AnaMaria
Comportamento / Beleza vegana

Você sabia que o Veganismo é muito mais do que deixar de comer carne?

Enquanto algumas marcas buscam produzir cosméticos sem nenhum ingrediente de origem animal, médicos consideram veganismo ao sugerir meios de tratamento

Sabrina Castro, com supervisão de Vivian Ortiz Publicado em 23/12/2021, às 09h30

Monalisa Nunes, CEO da Clínica Derma Vegan - a primeira especializada em tratamentos para pessoas veganas e naturalistas -, prioriza cosméticos sem testes em animais no cotidiano e em suas prescrições aos pacientes - Instagram/@monadermavegan
Monalisa Nunes, CEO da Clínica Derma Vegan - a primeira especializada em tratamentos para pessoas veganas e naturalistas -, prioriza cosméticos sem testes em animais no cotidiano e em suas prescrições aos pacientes - Instagram/@monadermavegan

Poucos meses atrás, viralizou nas redes sociais o curta Salve Ralph’, projeto que tinha como objetivo salvar não apenas o coelho que dá título à produção, mas todos os animais que sofrem com os testes em prol da indústria de beleza. A maioria das marcas recorre a essa iniciativa com a justificativa de saber se os produtos podem causar reações nos consumidores. A prática, porém, já se revelou desnecessária neste sentido - afinal, existem outros meios de se realizarem os testes, como o desenvolvimento de “peles artificiais”. Tanto que, na União Europeia, testar produtos em animais já é uma prática proibida há anos.

Por outro lado, uma minoria das empresas já abandonou este ato. É o caso da Dailus, que, desde o início de suas atividades, em 2006, possui um portfólio livre de crueldade animal e foca no público que não consome nenhum produto de origem animal, incluindo, além da alimentação, uso de roupas e sapatos feito com a pele dos bichinhos e cosméticos com ingredientes de origem animal e/ou testados em animais. Esta parcela da população se recusa até a frequentar espaços que usam animais como atração.

Em 2018, a marca recebeu o selo PETA, uma certificação internacional que tranquiliza os consumidores que buscam produtos sem testes em animais. A certificação é concedida por pela organização não-governamental de mesmo nome, a People for the Ethical Treatment of Animals (PETA) - Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais, em tradução livre; a instituição se compromete acabar com o tratamento abusivo de animais na indústria e sociedade, tentando evitar o “especismo”, que é quando os seres humanos são colocados em nível superior de outros animais.

Todas as empresas que usam o selo nas embalagens de seus produtos concordaram em assinar uma declaração de que nem elas, nem seus fornecedores, conduzem ou encomendam testes em animais para avaliar a formulação do produto. De fato, a Dailus também acompanha de perto cada um dos terceirizados envolvidos no processo de produção. “Contamos com terceristas nacionais e internacionais certificados, que atuam junto às principais marcas do setor de beleza e são reconhecidos mundialmente pela qualidade assegurada no fornecimento de insumos e em seu processo produtivo. Uma das principais premissas para a homologação destas empresas é justamente não realizarem testes em animais”, explica Júlia Villa, gerente de marketing e marca da Dailus.

Segundo a gestora, o portfólio vegano da empresa também está em plena expansão - agora, praticamente 100% dos produtos da marca não possuem ingredientes de origem animal em sua composição. De acordo com Villa, a ideia é antecipar as tendências do mercado - afinal, os consumidores estão cada vez mais exigentes em relação a uma postura mais consciente das empresas de quem compram - e, claro, seguir o perfil de uma boa parte dos clientes da marca, que são adeptos de premissas do veganismo.

“O movimento de maior consciência dos consumidores vem acontecendo há alguns anos, e as marcas que não se adaptarem poderão perder grandes oportunidades de fidelização de seus clientes”, conta Júlia. De fato: uma pesquisa da Accenture em 2018 apontou que 77% dos consumidores brasileiros afirmam que suas decisões de compra são impulsionadas pelos propósitos das empresas. Além disso, 87% desejam maior transparência sobre fatores como a origem dos produtos, condições de trabalho e testes em animais. O diálogo transparente e próximo com os possíveis clientes também é um dos pilares da marca de beleza.

Atendimento médico

Monalisa Nunes na Clínica Derma Vegan
Monalisa Nunes é CEO da Clínica Derma Vegan, a primeira especializada em pessoas veganas e naturalistas no país | Foto: Instagram

Os produtos que não foram testados em animais são privilegiados por Monalisa Nunes, CEO da primeira clínica com especialidade em pessoas veganas, a Derma Vegan. O espaço busca tratar os pacientes com um atendimento humanizado. As ginecologistas, por exemplo, passam por treinamentos para atender homens trans; as dermatologistas são especializadas em pele negra. E isso é um ideal para todos os profissionais do espaço: médicas, secretárias, profissionais de limpeza. Por isso, os valores de todos os pacientes são respeitados - inclusive de quem não é vegano.

Mas é inegável que esta é a parcela mais beneficiada. Não é comum que os médicos tenham abertura para você pedir apenas por cosméticos sem testes em animais. Alguns nem sabem quais marcas realizam e quais abandonaram a prática. Mais do que isso: a própria comunidade vegana tem muitas dúvidas sobre a indústria cosmética. É aí que entra Monalisa: na atuação da dermatologista, ela privilegia a prescrição de produtos veganos (claro, respeitando os ideais dos pacientes). Também é uma espécie de “guia” para toda a variedade de produtos do mercado vegano: dos mais baratos aos mais caros; os de farmácia, os naturais… Afinal, ela também é especializada em pessoas naturalistas.

Claro que, no caso de medicamentos e vacinas, não há muito o que fazer: todos foram testados em animais em algum momento, e ainda não há nenhum tipo de alternativa científica para eles. Por isso, a comunidade vegana não recrimina este tipo de tratamento, e, se necessário, eles serão prescritos normalmente.

A clínica Derma Vegan

No início, Monalisa pretendia abrir uma clínica de dermatologia, com uma esteticista e um centro de SPA natural e vegano. Por outro lado, sua vivência fez com que começasse a ter uma ideia fixa: se fosse abrir uma clínica, teria de ser um espaço de medicina integrativa.

“Muitas vezes, o paciente vai em uma dermatologista e, depois, vai em outro profissional que descredibiliza ou interfere no outro tratamento. Não há uma sintonia, né? A melhor forma de cuidar de um paciente é no cuidado multidisciplinar, em que as especialidades se complementam”, ressalta Monalisa.

Para construir sua equipe, a jovem juntou amigas da faculdade e profissionais que já a atendiam. A maioria é vegana, mas nem todas. O que une o grupo são os valores éticos que norteiam a clínica: ver o paciente como um todo, e não como um “pedaço” (ou seja, enxergando a pessoa apenas a partir da lente de sua especialidade) e “praticar uma medicina menos medicamentosa, que tenha uma escuta mais atenciosa e importante” - a partir de consultas mais longas.

A clínica conta com ginecologista obstetra, psiquiatra, nutricionista e nutróloga - as duas últimas também veganas e especializadas no veganismo. Tudo para garantir um tratamento personalizado, respeitoso e alinhado aos valores dos pacientes.

Impacto do Veganismo

A própria Monalisa é vegana, e, por isso, sabe bem das dificuldades que este tipo de público enfrenta ao procurar tratamentos médicos. A adoção do novo estilo de vida foi abrupta: um dia, assistindo ao filme ‘OKJA’ - conhecido por transformar várias pessoas em vegetarianas ou veganas -, olhou para a irmã, a irmã olhou para ela, e ambas decidiram, juntas, que iriam parar com o consumo de produtos de origem animal. “A gente sempre teve esse amor pelos animais, então, no início, viramos veganas principalmente pelo respeito à vida deles. Nós não temos direito sobre elas, muito menos tirá-las com crueldade para nosso próprio prazer. Mas acho interessante falar que fomos aprendendo que e o veganismo está ligado a outras causas muito importantes, como a sustentabilidade, a saúde integral e até mesmo questões socioeconômicas”, explica.

De fato. A cada segundo, um boi, um porco e 190 frangos são abatidos. Um estudo da ONU representa que, até 2050, este consumo será triplicado. Os impactos disso na natureza são extremos. Para se ter ideia:

  • 1 kg de carne precisa de cerca de 15.400 kg de água para ser produzida;
  • A Organização das Nações Unidas (ONU) emitiu um alerta sobre a pecuária ser o setor que mais polui as águas do mundo de maneira irreversível;
  • Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 70% da terra desmatada da Amazônia é usada como pasto e coberta por plantações cultivadas para a produção de ração para o gado.

Uma das principais ideias para se adaptar a parar de comer carne é fazer isso aos poucos. Por isso, existe a iniciativa ‘Segunda sem Carne’. Apesar de parecer pouco, algumas das escolas da rede municipal do país já aderiram à ideia e conseguiram diminuir, em um ano, o consumo de 436 mil quilos do alimento.

Por outro lado, para Monalisa, a maneira mais fácil de começar a se inteirar no universo do veganismo é pelos cosméticos. Afinal, qualquer pessoa pode trocar um produto por uma alternativa vegana equivalente - seja um creme, um batom ou um protetor solar…

Além da natureza, o Veganismo impacta na saúde dos adeptos à dieta: um estudo publicado no JAMA Internal Medicine em 2013 mostrou que a dieta vegetariana, sem gordura animal, está associada ao menor risco de doenças crônicas, como síndrome metabólica, hipertensão, diabetes, doença isquêmica do coração e mortalidade por doenças renais.  

Para expandir essas ideias, a dermatologista não fica somente dentro das paredes de sua clínica. Monalisa usa as redes sociais para criar conteúdo sobre o tema - isso desde a faculdade. “Quando eu virei vegana, não conseguia pensar em falar de outra coisa, em mostrar como o movimento vegano tem práticas que podem ser aplicadas de forma simples no nosso dia a dia, e também desmistificar essa imagem radical que o veganismo tem. Muita gente acha que é um movimento muito restrito, difícil, distante…”, diz. Além disso, a médica ama ensinar. E aprender também: todo o saber que acumulou sobre o tema foi por meio de estudos autônomos. Até porque ainda não existe nenhuma especialização acadêmica para atendimento de pessoas veganas e naturalistas.

A própria Dailus, marca citada no início da matéria, também usa das redes sociais para oferecer conteúdos sobre temas relevantes ao público - inclusive o veganismo. Ou seja: a internet é um bom espaço para conhecer iniciativas que visam diminuir o sofrimento animal. Resta colocar isso na prática.