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Ataques machistas, red pill e violência pelas redes: Claudia Campolina rebate tudo com humor

A atriz e humorista Claudia Campolina se dedica a ironizar o machismo nas redes sociais

Claudia Campolina é a criadora da websérie 'Mundo Invertido' - Foto: Bruna Hasktol
Claudia Campolina é a criadora da websérie 'Mundo Invertido' - Foto: Bruna Hasktol

O termo “red pill” ficou em alta nas redes sociais nos últimos meses, após viralizar um vídeo no qual um coach de relacionamentos falava sobre a suposta superioridade do homem diante da mulher. Isso acendeu um alerta para ataques machistas e movimentos misóginos ganharem ainda mais força na internet. A atriz Claudia Campolinadecidiu rebater todo esse chorume com muito bom humor, escancarando situações desagradáveis - mas muito comuns - que permeiam a rotina das mulheres.

Para isso, criou a websérie “Mundo Invertido” com o intuito de expor falas e situações machistas sofridas por elas - no entanto, tudo é feito às avessas, colocando uma mulher fazendo o papel de um homem. Claudia explica seu processo de criação: “Peguei a cultura do machismo e fiz se voltar contra os homens, criando um mundo próprio, matriarcal e opressor.”

Com um vocabulário e uma lógica próprias, ela começou a fazer sucesso nas redes sociais logo no primeiro vídeo, quando pegou frases normalizadas no dia a dia, como “isso é coisa de mulherzinha”, e inverteu a situação. Diante do sucesso, internautas começaram a pedir sequências, e Campolina foi aprimorando o ‘Mundo Invertido’.

@claudiacampolina_#feminismo#fy#paravc♬ som original - ClaudiaCampolina_

CONFINAMENTO CRIATIVO

Tudo começou durante o confinamento causado pela pandemia da covid-19. Por ser atriz, ela sentia falta do contato direto com o público, no teatro, ou com outros profissionais em um set de gravações. “Era impossível fazer qualquer coisa, o que me deu uma frustração e um desespero de não ter como pagar minhas contas, além de não fazer o que eu mais amo”, conta.

Diante do cenário, decidiu migrar para a internet e criou as webséries ‘A Exausta’, sobre uma influenciadora digital que está sempre cansada por coisas frívolas, e ‘Mundo Invertido’, uma paródia de pessoas machistas ao contrário - ou “femistas”, no mundo criado por Campolina.

O momento de confinamento foi um dos fatores decisivos para que a atriz começasse um projeto de comédia - além de sua própria vontade de retornar ao gênero após ter participado de algumas produções de drama. Apesar disso, ela ressalta que vivíamos em um momento causado tanto pelo auge da pandemia, quanto pela situação política do Brasil, super instável e polarizada.

“Pensei: ‘Se eu entro de uma maneira séria demais, ainda mais em rede social, onde as pessoas estão cansadas, isso não vai ter o alcance que eu quero’”, explica Claudia sobre a opção de trabalhar com comédia: “Também acho que ela dá uma rasteira nas pessoas, porque você está rindo, quando toma uma invertida e logo está pensando em alguma coisa séria.”

Mesmo tendo iniciado com parte do plano definido, Claudia Campolina ressalta que a série foi tomando forma com o público, já que ela não começou com um roteiro e uma quantidade de episódios definida. Assim, pôde construir seu universo “femista”, que tem como protagonista uma mulher intolerante, que mexe com o calcanhar de Aquiles dos machistas, quando toca em temas como impotência [que a personagem chama de “pingola gasta”] e calvície.

“Eles adoram falar que as mulheres não podem mais reproduzir depois de tal idade - como se relação sexual estivesse ligada a reprodução. Aí, pego isso e falo: ‘Bom, eu posso fazer sexo pelo resto da minha vida, agora o homem não, porque a potência vai diminuir’”, explica. Claudia também pega o etarismo, por exemplo, e muda o foco para eles em seus vídeos. “Ruga, flacidez e cabelo branco vão chegar para todo mundo, mas não é justo porque isso só pesa para a mulher.”

CRÍTICAS E RED PILLS

Desde quando lançou o primeiro vídeo, em 2021, Claudia afirma já ter consciência das críticas que receberia via redes sociais. De forma geral, são dois tipos: aqueles que não entendem a ironia do texto e os que se sentem ofendidos. Em retaliação, enquanto muitos tentam afetar sua autoestima, outros mandam fotos com o pênis duro via mensagem direta - arquivos que ela garante nem abrir. Também conta já ter recebido ligações de desconhecidos no meio da madrugada. “É uma baixaria inacreditável, mas acredito que 95% das críticas que eu recebo vem de homens”, relata a atriz.

A situação piorou após viralizar um vídeo do coach Thiago Schutz, que ficou conhecido nas redes sociais como “Calvo do Campari”, no qual fala sobre a suposta superioridade de homens em relação a mulheres. Infelizmente, vários homens com o mesmo tipo de pensamento estão pelas redes sociais.

“Eles tentavam derrubar a minha conta, mas não falavam muito. Só que, de repente, tinha vídeo meu que saía do ar. Eu recebia uma notificação que a minha conta estava em risco - porque obviamente o algoritmo não sabe ler ironia - e se tiver muita denúncia em cima do vídeo, ele pode criar uma bandeira de alerta como “discurso de ódio”, porque é óbvio que o robô não entendeu que era uma ficção”, explica.

No entanto, após o movimento da “machosfera” viralizar, os ataques começaram a aparecer com uma certa frequência. Vira e mexe, segundo a atriz, aparece um comentário xingando ela, ou um homem coloca um pedaço de seu vídeo de fundo e fica criticando o conteúdo. “Mas não me afeta muito, pois todos esses ataques falam muito mais sobre os caras, sobre as frustrações e a violência deles, além da forma que eles normalizam o ataque a mulher como tentativa de silenciamento, do que sobre mim”, avalia Campolina.

Ainda assim, ela diz sentir medo pela própria integridade física: “No meio dessa confusão, sempre pode ter um louco e nunca sabemos quem é.” No entanto, Claudia tenta rebater às críticas com humor. Dentro do ‘Mundo Invertido’, ela criou o curso “Mansão do seu macho: guia prático para domesticar seu homem”, estrelado pela personagem pink pill [em referência ao movimento da machosfera, red pill]. “Tem que tirar sarro desses caras, porque a vida inteira fizeram piada com mulher e, na hora que surge uma com eles, já partem para a violência porque não conseguem lidar”, opina.

ÓTIMA RECEPÇÃO

Já entre as mulheres, o papo é outro. Os vídeos de Claudia causam diferentes reações nas seguidoras, mas elas costumam reagir de maneira muito positiva às paródias da atriz. Ela já recebeu mensagens de mulheres que passaram por relacionamentos tóxicos e identificaram sua vivência pessoal com os vídeos de Campolina; outras chegaram ao seu perfil nas redes sociais por recomendação do psicanalista; e existe mais um grupo, que se dá conta do absurdo das falas machistas normalizadas na sociedade ao escutá-las na boca de uma mulher.

Em sua audiência, porém, também se encontram professores que já passaram seus vídeos em sala de aula, além de pessoas que trabalham em ONGs de direitos humanos com o foco em violência contra a mulher. Os vídeos do ‘Mundo Invertido’ também são objeto de pesquisa de uma seguidora de Claudia.

“Acho que, antes de qualquer coisa, as mulheres se divertem muito, principalmente por essa ‘brincadeira de vingança’. É muito comum eu escutar: ‘Cara, você lava a minha alma, mas, ao mesmo tempo, a gente sente, porque é real, né?’ Acho que isso tem uma pegada tragicômica”, completa ela.

FUTURO DO ‘MUNDO INVERTIDO’

Claudia Campolina revelou à Revista AnaMaria que tem planos de levar a websérie para outro local: o teatro. “Comecei a escrever agora um solo do ‘Mundo Invertido’ e pretendo estrear neste ano no teatro”, adianta a atriz, antes de complementar: “Vai ter bastante coisa desses movimentos tipo red pill.”

Ainda assim, ela revela que seu desejo era continuar com este universo também no cinema ou no streaming. “É o meu sonho, mas é algo que depende de mais gente e de mais tempo. Quando rolar esse convite por uma produtora ou uma emissora, vou ficar muito feliz e realizada. É o que eu mais quero”, conta.

Ela diz ainda que seria uma oportunidade para englobar outros discursos no ‘Mundo Invertido’, como as pautas do feminismo negro. “Tem que tomar muito cuidado, porque eu sou uma mulher branca, padrão e cis. Então, no solo [do teatro] é mais difícil. Agora, se virar uma série que vai para o streaming, com vários atores, eu vou colocar o corpo preto ali, porque sabemos que a mulher preta, na estrutura machista, é o corpo que mais sofre”, explica ela.

E uma de suas maiores tristezas, confessa Claudia, é não poder falar sobre mulher trans ou homem trans nesse universo, pois a personagem tem uma cultura matriarcal, que faz a opressão por uma lógica binária e do sexo biológico. “Ela é preconceituosa, então como falar de uma pessoa trans se minha personagem nem consegue compreender que existem outros corpos não linkados ao sexo biológico?”, completa Campolina, que disse já ter debatido com alguns seguidores transgênero e com a amiga Julia Katharine, pertencente à comunidade, sobre o tema.

“Ainda não sei como abordar esses assuntos, existe certa dificuldade. Como artista, porém, é importante essa questão de incluir as pessoas de todas as letras da comunidade LGBTQIA+ e os corpos pretos, porque sempre foram os mais violentados”, finaliza Claudia Campolina.

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