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Geração Alpha: Conheça mais as características das crianças nascidas depois de 2010

A educação e o comportamento das crianças da Geração Alpha são permeadas pela tecnologia

*Priscila Correia, do Aventuras Maternas, colunista de AnaMaria Digital Publicado em 11/03/2022, às 08h40

Conheça mais sobre a geração Alpha, que ama tecnologia. - Unsplash
Conheça mais sobre a geração Alpha, que ama tecnologia. - Unsplash

Novas tecnologias, preocupações com questões sociais e ambientais, desenvolvimento da inteligência emocional e de valores importantes como gentileza e empatia. Estas são algumas das características que marcam a chamada geração Alpha, formada pelas crianças nascidas a partir de 2010, que cresceram conectadas às telas e ao mundo tecnológico. Com maior acesso à informação, elas estão desenvolvendo uma nova forma de interagir com o mundo.

Entre as novidades no dia a dia desse grupo de crianças estão mudanças que vão desde a educação infantil oferecida nas instituições de ensino até manifestos criados por pequenos já engajados em transformar o seu entorno. Por aqui, inclusive, o meu mais velho tem alguns projetos voltados para a conservação do meio ambiente e criou um jogo para estimular as crianças a protegerem a natureza.

Sim, é uma geração que chegou com outra visão sobre o mundo. Por outro lado, apesar do amadurecimento em relação às tecnologias e o que elas podem fazer pela sociedade, há questões importantes a serem levantadas. Afinal, estamos tratando de crianças e adolescentes.

CONHECENDO A GERAÇÃO

Clarice Emiko Takeuti Yoshiura, mãe de Renan, de 7 anos, e Luana, de apenas 3, conta que o mais velho costuma falar que vai estudar para se tornar um médico. Ele fala em cuidar de pessoas doentes e achar a cura da Covid. E para ajudar o filho a construir esse mundo melhor, ela o incentiva de várias formas, como com estudos e atividades que desenvolvam o convívio em grupo para que ele entenda sobre temas como diversidade e a importância em respeitar a individualidade de cada um.

“Antes da pandemia, costumava levá-lo para uma instituição de assistência à criança com deficiência, a qual faço trabalhos voluntários”, conta. 

Sobre o uso de tecnologias, enquanto alguns demonizam e outros liberam demais, Clarice incentiva de forma assistida. “A tecnologia deve ser utilizada de forma controlada, porém não deve ser retirada do convívio deles. Todo final de semana realizamos atividades ao ar livre, para que eles possam se desligar desse mundo tecnológico. Durante a semana, porém, deixamos usar moderadamente. Incentivo o Renan a assistir documentários e a buscar informações relevantes para um assunto que esteja interessado. No momento, são navios”, comenta.

Aqui em casa, como eu disse, o Theo é super engajado em mudar o mundo. Ao contrário do que acontecia com boa parte dos Millenials e da Geração X, que antecederam a Alpha, a prática acontece. Tanto que ele participa de plantios de árvores, se recusa a participar de qualquer atividade que envolva o uso de animais como entretenimento e menciona constantemente a vontade de fazer ações para proteger a fauna em prol da despoluição das águas, do solo e do ar. 

Pensando nisso, ele criou um jogo chamado Ciclovias Verdes em que o jogador precisa passar por 4 fases que incluem a retirada de monóxido de carbono do ar, o reflorestamento e a criação de fábricas que só utilizem energia limpa. Já Benjamin, apesar da enorme influencia do irmão e de reproduzir seus exemplos, tem duas próprias teorias sobre ajudar o mundo e diz que tem a missão de ajudar as pessoas. 

Eu sei que é difícil imaginar que uma criança tão pequena, como o meu caçula, pense em questões tão profundas. Mas ele não é um exemplo isolado. Pelo menos não quando se trata dessa geração. 

Heloisa Minori Nagai, mãe de Rafael, de 3 anos, conta que desde cedo o filho foi instruído a não desperdiçar água, comida, luz, jogar lixo na rua etc. E ele segue os ensinamentos direitinho. 

“Digo que para ele viver num mundo melhor, precisa cuidar. Então, frequentemente, ele lembra de tudo o que aprendeu e quando vê algum lixo na rua, questiona por que alguém jogou fora da lixeira ou por que não recolheram o cocô. Percebo ele super engajado em mudar o mundo. Também levo ele para entregar cestas básicas, para sentir e entender o que é solidariedade; ele sabe dividir as coisas com os amiguinhos, como quando ganha algo e a outra criança não tem no momento”, diz. 

Já em relação às tecnologias, ela entende que não adianta querer que o filho somente brinque na rua, em contato com a natureza, se vive em espaços com ruas movimentadas. “Fazemos, é claro, programas ao lar livre, para que ele realmente coloque os pés na grama e brinque ao lar livre. Mas fazer com que eles vivam da mesma forma que outras gerações viveram é inviável. Devemos evoluir conforme o mundo evolui”, complementa.

Sim, exemplos que partem dos pais sempre foram importantes e não são apenas para as crianças dessa geração. Entretanto, pelo fato desse grupo ser extremamente digital, parece que já nascem com uma espécie de chip acoplado que dá uma dimensão maior sobre as questões fundamentais para a sobrevivência do mundo. Enquanto a minha geração tinha acesso mais direto às tecnologias somente na adolescência, agora eles praticamente nascem conectados. Inclusive, não é incomum encontrar crianças que saibam mexer melhor em celulares e tablets que adultos de 40 anos.

Lorena Jacob, psicopedagoga e Diretora Pedagógica do colégio Physics, explica que essa geração já começa a “mostrar seus princípios” desde os primeiros meses de vida, pois elas já pertencem a um mundo tecnológico, vivem rodeadas por tecnologias e estão desenvolvendo uma nova visão de mundo. 

“Para eles, não existe separação clara entre o virtual e a “vida real” e isso reflete em novas formas de se relacionar; de aprender e de experimentar o mundo a sua volta”, pontua. E vai além: “essa geração tem tudo pra ser uma geração futurista, eles têm a capacidade de enxergar cada vez menos barreiras entre as pessoas, percebem a diversidade com naturalidade. Coisas como 'isso é de menino ou de menina' caem por terra nessa geração”, explica. 

Outra característica importante dessa geração é que valorizam muito as experiências, querem inventar, interagir e se conectar, resultando em crianças atentas e observadoras.

Mas embora haja vários pontos positivos na educação destas crianças, é muito comum que apresentem baixa habilidade emocional e tenham dificuldades para lidar com as próprias emoções e fracassos. 

"É preciso alertar os responsáveis, tanto pai quanto mãe, que não basta criar indivíduos regrando uma boa alimentação e com o 'tudo pode'. É preciso sempre estabelecer limites, promover o diálogo, momentos de conversa, carinho e atenção para que tenhamos menos problemas no futuro”, ressalta José Buongermino Raucci, psicólogo da Conmedi Paulista.

A TEMIDA TECNOLOGIA

Se a geração X não usava gadgets como as atuais é comum observar os excessos como um problema e buscar o limite do acesso. E a verdade é que essa geração é cercada de conteúdo por todos os lados. E a imensa maioria desses conteúdos, é claro, são diretamente associados ao meio digital. 

Seja pelo YouTube, pelas mídias sociais, documentários e séries do Streaming - com foco em diversos temas, que vão de Ciência à Arte, passando por História, Matemática e aprendizado de línguas estrangeiras – ou livros, as crianças Alpha têm acesso a informações variadas desde a primeira infância e isso reverbera diretamente em sala de aula.

Para a psicóloga Sirlene Ferreira, por serem de uma geração que desde bebês usam as telas para diversão e aprendizagem, as crianças Alpha enxergam a tecnologia de uma forma diferente. 

"Para as gerações anteriores, a tecnologia é uma ferramenta usada para terem acesso ao que procuram. Já para a Alpha, basicamente falando, é como se a tecnologia já funcionasse dentro deles, que não precisassem acessar algo externo. Essa geração vive, literalmente, com o mundo na palma das mãos por meio de celulares e tablets. A velocidade que as informações chegam para esse grupo nunca foi vivenciada pelas demais gerações", esclarece. 

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Mas, da mesma forma que informação de qualidade chega até essas crianças de forma muito rápida, há também outros conteúdos que precisam ser questionados e evitados. "Nem tudo que está disponível na internet é verdadeiro e saber separar o joio do trigo não é uma tarefa simples, sobretudo para os pequenos", complementa.

Miriam Sales, coordenadora pedagógica da Mind Lab, empresa de tecnologias e soluções educacionais, explica que, atualmente, as tecnologias são aliadas vitais para os processos de aprendizagens, comunicação e para a nossa vida em sociedade. Ou seja, não é mais possível, nem viável evitar seu uso. 

“No entanto, acredito na importância de humanizar a nossa relação com recursos tecnológicos. Isso acontece com práticas éticas, cultivação do respeito, interações com as diferenças e o entendimento de que essa troca precisa acontecer. Jogar a distância não supre a necessidade de contato físico e das trocas entre colegas; o ensino remoto, apesar de ter sido o único elo entre escola, professor e aluno, sobretudo na pandemia, inegavelmente tem suas vantagens. Mas é a escola o ambiente ideal para construir relações de respeito, empatia, convivência com os pares e harmonia. Essa troca jamais poderá ser substituída por dispositivos eletrônicos”, diz.

O DESAFIO DO ENSINO PARA ESSA GERAÇÃO

Nem sempre as matérias novas da escola representam uma novidade, pois existe uma grande possibilidade de a criança já ter assistido a vídeos ou acompanhado um youtuber falar sobre ele, o que acaba exigindo dos professores e dos pais um pouco mais de dinâmica no ensino do conteúdo.

A imersão na tecnologia acabou “obrigando” as escolas a terem métodos educacionais diferenciados. Afinal, ensinar crianças que já nasceram com acesso a todo tipo de resposta para as mais diferentes questões apenas por meio de um toque é um grande desafio. Para Lorena Jacob, as escolas devem a todo custo evoluir tecnologicamente e ampliar sua capacidade de estimular o colocar as mãos na massa, seja com espaços Maker, laboratórios, hortas, plantios, expressões artísticas etc.

Além disso, é importante dizer que a educação também passou por mudanças para ensinar conteúdos mais ligados ao social e à inteligência emocional. 

“De fato, são experiências que elas precisam. As escolas precisam oferecer ambientes que estimulem esse tipo de aprendizagem. Vivência é o que precisam. Portanto, habilidades como a criatividade, a empatia e a inteligência sócio emocional são cada vez mais valiosas, já que são justamente as áreas que apresentam mais deficiência. Na prática, trabalhamos esses aspectos baseados na CNV (Comunicação não violenta) como base de todo esse processo”, esclarece Lorena.

Outro ponto importante é que essa geração é a primeira a ser educada com base na disciplina positiva e isso, obviamente, terá reflexos no futuro. “Teremos uma geração mais reflexiva, analítica e observadora, com mais facilidade para resolver melhor os problemas, maximizando seu potencial e contribuindo positivamente para o bem comum. Provavelmente, vão agir commais respeito e consciência, promovendo atitudes adequadas que visam a educação a partir de uma perspectiva coletiva e inclusiva”, exemplifica Miriam Sales.

A PAUTA É...

Como disse Sirlene, se o mundo discute um tema, as crianças da geração Alpha certamente estão por dentro. Sim, essa é uma geração mais antenada e preocupada com os problemas do mundo.

Para Bárbara Snizek Ferraz de Campos, psicóloga e mestre em Antropologia Social, por essa geração ser formada por crianças que não lidam com o digital como uma ferramenta, mas de forma contínua e imersos em uma quantidade infinita de informação, elas têm uma visão de mundo ampliada e rápida e, por isso, mais antenada e preocupada com os problemas do mundo. 

“As preocupações sociais e ambientais são mais presentes devido a um maior acesso à informação e à discussão de temas sensíveis a sociedade como um todo. Por isso, espera-se que seja uma geração mais consciente quanto ao impacto de suas ações no planeta. Mas só saberemos se realmente serão adultos mais empáticos e engajados com pautas importantes em um tempo posterior”, pontua.

Humberto Eduardo Vanceto Camargo, Professor de Geografia do Colégio Anglo Leonardo da Vinci, explica que, antes de definir se essa geração será mais ou menos engajada que outras, é preciso entender as mudanças entre elas. 

“As gerações anteriores eram definidas a partir de acontecimentos históricos ou sociais, mas, agora, elas são determinadas pelo uso de determinadas tecnologias. E essa diferença, provavelmente, vai nortear a forma com que lidam com questões importantes para o mundo, como diversidade, cuidados com o planeta etc. Entretanto, como essa geração será concluída apenas em 2025, não temos ideia ainda de como irão se preocupar com as questões sociais e ambientais de fato. É uma possibilidade que sejam mais atuantes, até mesmo por terem muito acesso à informação? Sim, mas não é possível ter certeza. No entanto, as perspectivas são as melhores”, diz. 

Em relação ao aquecimento global, tema que já faz parte das discussões de alunos dessa faixa etária, Humberto lembra que essa geração será a primeira a vivenciar, na prática, a substituição de recursos não renováveis por recursos renováveis e limpos.

Para Janine Rodrigues, educadora, escritora e fundadora da Piraporiando, Edtech especializada em conteúdos infantis que tratam temas como racismo, inteligência emocional, entre outros, quando o assunto é diversidade, as mudanças que têm acontecido na última década já estão impactando muito e positivamente a geração Alpha. 

“A necessidade de se relacionar com todos e todas, de respeitar, de não aceitar intolerâncias, é algo muito presente na vida das crianças e jovens Alpha. Ainda que tenham muitos casos de preconceitos e discriminação, essa geração mais nova já não discrimina tanto e na verdade não enxerga nada ou quase nada a ser discriminado. Inclusive, percebo que há um movimento que vai além do discurso. Embora tão jovens, eles mostram na prática como abraçam as diferenças realmente. Estamos longe do ideal, mas tenho percebido uma vivência prática que antes ficava apenas na fala”, conclui.

*PRISCILA CORREIA é jornalista, especializada no segmento materno-infantil. Entusiasta do empreendedorismo materno e da parentalidade positiva, é criadora do Aventuras Maternas, com conteúdo sobre educação infantil, responsabilidade social, saúde na infância, entre outros temas. Instagram:@aventurasmaternas