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O que é pobreza menstrual e como ela afeta as mulheres no mundo

A falta de higiene íntima pode trazer problemas sérios à saúde de crianças e adolescentes

Da Redação Publicado em 19/07/2022, às 08h00

Especialistas comentam sobre como a pobreza menstrual pode ser amenizada - Unsplash/Annika Gordon
Especialistas comentam sobre como a pobreza menstrual pode ser amenizada - Unsplash/Annika Gordon

Apesar de ser reconhecida como uma questão de saúde pública e de direitos humanos pela Organização das Nações Unidas (ONU), o acesso à higiene menstrual é desigual no mundo.

Dados obtidos e divulgados pelo Banco Mundial mostram que pelo menos 500 milhões de mulheres no mundo não têm condições adequadas para mantê-la. Com isso, muitas delas sofrem de pobreza menstrual.

Mas o que isso significa? De acordo com a presidente da Comissão de Valorização da Mulher da Fundação Ceperj, Noelma Faria, a pobreza menstrual pode ser caracterizada em três pilares:

1- Falta de recursos, como absorventes e coletores menstruais;

2- Falta de condições adequadas de higiene, como banheiros em condições de uso, com água e sabonete;

3- Falta de conhecimento sobre o tema.

QUEM É AFETADA?

“As pessoas mais afetadas são todas aquelas de menor poder aquisitivo, como estudantes, pessoas em situação de rua, mulheres desempregadas e presidiárias, que não possuem condições de comprar os itens básicos de higiene, muitas vezes, encarados como produtos supérfluos", explica Faria.

Além disso, a professora em obstetrícia Regina Rocco ressalta que a pobreza menstrual vai de 11 a 51 anos, período em que as meninas estão na escola e as mulheres no trabalho. Diante da necessidade, elas acabam fazendo uso inapropriado de papel higiênico, panos, miolo de pão, toalhas velhas e até estopa, o que gera danos à saúde íntima de meninas e mulheres.

Rocco explica quais são os possíveis danos à saúde dessas pessoas: “Pode levar desde uma irritação em toda a vagina por dentro, por fora, causar inflamação da uretra, infecção urinária e até nos rins. Há ainda o risco de entrar no canal vaginal, atingindo até mesmo o interior do útero e as trompas.”

A saúde mental, principalmente de crianças e adolescentes, também pode ser comprometida por esse problema estrutural, segundo a psicóloga e advogada Simone Coelho Aguiar, coordenadora da Secretaria da Escola de Gestão e Políticas Públicas da Fundação Ceperj.

“Muitas meninas têm vergonha do corpo, até por causa da própria idade, além de esbarrar na dificuldade financeira para comprar um absorvente, gerando um grande impacto psicológico e até mesmo um trauma que pode ser levado para a vida toda. Está na hora de todos prestarmos atenção nessas crianças e adolescentes, afinal, não são elas o problema, mas sim a falta da atenção”, destaca Aguiar.

NÚMEROS E INICIATIVAS

Uma enquete realizada pelo UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) em 2021, que contou com a participação de 1,7 mil crianças e adolescentes que menstruam, ficou constatado que 62% já deixaram de ir à escola ou a algum outro lugar de que gostam por causa da menstruação, e 73% sentiram constrangimento nesses ambientes.

A advogada Daniele Oliveira, membro da Comissão de Valorização da Mulher da Fundação Ceperj, reforça que “a pobreza menstrual pode ocasionar estresse, insegurança, vergonha e medo, contribuindo para aumentar a discriminação que meninas e mulheres sofrem na sociedade”.

Ela conta que a Comissão trabalha na arrecadação e doação de absorventes e coletores, engajando o público interno e externo a participarem da campanha, através de divulgações que conscientizam sobre a pobreza menstrual.

“A distribuição é feita para Centros de Referência Especializados em Assistência Social (CREAS) que atende meninas e mulheres vulneráveis. Essa é uma campanha que se soma a realização de palestras, simpósios e rodas de conversa sobre a importância de informações acerca do período menstrual e a forma de higienização feminina durante esse período”, completa Daniele.

A advogada criminalista Gisela França, que também integra a Comissão, opina que a pobreza menstrual pode ser solucionada com uma série de medidas conjugadas.

“A problemática da pobreza menstrual possui causas socioeconômicas e decorre de uma defasagem na saúde pública. Políticas de distribuição de itens de higiene pessoal e menstrual em escolas, postos de saúde, hospitais, casas de acolhimento, prisões, orfanatos e outras instituições do gênero, campanhas de saúde e conscientização são fundamentais na luta pela liberdade menstrual de meninas e mulheres em nosso país”, informa.