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Marjorie Estiano fala de nova série e de como foi gravar na pandemia: ''Experiência mais difícil que vivi’'

Especial de 'Sob Pressão' mostrou a realidade dos profissionais de saúde e pacientes em um hospital de campanha; agora, atriz vive uma mulher sedutora em série de terror

Juliana Ribeiro Publicado em 23/10/2020, às 08h20

Marjorie Estiano gravou em plena pandemia especial de 'Sob Pressão' - Reprodução/ Gshow
Marjorie Estiano gravou em plena pandemia especial de 'Sob Pressão' - Reprodução/ Gshow

Interpretar a médica Carolina na série 'Sob Pressão', da TV Globo, foi um dos grandes desafios na carreira deMarjorie Estiano. Tanto que, nas últimas semanas, a atriz emocionou tanto o público que acabou se tornando alvo de elogios e um dos assuntos mais comentados nas redes sociais. 

O motivo? A pandemia do novo coronavírus, assunto de uma leva de dois episódios especiais da série, reforçando uma característica marcante da produção, que é sempre mostrar histórias e fatos que representam a realidade. Para a atriz, que concorreu ao Emmy Internacional pelo papel no ano passado, vivenciar um momento tão difícil como o atual na ficção foi desafiador. 

"A pandemia é algo muito complexo e inédito para quase todo mundo. Cada um se relaciona de uma forma com essa condição, mas todos nós estamos em um momento de muita instabilidade, incerteza, medo e perdas de várias ordens", diz.

Marjorie, porém, já voltou a mostrar sua versatilidade na TV em um papel bastante diferente da profissional de saúde que os fãs estão acostumados a ver. É que ela é uma das estrelas da série de terror 'Noturnos', que estreou na última quarta-feira (21) na Globoplay e no canal Brasil.

Todos os seis episódios são baseados em contos e poemas sombrios de Vinícius de Moraes, publicados entre 1930 e 1950. Na produção, a personagem de Marjorie é Ana, uma mulher fantasmagórica e muito sedutora. 

Neste bate-papo exclusivo com a Ana Maria Digital, a artista de 38 anos conta como foi gravar em plena pandemia, além de revelar seus planos na carreira musical e projetos para o futuro. 

Confira a entrevista na íntegra!

'Sob Pressão' acabou virando um grande sucesso. Lá no início do projeto, você esperava que tivesse esse retorno do público e da crítica?  
A gente sempre foi muito feliz fazendo, e acho que posso falar por todo mundo. Era unânime a satisfação em estar no projeto e falar desse assunto com esse texto e com essa equipe. Sempre nos sentimos muito motivados. Andrucha (Waddington, diretor da série) me apresentou uma nova perspectiva sobre liderança, de uma parceria sobrenatural. Ele estabelece uma relação muito horizontal com todos, sempre amoroso e respeitoso. Sempre soubemos que tínhamos feito algo que era bastante especial pra gente, estávamos muito satisfeitos por perceber que o que pretendíamos estava ali, mas nunca sabemos como será o retorno do público. Por ser um assunto muito delicado e bastante polêmico, poderia ficar excessivamente militante, violento e fantasioso, por exemplo. Era bastante arriscado e ousado, mas o caminho que ‘Sob Pressão’ está fazendo não poderia ser melhor. É uma aula de cidadania em entretenimento. 

Nesses episódios mais recentes, que mostram a realidade atual de milhares de profissionais da saúde na linha de frente contra a covid-19, chamou a atenção a parte da foto do crachá, entre várias outras cenas ótimas. Para você, como atriz, o que significou vivenciar toda essa realidade 'na pele'?  

Marjorie Estiano interpreta a médica Carolina em 'Sob Pressão' FOTO: TV Globo

Apesar de duro, foi ao mesmo tempo estafante e libertador, além de sofrido e esperançoso. Os profissionais da saúde, junto com a imprensa e a sociedade civil, se mostraram nossos alicerces nesse momento. A pandemia é algo muito complexo e inédito para quase todo mundo, e viver essa metalinguagem nas filmagens não foi simples. Cada um se relaciona de uma forma com essa condição, mas todos nós estamos em um momento de muita instabilidade, muita incerteza, medo, perdas de várias ordens. Somos um conjunto, uma equipe e dar conta disso é um exercício constante e diário. Para além de todo arco dramático dos personagens, do meu pessoal e do nosso enquanto conjunto. Estamos fora do nosso lugar de conforto. Administrar essas oscilações certamente foi um grande desafio, mas acho também que justamente pelo fato de estarmos na pandemia, de estarmos falando e fazendo algo que talvez ainda possa ser útil no curso dela, houve muita motivação.  

A pandemia também trouxe uma nova forma de produção para toda a área de entretenimento, justamente para evitar o contágio pelo novo coronavírus. Como foi gravar neste momento? Você sentiu medo de sair do isolamento social e ir trabalhar?  


Lidar com a possibilidade de uma contaminação leva a uma série de cuidados, e muita energia se perde nesse processo, pois é cansativo mudar um comportamento tão comum. Além da questão de ter que interromper com a produção caso alguém se contaminasse, existe o medo das consequências para a saúde. É uma cadeia, um dominó, em que você pode não desenvolver de forma grave, pode não sentir nada, mas também pode contaminar alguém que mora com a mãe idosa e diabética, por exemplo. Foi talvez a experiência mais difícil que vivi com o ‘Sob Pressão’. Como atuar é também o exercício de conduzir suas emoções, ter um terreno firme, estável, para que elas percorram o caminho necessário, foi uma luta interna contínua. 

Aproveitando ainda essa questão, como foi para você lidar com essa fase de 'confinamento'? 
Comparando com a realidade da maioria dos brasileiros, estou passando quase ilesa. Eu vivo o isolamento no meu medo projetado pela minha imaginação, tanto sobre o vírus quanto sobre as perdas. A quarentena tem consequências muito diferentes de acordo com cada realidade e, apesar de sem dúvida estarmos no mesmo contexto, algumas característica alteram radicalmente o desafio. Eu tive que lidar com todo o desamparo emocional, muito medo, tristeza, incerteza e abandono. Tudo que chega junto com essa ameaça de morte. Vivendo e assistindo a todo esse sofrimento em cadeia disparado pelo vírus. Com o privilégio de ter suporte para enfrentar o isolamento por esse viés, e auxiliar familiares, amigos e grupos mais vulneráveis da sociedade.  

Voltando para a série, em meio a tantas histórias que ela contou, qual foi a mais marcante para você? E a mais difícil de interpretar?  
Acho que a experiência mais difícil foi fazer esse especial, por todas as razões que já falamos. O fato de estarmos vivendo a pandemia, os riscos que assumimos, a instabilidade emocional, em mim e em todos, a energia que é consumida com esse constante estado de alerta, somado a todo arco dramático da ficção. Em relação ao mais marcante, acho que não tem, porque são muitas as marcas que a série está construindo em mim. Já o mais doloroso, sem dúvida, foi estudar o abuso sexual na infância. Foi a parte que mais doeu na construção da personagem, pois me deparar com a facilidade e a quantidade de material foi assustador. O abuso sexual é uma violência desesperadoramente comum e o número é muito maior entre crianças. Na maioria dentro de casa, com familiares, vizinhos ou pessoas próximas. E é de efeito prolongado, mesmo após a interrupção da violência. Lidar com essa ferida é bastante complexo, se reconstruir exige bastante da vítima também. Achei bonita e proveitosa a maneira que a série abordou. Apesar de ser uma personagem que não tira isso de letra, ela não se rende e reúne a força e a fragilidade de uma forma inspiradora e acolhedora. Denuncia e instrui o espectador, tanto quem é vítima quanto quem pode reconhecer uma vítima e ajudá-la. E, por mais sofrido que seja, é necessário e urgente falar, mostrar e oferecer todo tipo de suporte e investimento para que essa realidade possa vir a ser transformada. 

Como foi essa parceria com Julio Andrade [que vive o marido de Carolina em ‘Sob Pressão’]? O quanto encontrar um ótimo parceiro profissional ajuda no andamento do trabalho de um ator?  

Marjorie e Julio formam o casal Carolina e Evandro em 'Sob Pressão' FOTO: TV Globo

Posso dizer que é uma parceira pra vida. O Julio é um artista na conotação mais mística possível, e tudo que ele toca vira arte. É um cara muito especial, sensível e respeitoso, além de ter total domínio do tudo dentro de um set. Essa criatividade que o [personagem] Evandro tem em criar soluções em um atendimento, o Julio tem dentro de um estúdio de gravação. Ele, inclusive, instigou muito a entender um pouco melhor o trabalho por trás das câmeras, para poder usufruir mais do conjunto, facilitar mais para o todo. É uma pessoa, para além do ator, muito intuitiva. Eu aprendi tanto e de uma forma tão bonita com essa parceria, tão inspiradora. Só posso agradecer a sorte de ter tido essa oportunidade de estar tão próxima a ele. Temos processos diferentes em alguns aspectos de trabalho e isso é ainda mais especial porque soma, acrescenta algo novo aos meus olhos e à minha percepção, mais uma possibilidade de conexão. Ele é muito importante para o meu trabalho, o jogo com ele é sempre vivo, vigoroso, legítimo e criativo. O Julio é um artista raro.  

Para viverem médicos e outros profissionais da área da saúde, vocês precisaram adquirir algum conhecimento mais técnico do assunto. Como funcionou esse treinamento? Teve alguma curiosidade bacana para contar?  
Para viver uma médica, foi preciso fazer laboratório em campo, pesquisa, investigação e tempo. Fomos compreendendo junto com as temporadas a apreender e minimamente entrar nesse universo extremamente complexo. Em relação ao Covid, não posso dizer que faltou material, já estávamos vivendo o contexto da pandemia bastante tempo mesmo antes da decisão de filmar os episódios, com toda a cobertura da imprensa, dentro e fora dos hospitais, acompanhando pacientes e profissionais sob perspectivas diversas. Realmente, tivemos muito material por esse lado, mas o Dr. Marcio Maranhão (consultor médico de ‘Sob Pressão’) é a essência. Foi ele quem nos apresentou a perspectiva mais humana, atenta e sensível na relação com a saúde, com a equipe, com o paciente, o familiar do paciente e o espaço físico. Compreender esse universo ficou muito mais fácil, pois ele próprio tinha muitos registros pessoais de sua trajetória durante o atendimento no hospital de campanha e antes do hospital de campanha. Ele orientou em todo o processo, tanto na preparação quanto no set.   

Qual foi o principal aprendizado que você tirou de 'Sob Pressão'? Mudou sua perspectiva de alguma forma em relação à saúde no país?  
Sem dúvida. Foram muitas mudanças, em vários aspectos. Seja durante o processo e após, continuo aprendendo muito. O ‘Sob Pressão’ impacta todo mundo quando expõe a grande realidade, sendo que é dentro do hospital que a gente enxerga o todo. A saúde é um reflexo da educação, da cultura, da segurança e da economia. E dentro do hospital você tem um panorama da cidade e do país. Antes a minha relação com a saúde era através do noticiário, mas a série me trouxe uma proximidade não só com o tema saúde, mas toda uma perspectiva do sistema de saúde do Brasil. E ainda de dentro dos hospitais, pelos olhos de profissionais totalmente comprometidos com o paciente, com a saúde de uma forma extremamente humana. Me sensibiliza muito e me inspira uma nova perspectiva também sobre o meu lugar de cidadã. Sei que inspirações têm um ciclo e é natural que a demanda da rotina acabe burocratizando um pouco esse olhar novamente, mas é trabalho meu não deixar isso acontecer ou resgatar esse estado motivado sempre que preciso, mas não tenho dúvida de que algo já foi construído [dentro de mim].  

É nítido na internet a forma como o público te admira. Como se sente ao receber esse carinho? Os fãs costumam ser mais ousados ou mais comedidos quando te encontram?

São extremamente respeitosos. Vejo admiração e orgulho. Me sinto em parceria com o retorno deles, é onde o ciclo se completa. A maneira, a densidade é muito sensível. Eu quase consigo compreender precisamente de que lugar eles estão falando ou aonde e como o trabalho está chegando. Não apenas através da [personagem] Carolina. Vejo uma consistência na relação entre o meu trabalho e o público e me sinto muito realizada com isso. Acho que a arte é um instrumento muito poderoso para a compreensão de si, do entorno, de tudo que diz respeito ao humano e pode ser muito acolhedora e libertadora. Me dá muito prazer perceber que posso ser útil nesse lugar. 

Olhando para trás, você consegue indicar a personagem mais marcante da sua carreira até agora?  
Tenho uma carreira jovem ainda, talvez com 30 anos de exercício da profissão eu possa nomear os personagens mais marcantes, mas hoje eles ainda estão tão frescos e especiais em mim que seria injusto falar de um deles apenas. Olho para o futuro com entusiasmo, curiosidade e disposição, mas de qualquer maneira, tenho plena convicção de que mesmo com 30 anos de profissão, a Dra. Carolina continuará sendo uma das mais marcantes. 

Ainda sonha em interpretar algum papel específico? Qual?  
Minhas escolhas são feitas sempre por um conjunto de elementos, porém meus interesses não obedecem muitas regras. O ponto de vista. O contexto. Pra quê. Pra quem. Com quem. As possibilidades são infindáveis. Sei que meus olhos brilham muito quando se deparam com algo novo. Novo em características, em linguagem, novo pra mim, novo pra todos... O novo é desafiador, me obrigada a investigar perspectivas diferentes, isso amplia minhas ferramentas e é muito enriquecedor em diversos aspectos, muito difícil, porém sedutor e gratificante. Também posso ter um novo olhar sobre um lugar já familiar. Não idealizei nenhuma personagem até agora, tenho encontros inesperados que não seguem um critério específico, mas percebo uma lógica. Me interessa ser um instrumento que sirva a qualquer um, só preciso sentir uma conexão, posso até prever através do que ela viria, mas não asseguro. 

Uma personagem bem marcante sua foi a Natasha, da temporada 2005 de 'Malhação'. E ela cantava. Como anda o lado musical da Marjorie hoje?  

Em Malhação, Marjorie interpretava a roqueira Natasha, da Vagabanda FOTO: João Miguel Júnior / TV Globo

Eu sou movida musicalmente. A música é parte integrante de mim em tudo, em todos os departamentos de mim mesma. Minhas cobranças e meus desejos se modificam. Não tenho nenhum objetivo, meta no momento, mas sim uma relação de muito afeto e prazer com a música. E sempre tive muito compromisso com tudo que me disponho a fazer. Talvez seja uma questão de tempo, talvez não. Sou feliz com o que já fiz e tenho desejo de me explorar mais nesse lugar, porque me faz bem. O que isso significará para o futuro, objetivamente, não saberia responder.  

Para finalizar, quais seus planos para o futuro pós-pandemia?  

Em 'Noturnos', Marjorie dá vida a fantasmagórica e sedutora Ana FOTO: Emiliano Capozoli/Divulgação

Tivemos que interromper as filmagens da série 'Fim', uma adaptação do livro da Fernanda Torres feita por ela mesma, em março deste ano. Filmamos apenas umas semanas e tivemos que parar, mas pretendemos retomar. Ainda temos a 4ª e 5ª temporada do 'Sob Pressão' para ser feita. Lançamos dia 21 de Outubro no Canal Brasil e no Globoplay a série 'Noturnos', do Marco Dutra e Caetando Gotardo, uma série de terror inspirada em contos de Vinícius de Moraes. Mas tirando essa data marcada e concreta do Noturnos que já está pronto, todos os outros projetos ainda estão avaliando uma adaptação para conseguir incorporar a realidade do momento, ainda com a presença e ameaça da Covid. Então, a curto prazo meus planos são de me manter viva e saudável e a médio e longo prazo, ainda um pouco imprevisível.