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Afegã tem bebê dentro de avião militar dos Estados Unidos

Piloto precisou fazer manobra rasante para aumentar a pressão dentro da aeronave

Da Redação Publicado em 22/08/2021, às 12h26 - Atualizado em 27/08/2021, às 17h57

Voo ia do Oriente Médio até a Alemanha - Reprodução
Voo ia do Oriente Médio até a Alemanha - Reprodução

A crise causada pelos talibãs no Afeganistão tem levado ao surgimento de histórias dramáticas. Uma mulher grávida afegã, por exemplo, deu à luz a uma menina dentro de um avião militar dos EUA após fugir de seu pais. 

Durante o voo, que ia de uma base no Oriente Médio para a Alemanha, ela entrou em trabalho de parto e começou a ter complicações. O piloto, então, optou por voar mais baixo para aumentar a pressão do ar na aeronave, o que ajudou a estabilizar o estado de saúde da mãe.

Quando o avião pousou, militares ajudaram no trabalho de parto e o bebê nasceu na área de carga do avião. Tanto a mãe quanto o bebê, uma menina, foram levadas para uma unidade médica da cidade e passam bem. As informações são da Força Aérea norte-americana.

ENTENDA O QUE ESTÁ ACONTECENDO?
Pessoas se pendurando na parte externa de um avião para fugir do país. Pais jogando seus filhos sobre cercas, implorando para que militares estrangeiros os levassem para longe. Estas e outras imagens representaram o desespero da sociedade afegã após o retorno do Talibã ao poder do Afeganistão, concretizada no último domingo (15). Basicamente, isso aconteceu após os Estados Unidos retirarem suas tropas do país após 20 anos de ocupação, deixando a passagem livre para que o grupo extremista tomasse o poder novamente. 

No mesmo dia, o presidente Ashraf Ghani saiu de Cabul, capital do país, criando condições para que o palácio presidencial fosse tomado pelo Talibã. Infelizmente, as consequências serão desastrosas, considerando o primeiro ‘governo’ do grupo - o Talibã controlou o Afeganistão entre 1996 e 2001, até que os norte-americanos invadiram o país para combater o grupo terrorista Al-Qaeda, responsável pelo atentado das torres gêmeas, e que havia sido acolhido pelos fundamentalistas afegãos.

Em 2017, os rumos começaram a mudar. O Talibã emitiu uma carta para o presidente Donald Trump, pedindo que ele retirasse as forças dos EUA do Afeganistão. Eles assinaram um acordo de paz em 2020: Trump prometeu liberar militantes presos, enquanto os líderes extremistas concordaram que o país não serviria de asilo para grupos que ameaçassem a segurança dos norte-americanos.


Integrantes do Talibã no palácio presidencial (Crédito: Divulgação/Vídeo).

O acordo, porém, não dizia nada a respeito do próprio Afeganistão. O país, que passou a viver em uma democracia, viu tudo ser destruído após a saída dos apoios estrangeiros (não só os EUA, mas o Canadá e alguns países da Europa também estavam presentes no país). As forças de segurança afegãs ofereceram pouca resistência e, em alguns dias, os militantes do grupo estavam sentados nas cadeiras de todas as esferas do poder.

Segundo os dados do Índice Global do Terrorismo, publicado em 2019, o Talibã é o maior grupo terrorista da história, sendo até mais violento do que o Estado Islâmico. Para se ter uma ideia, em 2018, o Talibã foi responsável por 38% do total de fatalidades em atos terroristas no mundo (6103 mortes); 71% a mais na comparação com o ano anterior.


Multidão aglomerou em aeroporto, tentando deixar o Afeganistão; duas pessoas se penduraram na área externa do avião e caíram (Crédito: Satélite Maxar Technologies).

RELIGIÃO OU POLÍTICA?
Na primeira vez que eles assumiram o poder, eram comuns execuções públicas com açoitamentos e apedrejamentos. Gangues paramilitares circulavam pelas ruas e a censura atingia todos os veículos de comunicação. 

Mulheres e LGBTQIA+ foram os mais afetados pelo grupo: 

  • qualquer relação sexual com alguém do mesmo gênero era punida com a morte;
  • mulheres não podiam trabalhar, estudar ou sair de casa sem a autorização expressa do marido ou de outro familiar homem - nestes casos, viúvas poderiam morrer por não conseguir ir ao mercado, por exemplo, já que não há homens que possam fazer isso por elas. 

Vale lembrar da ativista pelos direitos das mulheres Mina Mangal, afegã que foi morta a tiros pelo grupo quando saiu de casa, em Cabul. Tudo isso, de acordo com os fundamentalistas, seriam princípios da religião islâmica. 

Mas não são apenas as minorias que estão fugindo do país. A própria população muçulmana não concorda com os ideais antidemocráticos do Talibã. Isto revela que, na realidade, a religião em si não é o problema. É a interpretação extremista do grupo, em prol de interesses políticos e econômicos, que causam o terror das pessoas.

“Um ensinamento no próprio Alcorão [equivalente muçulmano a Bíblia] afirma não haver compulsão na religião; a imposição não vem do Islã, e sim de pessoas que usam a religião como instrumento para atingir interesses políticos e sociais. E, quando isso acontece, o primeiro grupo a perder força são as mulheres”, conta Fabíola Oliveira, influenciadora feminista e muçulmana.