha ‘sorte’ foi que uma menina da sala, que era do grupo mais popular da escola, viu uma vez as pessoas debochando de mim e foi falar comigo. Conversamos e ela acabou ficando minha amiga. Depois disso, as pessoas passaram a me tratar melhor. Mas sempre tinha medo de me rejeitarem. Hoje, tantos anos depois, ainda tenho esse medo de rejeição e pavor de qualquer apelido que possam colocar em mim. Fico com pânico mesmo. E sempre me pergunto: e se aquela menina não tivesse vindo falar comigo? Sinceramente, acho que não teria aguentado mais um ano de escola”, conta.

Artur*, de 10 anos, filho de Laura*, tem sofrido ataques constantes no colégio. Além dos amigos se recusarem a brincar com ele (o menino, devido à pandemia, continua usando máscara na escola, e as outras crianças chegam a tossir em cima dele para implicar), há o impacto direto na aprendizagem, pois o garoto chega todos os dias com alguma reclamação e fica triste, claro! A mãe tenta acalmar, dizendo que os outros é que estão perdendo em não brincarem junto.

"Mas sei como ele fica mal e sofre muito por não ter amigos. Eu, como mãe, além de triste pelo meu filho não ter vida social lá, fico apavorada, porque tenho medo de algum desses meninos machucarem ele, pois já houve um episódio antes da pandemia. E a escola nada faz. Diz que vai chamar os responsáveis pelas outras crianças, conversar, mas nada muda de fato. O pavor do bullying não afeta apenas as crianças, mas as famílias também”, lamenta, antes de complementar: “Como moro em uma cidade pequena, a possibilidade do meu filho mudar de escola inexiste. Muitas vezes, inclusive, acho que a coordenação ‘não liga’ para o problema por saber que é a única instituição com ensino de qualidade da região. Ou seja, meu filho vai sair perdendo de qualquer forma, se mudarmos de escola ou continuarmos lá. Seguimos tentando o diálogo.”

Antes de tudo, é preciso salientar que o bullying é uma violência e, como toda violência, gera sofrimento psíquico às vítimas. Marina Dias Lelis Monteiro, psicóloga da Vibe Saúde, explica que existem três tipos principais de bullying: o físico, o psicológico e o indireto. O primeiro inclui as agressões físicas, como empurrões, chutes e socos. O segundo envolve agressões verbais, ou seja, provocações, apelidos, boatos maldosos. E o terceiro, o bullying indireto, inclui comportamentos de excluir ou rejeitar alguém de um grupo, como ser deixado fora do grupo ou ignorado.

"Estudos mostram que as agressões verbais são mais comuns do que as agressões físicas, sendo estas formas sutis de agressividade e, consequentemente, difíceis de identificar e intervir. Além disso, em muitos casos, é entendida como uma forma de brincadeira. No que diz respeito às consequências do bullying, estudos evidenciam dificuldades de socialização, baixo rendimento escolar, baixa autoestima e elevação dos sintomas depressivos e de ansiedade”, diz. Além disso, ela comenta que o bullying está entre os fatores de risco para os futuros problemas psiquiátricos e é forte tendência ao risco de depressão e do suicídio entre os jovens e adolescentes.

A também psicóloga Daniela de Oliveira diz, ainda, que esse padrão repetitivo e distinto de machucar e humilhar uma pessoa tem como vítima, geralmente, os tidos como mais frágeis diante dos padrões estabelecidos dentro de um grupo ou sociedade. “Essa intimidação, que pode ser feita por intimidação, exclusão, manipulação, agressão verbal ou física, gera consequências muito ruins e difíceis para as pessoas, especialmente para as crianças, que ainda não têm pleno entendimento da vida, causando sentimentos de impotência, medo, pânico, insegurança e apreensão”, esclarece.

Além disso, há casos em que as vítimas de bullying permanecem em silêncio sobre o ocorrido, tanto pelo medo do julgamento externo, por sentirem-se desamparadas, como também pelo sentimento de inferioridade de não se sentirem fortes o suficiente para lidar e encerrar a situação. “E, infelizmente como consequência, podemos ter o fato das agressões aumentarem. Costumeiramente, as crianças vítimas de bullying são mais introspectivas e facilmente irritáveis, tendo a falta de paciência como uma característica. As vítimas podem não querer ir à escola, apresentar alterações de humor, dificuldade de concentração, piores resultados na escola e apresentar queixas físicas. Como também, em casos graves, podemos ter quadros e níveis variados de depressão, bulimia, anorexia, síndrome do pânico, automutilação e suicídio”, complementa Michelle Cristine Tomaz de Oliveira, psicóloga e diretora clínica da CLIA.

AMBIENTE INCONTROLÁVEL

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Crédito: Unsplash

Os programas, séries e filmes em serviços de streaming e Youtube e as redes sociais já fazem parte da vida das crianças. E por mais que os pais tentem que os filhos tenham menos contato com esses dispositivos, mantê-los longe por completo é impossível, já que até as atividades escolares, por vezes, perpassam por esses gadgets.

Obviamente que limites devem ser dados e alguns programas devem ser absolutamente proibidos (inclusive, já falamos sobre isso aqui na coluna, como na época que estourou a série 'Round 6', que mesmo com classificação indicativa acima de 16 anos, virou assunto entre crianças mais novas). Mas o que fazer quando os exemplos de violência aparecem a todo o momento, sem que a gente tenha controle? Como limitar o acesso dos nossos filhos, por exemplo, a notícias que todos estão comentando?

É preciso que os pais tenham controle dos filhos na hora de acessarem as redes sociais não apenas em relação a pornografia infantil ou pedófilos, que é o que normalmente os responsáveis têm medo, mas em relação à violência contida ali, mesmo que não seja em jogos ou ficção de uma forma geral. Muitas vezes, posts de brigas, discussões e brincadeiras violentas podem ser gatilhos para bullying. A criança olha, associa a outra determinada criança, e no dia seguinte vai com tudo para debochar, maltratar etc. Afinal, quando ele viu determinado vídeo na internet, todos estavam comentando ou achando engraçado e ele quer ter essa ‘fama’ instantânea também. E isso é perigosíssimo.

Outro problema que pode acontecer relacionado ao acesso de crianças e adolescentes aos meios digitais é o da criança se sentir “por fora” do assunto. E, consequentemente, isso também gerar bullying. Hoje em dia, Instagram e Tiktok são os principais meios de diversão da garotada no mundo digital. Quando uma criança não sabe o que está acontecendo por ali, seja porque os pais proíbem ou simplesmente porque não têm interesse, os colegas da escola ou do condomínio (ou de qualquer outro ambiente) podem começar a questionar como aquela criança não sabe sobre um determinado canal ou não conhece uma celebridade. E aí, se o intuito for arranjar um motivo para pegar no pé do outro, será um cenário muito provável para acontecer bullying.

E é por isso que cenas como as que aconteceram no Oscar, que deram o que falar essa semana, são tão perigosas. Elas, de alguma forma, podem legitimar a violência. E aqui não estou dizendo se concordo com o ator ou não, mas em como aquele ato pode reverberar na cabeça dos nossos filhos, de que forma situações assim podem, de alguma forma, passar para a criança que, em caso de bullying, a agressão física resolve.

“O seu filho não deve tolerar o bullying de forma alguma e nem mesmo responder aos atos agressivos promovendo vinganças e comportamentos agressivos. O ideal é marcar uma reunião com os coordenadores e professores da escola para encontrar uma solução conjunta. Nessa situação, seja paciente e mantenha contato constante com a escola enquanto o problema se resolve. Na reunião da escola os pais podem sugerir que haja um reforço da supervisão de adultos nas áreas onde as situações de bullying costumavam acontecer. Nesse momento, é fundamental oferecer atenção e acolhimento ao seu filho, mostrando a ele que não está sozinho e tem o seu apoio”, diz Michelle Cristine Tomaz de Oliveira, da CLIA.

Mas como, afinal, podemos ajudar nossos filhos? Para Marina Dias Lelis Monteiro, é preciso validar o sofrimento e as emoções trazidas pelas crianças que são vítimas do bullying escolar. “É fundamental que os pais abram espaços para escutar as vivências de seus filhos, oferecendo a eles o tempo e o espaço para se expressarem completamente e se sentirem compreendidos, desapegando de qualquer julgamento”, diz. Além disso, é preciso evitar conselhos, como “acho que você deveria…” ou “por que você não agiu assim ou assado?; e não consolar, com frases como “Anime-se. Não se sinta tão mal”, “Foi só uma brincadeira”; ou interrogar, perguntando quando algo começou. “Ofereça uma escuta empática, com presença e atenção, para que você possa entrar em contato com os sentimentos e necessidades únicas de seus filhos”, complementa.

Para Daniela de Oliveira, os pais devem estar sempre atentos aos seus filhos e perguntar aos professores o que está acontecendo em sala de aula e fora dela. “Podem conversar com os filhos, ter diálogos abertos sobre o tema, acolher as emoções das crianças e conversar e traçar estratégias com a escola e professores. Ensinar seus filhos habilidades sociais e desenvolver sua autoestima, perguntar sobre desafios sociais e ensaiar possíveis saídas. E, se nenhuma estratégia estiver funcionando, afastar a criança do ambiente em que o bullying ocorre. É importante lembrar que uma vez identificado, deve-se analisar o grau de duração e intensidade do bullying, e dependendo do que está acontecendo, a melhor saída é afastar a criança do ambiente”, alerta.

DICAS PRÁTICAS PARA ABORDAR O TEMA

Conversar com nossos filhos sobre bullying é extremamente necessário. Abaixo, Marina, da Vibe Saúde, dá algumas dicas sobre como os pais devem agir.

  1. Fique atento às mudanças de comportamentos de seu filho: como ele reage ao ir para escola; como ele se sente;
  2. Pergunte para o seu filho como ele se sente na escola e como são suas relações;
  3. Escute sobre as vivências escolares de seu filho;
  4. Busque compreender o que ele conhece sobre o tema bullying;
  5. Ofereça apoio, acolhimento e suporte caso perceba que seu filho é vítima de bullying escolar;
  6. Procure por ajuda profissional.
  7. Recorra ao ambiente escolar para que possam expandir e promover intervenções, junto à escola, relacionadas à temática.

E para os pais que querem começar um papo direto com os filhos sobre o assunto, independentemente da criança praticar, sofrer ou nunca ter presenciado o bullying, Michelle Cristine Tomaz de Oliveira dá 10 dicas de perguntas que podem ajudar a entrar no papo:

  1. Você tem medo de algum colega seu?
  2. Na escola já falaram sobre o bullying?
  3. Porque você acha que as pessoas fazem bullying?
  4. Como são as crianças que fazem bullying?
  5. Você já sentiu medo alguma vez de ir para escola por ter receio de algum coleguinha?
  6. Você acha que a mamãe e o papai podem te ajudar em uma situação de bullying?
  7. O que você acha que pode fazer para evitar situações de bullying?
  8. Você brinca de que na escola?
  9. Já deixou algum colega de fora, de propósito?
  10. O que você faz quando vê uma situação de bullying na sua escola?

“É importante deixar claro que o espaço para diálogo deve ser sempre aberto, independentemente do assunto. Muitos de nós temos o costume de “passar a agenda” com nossos filhos, ou seja, ter conversas focados no que foi feito e no que se deixou de fazer no dia, mas abrimos pouco espaço para as falas das emoções. Perguntas abertas como “O que foi divertido em seu dia? O que não foi tão bom assim? O que te deixou alegre hoje? Alguma coisa o deixou triste?” são perguntas que abrem espaço para conversas sobre como a criança pode lidar com suas emoções, desenvolver empatia, compaixão e habilidades sociais.

O bullying é um assunto que está no dia-a-dia das crianças e pode aparecer quando temos esse espaço de diálogo aberto nas famílias. É importante também que os pais estejam atentos aos filhos, observando as brincadeiras da criança e seu humor. Muitas vezes, os pequenos não sabem dizer o que estão sentindo. Portanto, cabe aos adultos ajudá-los a identificar e nomear as emoções. É fundamental também acolher as emoções, sem classifica-las como boas ou ruins, e não replicar frases como “deixa isso para lá”, “não precisa chorar por isso”, “isso não foi nada”.

Não diminua o que a criança está sentindo. Pelo contrário: ajude-a a entender seus sentimentos e criar estratégias para lidar com eles de maneira assertiva. Mas, para isso, o adulto precisa saber fazê-lo em si. Ou seja, para uma criança se desenvolver emocional e socialmente, é preciso que haja adultos por perto que também se conheçam, e saibam nomear e regular suas emoções. As crianças não aprendem apenas pela fala, mas muito mais pelo exemplo”, conclui Daniela de Oliveira.

Em tempo: “Precisamos falar mais sobre o bullying com o intuito de prevenção. Não apenas abordarmos a temática com as vítimas, mas com todos os envolvidos, os agressores e as testemunhas que também sofrem com o fenômeno. Ser vítima de bullying é algo sério e que não deve ser visto como “brincadeiras que fazem parte da idade”, uma vez que impacta significativamente a vida desses jovens, com danos psicológicos, emocionais e comportamentais”, lembra Marina Dias Lelis Monteiro, psicóloga da Vibe Saúde.

*PRISCILA CORREIA é jornalista, especializada no segmento materno-infantil. Entusiasta do empreendedorismo materno e da parentalidade positiva, é criadora do Aventuras Maternas, com conteúdo sobre educação infantil, responsabilidade social, saúde na infância, entre outros temas. Instagram:@aventurasmaternas